Um dos episódios mais bizarros e intrigantes da história criminal dos Estados Unidos teve seu capítulo final encerrado no dia 10 de setembro. Bill Harris, ex-fuzileiro naval da Guerra do Vietnã e um dos fundadores do Exército de Libertação Simbionês (SLA), faleceu aos 81 anos em um hospital de São Francisco após sofrer um ataque cardíaco.
A confirmação da morte foi feita por sua esposa, a advogada Rebecca Young. A trajetória do militante ficou marcada pelo planejamento de um crime que parecia ter saído diretamente de um roteiro de ficção hollywoodiana.
O rapto que parou os Estados Unidos
Em 4 de fevereiro de 1974, Harris e dois comparsas invadiram o apartamento de Patricia Hearst em Berkeley, na Califórnia. A jovem de apenas 19 anos era herdeira do império de mídia fundado por William Randolph Hearst, magnata que inspirou a obra clássica Cidadão Kane.
Colocada no porta-malas de um veículo, a jovem passou a ser tratada como prisioneira de guerra. O grupo exigiu que a milionária família financiasse uma distribuição massiva de alimentos para pessoas carentes como condição para a soltura.
Para Harris, a escolha da vítima não foi ao acaso. O militante chegou a declarar anos mais tarde que a herdeira era um alvo simbólico, visto que seu império familiar operava como braço de propaganda governamental.
A reviravolta da Síndrome de Estocolmo
O caso tomou um rumo surreal após a jovem passar semanas trancada em um armário escuro na cidade de Daly City. Em gravações enviadas à imprensa, ela surgiu armada diante da bandeira da organização rebelde.
Sob o codinome “Tania”, a herdeira renegou sua riqueza e anunciou adesão à causa revolucionária. Pouco tempo depois, a própria jovem participou de um assalto à mão armada ao Hibernia Bank, em São Francisco.
O evento levantou debates psicológicos profundos sobre coação, lavagem cerebral e trauma, tornando-se o exemplo mais famoso da chamada Síndrome de Estocolmo na história moderna.
A derrocada e os anos de prisão
A caçada policial ao grupo ganhou contornos dramáticos em maio de 1974. Um tiroteio em Los Angeles provocou um incêndio gigantesco, culminando na morte de seis membros da organização extremista.
No ano seguinte, em abril de 1975, o grupo assaltou o Crocker National Bank em Carmichael. Na ocasião, a cliente Myrna Opsahl, de 42 anos, foi morta por um tiro disparado por Emily Schwartz, então esposa de Harris, enquanto a herdeira aguardava no veículo de fuga.
O FBI capturou os remanescentes em setembro de 1975. Enquanto a jovem cumpriu pena curta, teve a condenação comutada por Jimmy Carter em 1979 e recebeu perdão de Bill Clinton, o casal Harris cumpriu cerca de oito anos de prisão pelo sequestro, divorciando-se no início dos anos 1980.
Investigação, novo julgamento e acerto de contas
Posteriormente, o ex-militante refez sua vida profissional atuando curiosamente como investigador particular e casou-se, em 1988, com a advogada Rebecca Young.
Contudo, mais de duas décadas após o assalto mortal ao banco, o passado voltou à tona. Harris e sua ex-esposa Emily foram formalmente acusados pelo assassinato de Myrna Opsahl.
Em 2002, ambos assinaram um acordo declarando-se culpados de homicídio em segundo grau. Durante o julgamento em 2003, Harris pediu desculpas publicamente à família da vítima, recebeu pena de sete anos e cumpriu cerca de quatro anos de reclusão até ser libertado.

