A China deve continuar como o principal mercado para a soja brasileira nos próximos anos, mas o crescimento das importações chinesas pode perder força à medida que o país avance em estratégias para reduzir a dependência do grão, segundo estudo divulgado nesta quarta-feira (7) pelo Insper Agro Global. O estudo é assinado pelos pesquisadores Gabriela Mota da Cruz, Leandro Gilio, Bruno Capuzzi e Marcos Jank.
O trabalho estima que as importações chinesas de soja podem variar entre 92 milhões e 118 milhões de toneladas em 2030, dependendo do ritmo de crescimento da produção de ração animal e do grau de cumprimento das metas estabelecidas pelo governo chinês.
No cenário considerado mais próximo das condições técnicas identificadas pelos pesquisadores e com crescimento da demanda por ração seguindo a tendência dos últimos cinco anos, as importações chegariam a 118 milhões de toneladas em 2030, alta de 2% em relação à base atual. Nesse caso, a China não reduziria de forma significativa suas compras, mas apresentaria uma desaceleração do crescimento.
O estudo destaca que o Brasil, responsável por cerca de 70% das importações chinesas de soja, deve continuar com um mercado relevante. A avaliação, porém, é que a China pode deixar de funcionar como um vetor de expansão contínua da demanda pelo produto brasileiro.
Estratégia chinesa
A dependência chinesa do mercado externo está concentrada principalmente na soja. O país produz cerca de 21 milhões de toneladas, enquanto o consumo é estimado em 136 milhões de toneladas.
Por isso, segundo os pesquisadores, a estratégia chinesa para reduzir a vulnerabilidade não deve depender apenas do aumento da produção doméstica. O país também busca diminuir a quantidade de farelo de soja utilizada na alimentação animal e melhorar a eficiência da produção de carnes.
A participação do farelo de soja na ração chinesa caiu de 17,9% em 2017 para 13,7% em 2024. A meta oficial é chegar a 10% até 2030. Se esse objetivo for atingido, o estudo estima que o consumo anual de farelo cairia de cerca de 77 milhões para 46,9 milhões de toneladas.
A redução da participação da soja na ração, porém, não significa necessariamente uma queda das importações chinesas. Isso dependerá também da evolução da produção de ração e, consequentemente, da produção de proteína animal.
O estudo estima que, com uma expansão da produção de ração superior a 4% a 5% ao ano, o aumento da demanda pode compensar os ganhos obtidos com a menor utilização de farelo de soja. Esse intervalo corresponde aproximadamente ao ritmo médio observado nos cinco anos anteriores.
Segundo Larissa Wachholz, senior fellow do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) e coordenadora do Programa Ásia e do Grupo de Análise da China, a China irá usar suas vantagens e conhecimentos, como no caso da indústria, para encontrar soluções, disse no evento realizado pelo Insper Agro nesta quarta-feira (7), em São Paulo.
O presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), Ricardo Santin, no entanto, afirms que a nutrição animal já é feita com base em estudos, “e se tiro o farelo de soja vou colocar o quê no lugar?”, questiona.
“A China não vai parar de depender do Brasil”, defende Wachholz. Mas ela afirma que há uma preocupação do país asiático em depender de poucos países e com grandes volumes, intensificada pela nova guerra comercial com os Estados Unidos durante os governos Donald Trump.
Produção doméstica tem efeito limitado
Outra frente da estratégia chinesa é elevar a produtividade da soja cultivada no país. A produtividade média atual é de cerca de 2 toneladas por hectare, abaixo dos níveis registrados no Brasil e nos Estados Unidos.
O governo chinês estabeleceu uma meta de aumento de 39% da produtividade até 2034. Se o objetivo for alcançado, a produção poderia chegar a aproximadamente 28 milhões de toneladas.
Mesmo nesse cenário, a produção doméstica cobriria apenas cerca de um quinto do consumo atual de soja, segundo o estudo.
Por isso, os pesquisadores avaliam que os ganhos de produção interna terão efeito limitado sobre a necessidade chinesa de importação até 2030.
O estudo aponta ainda que a expansão da área plantada tem limitações, já que a China priorizou a produção de cereais. Entre 2000 e 2025, a área destinada ao milho aumentou de 23 milhões para 45 milhões de hectares, enquanto a participação da soja na área cultivada permaneceu próxima de 6%.
O pesquisador Marcos Jank acrescenta, ainda, que a China possui menos de 10% das terras aráveis do planeta e 6% da água doce mundial, limitando a expansão agrícola no país.
Para Walchhoz, o governo chinês tem apostado menos em ampliação de área e mais em transgênicos, como já foi o caso da ampliação local de milho.
Quatro cenários
O estudo combina quatro estratégias para avaliar o impacto potencial sobre a demanda chinesa por soja: aumento da produção doméstica, menor participação do farelo na ração, redução da quantidade de ração necessária por unidade de proteína animal e mudanças no consumo de alimentos.
No cenário mais favorável à redução das importações, com demanda por ração estável e cumprimento integral das metas chinesas, a demanda por soja importada poderia cair 23 milhões de toneladas em relação a 2025, para 92 milhões de toneladas em 2030.
Já no cenário considerado viável pelos pesquisadores, com crescimento da demanda por ração e cumprimento parcial das metas, as importações chegariam a 118 milhões de toneladas, alta de 2%.
O intervalo mostra, segundo o estudo, que o resultado dependerá principalmente da capacidade da China de reduzir o uso de farelo de soja sem que o crescimento da produção animal anule os ganhos de eficiência.

