O Brasil assistiu a um resultado eleitoral que as pesquisas de intenção de voto não haviam antecipado. Para especialistas em inteligência artificial, esse cenário não representa um fracasso, mas sim uma oportunidade para repensar como a tecnologia pode contribuir com o setor de pesquisas.
Álvaro Machado, neurocientista e especialista em IA, identificou dois caminhos principais pelos quais as ferramentas podem atuar nesse campo. O primeiro envolve a modelagem de cenários e a segmentação de populações.
“As pessoas hoje em dia estão muito organizadas em nichos, o mundo está muito polarizado e isso significa que a gente tem núcleos de pessoas”, afirmou. Segundo ele, a criação de um “mapa dos humanos”, por meio de segmentação com IA, já está em andamento.
O segundo caminho — o uso da IA para calcular probabilidades de resposta e avaliar a confiabilidade das pesquisas — é considerado mais controverso.
Machado ressaltou que a pesquisa eleitoral não é, em essência, uma ferramenta de previsão. “A pesquisa é uma ferramenta de amostragem de uma população que em determinado momento está declarando um comportamento”, explicou.
Para ele, as preferências humanas não são fixas e estáveis, e muitas delas acabam sendo definidas no calor do momento — como ocorre com o chamado voto útil, que pode levar o eleitor a escolher um candidato diferente daquele que havia declarado anteriormente.
O especialista também citou a distinção clássica entre preferências reveladas e preferências declaradas, destacando que sempre existe uma discrepância entre o que as pessoas dizem e o que efetivamente fazem. Essa diferença, segundo ele, não é necessariamente um viés, mas um comportamento esperado e natural.
Respondentes sintéticos: promessa e limitações
Nos Estados Unidos, uma startup vem realizando pesquisas sem entrevistar nenhuma pessoa. A metodologia consiste em identificar perfis populacionais e multiplicá-los com base em microdados, criando milhares ou milhões de respondentes simulados.
Machado foi categórico ao avaliar essa abordagem. “Dá para conhecer um país dessa maneira? A verdade é que não”, afirmou.
Ele citou um estudo da Pew Research que identificou 12 pontos percentuais de diferença entre respostas de pessoas digitais e humanas em um teste com 300 perguntas. Para o especialista, essa metodologia é útil para identificar grandes médias e tendências gerais, mas não substitui a pesquisa tradicional — são abordagens complementares.
Outra tendência apontada por Machado é o uso de entrevistadores virtuais criados com IA. Ele mencionou uma empresa chamada Tavus, que lançou um entrevistador digital capaz de passar pelo teste de Turing em vídeo — ou seja, o entrevistado não consegue distinguir se está falando com uma pessoa ou com uma IA.
Segundo ele, além da escala maior de atuação, essa tecnologia pode reduzir a resistência de certos grupos em declarar suas preferências a entrevistadores humanos. “A IA talvez cumpra um papel que faz sentido do ponto de vista da estimulação na revelação da verdade”, disse.
Gêmeos digitais e o mapeamento do comportamento humano
Olhando para o futuro, Machado descreveu um cenário em que as pessoas terão seus próprios gêmeos digitais — repositórios privados de comportamentos e preferências acumulados ao longo do tempo. Empresas poderiam pagar para acessar essas memórias digitais e inferir decisões futuras.
Ele também alertou para um segundo modelo, no qual empresas comprariam dados de usuários para criar gêmeos digitais próprios, sem necessariamente consultar as pessoas. Esse cenário levanta questões sobre privacidade e proteção de dados, especialmente diante de casos já recorrentes de vazamento e comercialização indevida de informações pessoais no Brasil.
Para o especialista, tecnologias de computação ambiental — como assistentes que captam o comportamento cotidiano dos usuários — representam um terceiro caminho, distinto tanto dos respondentes sintéticos quanto dos entrevistadores digitais. A tendência, na avaliação dele, é que o processo de descobrir o que as pessoas vão fazer se torne cada vez mais computacional e matemático.
“Vai ser menos impressão e mais precisão”, concluiu.
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