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EUA e China discutem visitas a instalações nucleares em meio a desconfiança

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
EUA e China discutem visitas a instalações nucleares em meio a desconfiança

O governo dos Estados Unidos discutiu o início de visitas recíprocas a instalações nucleares com a China e planeja continuar defendendo essa possibilidade durante reuniões presenciais nos próximos meses, segundo fontes a par do assunto.

As discussões, que têm sido informais e preliminares, ocorrem em meio à crescente preocupação dos EUA com o programa de armas nucleares da China — que se expande rapidamente — e após a expiração, no ano passado, do último acordo de controle de armas restante entre os americanos e a Rússia.

O esforço para estabelecer um acordo trilateral começou no primeiro mandato de Donald Trump, mas não houve progresso concreto e negociações formais sobre um novo pacto ainda não foram iniciadas, com a China e a Rússia ignorando, em grande parte, as iniciativas substantivas de aproximação dos EUA.

A ideia de visitas recíprocas foi inicialmente levantada pelo lado chinês durante reuniões com autoridades americanas neste ano, disse uma fonte, indicando que a nação pode estar aberta a adotar medidas de construção de confiança que abram caminho para um acordo mais amplo.

Foram discutidas visitas aos laboratórios nacionais do Departamento de Energia dos EUA e às instalações equivalentes na China, e os Estados Unidos estariam dispostos a discutir visitas a locais de testes nucleares, afirmou a fonte.

As discussões sobre questões nucleares entre autoridades americanas e chinesas em nível técnico, realizadas até agora neste ano, ocorreram principalmente à margem de reuniões dos cinco integrantes permanentes do Conselho de Segurança da ONU, conhecidos como P5, segundo as fontes.

A ideia de permitir visitas a instalações nucleares poderia impulsionar os esforços dos EUA para engajar a China em questões de estabilidade estratégica e, potencialmente, servir de base para um acordo trilateral.

No entanto, a China mantém-se irredutível quanto a não participar de discussões que possam limitar a expansão de seu arsenal nuclear.

Atualmente, os EUA possuem um arsenal nuclear muito maior, com um total de cerca de 5 mil ogivas, enquanto a China conta com cerca de 600; contudo, o país está ampliando sua infraestrutura de armas nucleares, com projeções indicando a produção de centenas de outras ogivas na próxima década.

Um porta-voz do Departamento de Estado encaminhou as perguntas à Casa Branca, que não quis comentar o assunto.

A CNN solicitou um posicionamento à embaixada da China em Washington. Na última quinta-feira (1º), o país asiático iniciou o feriado de uma semana do Dia Nacional, período em que todos os órgãos governamentais permanecem fechados.

EUA precisam ficar de “olhos abertos”, diz especialista

Paul Dean, que atuou anteriormente como subsecretário de Estado interino responsável pelos esforços de controle de armas dos EUA, disse à CNN que o governo precisa abordar quaisquer negociações nucleares com a China de “olhos bem abertos”.

Ele ressaltou, porém, que visitas recíprocas seriam “uma medida de construção de confiança extremamente valiosa”, capaz de estabelecer as bases informacionais e diplomáticas para futuros esforços visando reduzir o risco nuclear entre os dois países.

“Vivemos um momento muito perigoso, e há pouquíssimos mecanismos de salvaguarda na relação nuclear entre EUA e China”, afirmou Dean, atualmente vice-presidente da organização sem fins lucrativos Nuclear Threat Initiative.

O presidente Donald Trump manifestou apoio a negociações trilaterais de controle de armas envolvendo os EUA, a Rússia e a China durante seu encontro com o líder chinês, Xi Jinping, no mês passado, mas eles não discutiram a possibilidade de visitas a instalações durante as conversas, ponderou uma autoridade americana.

Xi não deixou aberta a possibilidade de discutir um acordo trilateral, apontando que os arsenais nucleares dos EUA e da Rússia são maiores que o da China.

