Quando María Corina Machado recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em outubro de 2025, ela era o principal símbolo da oposição ao governo de Nicolás Maduro e contava com o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Um ano depois, nem o reconhecimento, nem sua relação com o americano a levaram para onde esperava.
O Comitê Norueguês do Nobel concedeu o prêmio a Machado “por seu trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos para o povo da Venezuela e por sua luta para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia”. Na ocasião, o comitê afirmou que ela ajudava a “manter a chama da democracia acesa em meio a uma escuridão crescente”.
Em janeiro deste ano, Maduro foi deposto e levado para os Estados Unidos em uma megaoperação, onde está preso à espera de julgamento. A vice, Delcy Rodríguez, assumiu a Presidência interina da Venezuela e se tornou aliada de Washington, mantendo o chavismo no poder.
A oposição venezuelana, porém, entrou em uma nova fase depois da queda de Maduro, e Machado está no exílio desde dezembro, com tentativas frustradas de retornar a Caracas desde então, sem o apoio do então aliado Donald Trump.
Um Nobel dedicado a outro

Após o anúncio da Comissão, em outubro, Machado afirmou que era “absolutamente justo” dedicar a parte da honraria ao presidente Donald Trump – que nunca escondeu suas ambições de ter o reconhecimento -, pelo apoio americano à causa da oposição venezuelana.
Em janeiro deste ano, dias depois da operação que retirou Maduro do poder, Machado entregou pessoalmente a Trump a medalha do Nobel durante um encontro na Casa Branca.
“Entreguei a medalha, o Prêmio Nobel da Paz, ao presidente dos Estados Unidos”, disse ela na ocasião.
Machado comparou o gesto a um episódio envolvendo o revolucionário latino-americano Simón Bolívar. Segundo ela, o general francês Lafayette havia dado a Bolívar uma medalha com a imagem de George Washington, que o líder venezuelano teria guardado pelo resto da vida.
“Duzentos anos depois, o povo de Bolívar entrega uma medalha ao sucessor de Washington”, afirmou Machado.
Queda de Maduro

Em 3 de janeiro, os Estados Unidos depuseram Nicolás Maduro e o levaram, junto com sua mulher, Cilia Flores, para Nova York. A operação alimentou especulações sobre quem assumiria o comando da Venezuela e sobre a possibilidade de Machado ocupar um papel central na transição.
Porém, isso não aconteceu, frustrando opositores do chavismo.
Delcy Rodríguez, então vice de Maduro, foi colocada no poder como presidente interina e passou a negociar diretamente com Washington. Machado, que continuava impedida de retornar à Venezuela, ficou de fora.
Trump também esfriou a possibilidade de um governo liderado pela opositora. Depois da captura de Maduro, o presidente americano afirmou que “seria difícil” para Machado governar a Venezuela por não ter o apoio ou o respeito necessários dentro do país.
Após o encontro, a então secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que o Trump fazia uma avaliação “realista” sobre as possibilidades de liderança da venezuelana e que sua posição não havia mudado.
Fora da Venezuela
Machado deixou a Venezuela em dezembro para receber o Nobel em Oslo, na Noruega, mas não conseguiu chegar à cerimônia a tempo. Sua filha recebeu a medalha em seu nome.
Desde então, a opositora permanece escondida e enfrenta uma proibição de entrada no país. Nos últimos meses, segundo um de seus principais assessores, Machado tentou retornar por diferentes rotas, mas foi impedida em todas as ocasiões.
Em 22 de setembro, ela chegou três vezes à fronteira venezuelana, por terra e mar, mas teve a entrada recusada em todas elas, segundo o assessor sênior David Smolansky disse à CNN.
As tentativas aconteceram enquanto Delcy Rodríguez estava em Nova York para a Assembleia Geral da ONU e se reunia pela primeira vez com Trump.
Machado também passou a criticar publicamente algumas das decisões tomadas pelos dois líderes.
Após Trump e Rodríguez anunciarem um acordo para a exploração de petróleo venezuelano, ela questionou o fato de a parceria envolver um “regime ilegítimo”.
Segundo Machado, o acordo tem importância estratégica para a Venezuela, mas precisa ser conduzido “de forma a garantir investimentos sustentados, rentabilidade e segurança no longo prazo.”
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