A Iguá Saneamento admite interesse em participar de um eventual leilão do Bloco D de saneamento em Alagoas, previsto para 2027, mas mantém como prioridade a execução dos contratos atuais, segundo adiantou o CEO da companhia, René Silva, à CNN.
Para o executivo, a sinergia geográfica é um fator de interesse, porém, uma participação ainda dependerá da modelagem e das condições do projeto.
O plano de concessão do Bloco D de Alagoas, promovido pelo governo estadual, será a quarta unidade do estado. Antes, entre 2020 e 2021, foram disponibilizadas as porções A (arrematado pela BRK), B (vencido pelo consórcio Alagoas) e C (com gestão da Mundaú).
A modelagem envolve 22 municípios e prevê beneficiar entre 550 mil e 700 mil pessoas. O leilão deve ocorrer em 2027.
O reforço aconteceu em meio a uma alta alavancagem, que à época estava em quase dez vezes o Ebitda da empresa.
No último balanço da companhia, a Iguá registrou queda na alavancagem consolidada, que saiu de 11,82x para 8,83x entre o segundo trimestre deste ano e o mesmo período no ano anterior.
À época, a empresa afirmou que o alto índice aconteceu devido ao estágio inicial das operações no Rio de Janeiro e em Sergipe.
“Ao excluir as operações do Rio e de Sergipe, a alavancagem é de 3,49x, demonstrando a sólida geração de caixa e o perfil financeiro saudável das concessões maduras do portfólio”, apontou.
Além das concessões, a empresa também tem em sua carteira uma PPP (Parceria Público-Privada) no oeste do Paraná, em conjunto com a Sanepar (Companhia de Saneamento do Paraná).
Com a meta de universalização concluída e 93% de esgotamento sanitário em suas operações em Cuiabá (MT), a empresa quer repetir o feito do maior “case” de sucesso da companhia nas demais operações.
Sancionado em 2020, o marco legal do saneamento já teve metade do prazo percorrido para a universalização dos serviços de água e esgoto, o que espalha dúvidas sobre a capacidade de alcance das metas fixadas até 2033.
No caso da Iguá, não há chance de falhar com esses compromissos, segundo René.
“Temos plena convicção de que, nas áreas onde atuamos, atingiremos a meta [em 2033]”, disse.
Para o CEO, o aporte demonstrou a confiança dos acionistas na estratégia da empresa.
“Todos participaram do investimento. São acionistas de longo prazo, com capital paciente, alinhados às características do saneamento (…) a Iguá é uma plataforma de investimento em saneamento no Brasil. Combinamos análise dos projetos com experiência operacional para selecionar ativos alinhados à estratégia e colocá-los em trajetórias adequadas de crescimento”, afirmou.
IPO depende de “janela favorável”
À CNN, o executivo destacou que a Iguá está preparada para abrir capital quando surgir uma janela favorável. A decisão dependerá principalmente das condições de mercado.
“A partir do momento em que tiver uma oportunidade dentro de uma janela de mercado, a gente vai analisar com todo cuidado”, afirmou.
Em relação ao cenário macroeconômico atual, Silva avaliou a exigência de maior rigor na análise de novos projetos e na estruturação do capital. O executivo também destacou alternativas de financiamento com as debêntures incentivadas.
Segundo a associação, as debêntures incentivadas representam 86% do montante investido nesses projetos. Criadas para estimular o investimento privado de longo prazo, elas estão sendo mais utilizadas em áreas como energia, transporte, logística, telecomunicações e o próprio saneamento.
Regionalizações no setor
A realização dos principais leilões de saneamento do calendário nacional para 2026 abriu espaço à concessão de projetos regionais.
Segundo um levantamento da Radar PPP, os municípios são o “grande motor” do pipeline nacional no momento, alcançando cerca de 1.444 projetos desde 2023. Nos estados, esse número é de 118, enquanto no caso da União são 17 projetos feitos em quase quatro anos.

No saneamento, destacam-se os casos de Lavras (MG), Erechim (RS) e Tangará da Serra (MT).
Para o CEO da Iguá, a medida é importante e os blocos devem combinar cidades que exigem soluções mais complexas com outras de atendimento mais simples.
Segundo ele, a empresa olha não só a situação macroeconômica, mas também a aderência estratégica dentro do portfólio.
Na avaliação do advogado Fernando Vernalha, especialista no setor de saneamento e sócio-fundador do escritório Vernalha Pereira, os estados devem liderar a organização dos blocos.
Ele cita que os entes federativos conseguem desenhar os agrupamentos de maneira mais estruturada, reunindo municípios com diferentes capacidades de geração de receita.
Em entrevista à CNN, Vernalha afirmou que não há impedimento jurídico ou constitucional para que um município realize uma concessão local, mas alertou para a falta de liderança dos estados.
“Minha crítica é dirigida principalmente aos estados, porque são eles que possuem maior capacidade institucional e legislativa para liderar a criação das estruturas de regionalização e organizar as relações entre os municípios”, ponderou.
Desafios até 2033
Em relação aos desafios para a universalização diante do cenário macroeconômico, geopolítico e das condições do mercado de insumos, como o ácido fluossilícico – usado na etapa de fluoretação da água, e enfrenta uma crise de escassez no Brasil -, o CEO declarou que a empresa incorpora essas mudanças ao planejamento e trabalha com um horizonte de cinco anos, revisado periodicamente.
“Para enfrentar oscilações de preços e materiais, buscamos parcerias de longo prazo que ajudem a cumprir os compromissos contratuais. (…) Na mão de obra, adotamos soluções regionais e programas de treinamento para garantir equipes disponíveis conforme o cronograma das obras”, contou.
Segundo René, as oscilações continuarão acontecendo, em um período de aumento dos investimentos para alcançar a universalização, e a resposta dá Iguá será “planejar, antecipar necessidades e ajustar a execução.

