A inteligência artificial está moldando diversas áreas no Brasil e no mundo, inclusive a saúde. Com a revolução da IA na área médica, haverá mudanças na forma como a medicina é estudada, e os profissionais precisarão se capacitar ainda mais. A constatação foi defendida por médicos, cientistas e empresários que se reuniram, nesta segunda-feira (6), na Casa Lide, em São Paulo, para discutir o impacto dessas novas tecnologias.
Em entrevista à CNN Brasil, Dimas Covas, médico, pesquisador e ex-diretor do Instituto Butantan, apontou a necessidade de encarar a inteligência artificial como uma realidade na medicina e, assim, incluir o conhecimento sobre essa tecnologia nas universidades brasileiras.
Nós temos que incorporar a inteligência artificial no ensino, de uma forma geral, e não proibir. O aluno não pode ser proibido de utilizar inteligência artificial, muito pelo contrário. Nós temos que criar a cultura do uso da IA desde a base. Os médicos precisam se preparar, porque isso é inevitável. A inteligência artificial na medicina é inevitável.
Dimas Covas, médico e pesquisador
Em complemento, a médica e pesquisadora da Fiocruz, Dra. Margareth Dalcolmo, apontou, durante o painel do evento, que a inteligência artificial não irá substituir os especialistas, mas contribuirá para devolver ao médico o tempo necessário para o acolhimento, além de auxiliar nas medidas de prevenção dos pacientes.
Ser disruptivo não é exatamente criar algo novo, revolucionário, é fazer algo que tenha uma destinação. A medicina do futuro será aquela em que nós, pesquisadores e médicos, vamos nos valer das tecnologias para dedicar mais tempo àquilo que nenhuma tecnologia conseguirá nunca substituir: compreender a pessoa que estamos cuidando, interpretar o contexto e tomar decisões mais humanas, mais sensíveis e mais inteligentes.
Margareth Dalcolmo, pneumologista e pesquisadora da Fiocruz
Universidade Brasil já busca implementar IA na grade curricular
Esse cenário já começa a se tornar realidade na Universidade Brasil. O professor e presidente da instituição, Fernando Costas, informou à CNN Brasil que terá uma disciplina sobre inteligência artificial na grade curricular do curso de medicina. A medida deve ser implementada até o primeiro semestre de 2027.
Nós estamos introduzindo a IA dentro da graduação de Medicina e vamos ter cursos de graduação de inteligência artificial, em parceria com a X-VIA Inteligência de Dados, no próximo ano. A ideia é que o aluno tenha conhecimento dessa ferramenta importante no dia a dia
Fernando Costa, professor e presidente da Universidade Brasil
Na prática, como a IA está revolucionando os centros médicos?
Para o professor e médico Carlos Carvalho, diretor de Saúde Digital na FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), atualmente a IA generativa – como o ChatGPT e o Gemini – está em alta e consegue oferecer algumas orientações sobre saúde.
No entanto, não existem bases de dados suficientes para responder a todas as questões e, por muitas vezes, as ferramentas ficam suscetíveis a informações falsas.
Por outro lado, segundo o médico, a área precisa se aprofundar ainda mais no uso de IAs preventivas, que integrem sistemas de saúde com informações sobre o paciente desde a infância até a fase adulta.
Você usa uma base de dados da sua região, do seu estado e do seu país, com informações da saúde. Nela, eu sei o que aconteceu com aquele indivíduo. Eu posso analisar esses dados e extrair medidas de predição, e esse vai ser o futuro. Eu posso prever o que poderia acontecer com esse indivíduo e intervir antes que esse desfecho inadequado aconteça
Carlos Carvalho, diretor de Saúde Digital do HCFMUSP
Outra medida seria o uso da tecnologia na genética que, segundo ele, pode auxiliar os médicos a acessar informações sobre os genes – unidades fundamentais da hereditariedade – dos pacientes. Com isso, seria possível ter acesso a informações desde a infância, como se a pessoa teve bronquiolite, se nasceu prematura, se viveu em um local mais poluído e como esses fatores podem impactar sua vida no futuro.
“Pelo menos, o indivíduo vai ter o livre-arbítrio de saber: ‘Eu vou ter um risco para tal coisa’”, explica.
As telemedicinas também estão entre as medidas comentadas pelos médicos. Em 2020, Carvalho liderou um projeto de Tele-UTI obstétrica conectada, que integrou equipamentos médicos em tempo real durante a pandemia. A medida acompanhou, 24 horas por dia, gestantes em estado grave e auxiliou nas medidas de prevenção.
Segundo o médico, uma em cada duas pacientes foi salva pelo projeto. A ideia é implementar o projeto no SUS. A iniciativa foi aprovada em 2024 e aguarda verba do Ministério da Saúde para 2026.
“Essas tecnologias estão sendo testadas atualmente. Estão todas em teste. Esses algoritmos, para serem gerados, precisam de mais dados, e esses dados estão sendo gerados. Fora do Brasil, em países menores, onde suas tecnologias estão todas conectadas e sua saúde está toda conectada, isso já está acontecendo em uma velocidade maior”, explicou.
De acordo com Carvalho, esse universo ainda poderá ser expandido para pacientes com diabetes ou doenças crônicas, por exemplo. Se o investimento acontecer, a previsão é que os primeiros testes aconteçam em um futuro próximo, até 2030.
“Os pacientes não vão precisar sair de casa para medir a pressão arterial ou mensurar a taxa de oxigenação. Vai dar para fazer tudo isso em casa, com equipamentos vestíveis, por exemplo, colares, anéis, relógios ou até uma tatuagem que vai extrair todas essas informações”, disse.
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O que ainda falta no Brasil?
A consultora de tecnologia e ex-presidente da Microsoft no Brasil, Tânia Cosentino, defende o uso da IA como uma política de Estado que precisa ser incorporada e olhada com cuidado.
Eu vejo a inteligência artificial como um grande motor para trazer produtividade e desenvolvimento em todas as indústrias e setores do Brasil. Quando a gente olha para a saúde, tem um mundo de oportunidades para a gente explorar.
Tânia Cosentino, consultora de tecnologia e ex-presidente da Microsoft no Brasil
Cosentino diz que é necessária a construção de data centers, a formação de talentos e o desenvolvimento de equipamentos de saúde, como os de eletromagnetismo e ressonância.
“A IA, como a gente conhece hoje, é algo muito novo. O Brasil também está tentando descobrir quais caminhos tomar. […] [Com a IA] Eu posso atrair empresas para produzir equipamentos especializados, mas, para isso, eu preciso fornecer cadeias de fornecimento. Até minerais críticos são importantes, como radiofármacos.”

Para ela, a inteligência artificial, quando direcionada da forma correta, pode trazer benefícios para o país.
“O Brasil tem vários projetos, mas são pilotos de IA. Só que a gente tem muito mais para fazer. A gente tem que usar a IA para ganhar produtividade. A gente pode eliminar desperdícios, melhorar a gestão, diminuir fraudes, atuar na descoberta de novas enzimas e tratamentos. Aí, a pesquisa científica entra, porque você acelera a descoberta de um novo medicamento ou material. Então, a oportunidade é incrível, mas, para isso, a gente precisa ter um plano diretor. Você importa o modelo, mas o resto pode ser feito no Brasil”, complementa.
Evento na Casa Lide
O seminário de saúde “Tecnologias disruptivas: transformando a pesquisa científica, saúde e indústria do futuro”, promovido pelo Lide, reuniu diversos especialistas para debater o avanço da ciência e a aplicação da IA e da robótica na área da saúde.