Autoridades chinesas têm usado frequentemente este argumento para se esquivar de discussões que poderiam levar à limitação de seu estoque nuclear antes de alcançarem a paridade com os americanos, acrescentou a autoridade.

Ainda assim, o tema do controle de armas nucleares tem sido, há muito tempo, um foco de atenção para Trump, que deve se reunir com Xi duas vezes ainda este ano.

Segundo as fontes, espera-se que, quando os dois líderes se encontrarem novamente, já tenham ocorrido outras discussões em níveis inferiores sobre possíveis visitas a instalações nucleares.

Visitas a instalações nucleares para inspeções “in loco” têm sido utilizadas historicamente pela Agência Internacional de Energia Atômica como uma ferramenta vital de verificação, para assegurar que as nações estejam cumprindo seus compromissos de utilizar tais instalações para fins pacíficos.

Ceticismo em relação às motivações da China

Especialistas e ex-autoridades dos EUA que conversaram com a CNN sentiram-se encorajados pelas negociações, mas não estavam confiantes de que elas levariam imediatamente a progressos concretos rumo a um acordo decisivo.

“Isso precisa ser levado a sério. Pode ser um ótimo começo”, disse uma ex-autoridade dos EUA que participou de discussões de diplomacia paralela com a China sobre estabilidade estratégica nos últimos anos.

Ainda assim, céticos observaram que os chineses podem ter lançado a ideia na tentativa de criar uma atmosfera positiva ou de parecerem sérios quanto à questão dos arsenais nucleares, segundo ex-autoridades e especialistas dos EUA que questionaram a autenticidade de tal oferta.

“Antes de uma grande cúpula, se os chineses puderem sinalizar boas intenções, eles o farão”, disse outra ex-autoridade dos EUA especializada em questões nucleares.

“Isso os faz parecer mais magnânimos enquanto os dois lados interagem”, completou a ex-autoridade.

Os chineses podem ter uma “motivação maliciosa”, disseram eles.

Há cerca de um ano, Trump afirmou que os EUA retomariam os testes nucleares em “pé de igualdade” com a China e a Rússia; no entanto, não houve registro de testes nucleares americanos desde esse anúncio.

No início deste ano, o governo acusou a China de realizar um teste nuclear secreto em 2020, utilizando uma técnica conhecida como “desacoplamento”, projetada para evitar a detecção ao realizar a explosão em uma cavidade vazia, minimizando assim o tremor sísmico.

A diretoria de não proliferação da NNSA (Administração Nacional de Segurança Nuclear) realizou, na semana passada, uma explosão subterrânea não nuclear de 16 toneladas no Local de Segurança Nacional de Nevada.

Segundo um porta-voz da agência, esse foi o segundo de uma série de experimentos de longa duração destinados a simular o suposto teste chinês.

A explosão de teste com a técnica de desacoplamento ofereceu à NNSA e a outras entidades a oportunidade de validar a eficácia de novos métodos e equipamentos para detectar testes realizados de forma tão furtiva.

“Não é possível escapar da inovação americana”, afirmou Brandon Williams, administrador da NNSA, em um comunicado à imprensa sobre o teste.

O governo Trump também está trabalhando em uma proposta que permitiria garantir a verificação de que não estão ocorrendo testes nucleares de baixo rendimento em instalações nucleares; essa proposta poderá ser compartilhada com o grupo P5 ainda este ano, segundo uma autoridade americana.

Não está claro que tipo de equipamento técnico poderia fazer parte dessa proposta.

Gerald Brown, que estuda as forças armadas da China na organização sem fins lucrativos Council on Foreign Relations, disse não estar “particularmente otimista”, mas afirmou que o esquema de visitas recíprocas, se implementado, representa “um possível raio de esperança” para a redução do risco nuclear entre os EUA e a China.

Brown, ex-analista de inteligência do Departamento de Estado, disse que a atual expansão do arsenal nuclear chinês “está profundamente ligada a objetivos políticos, especificamente às suas ambições agressivas em relação a Taiwan”.

Ele argumentou que, historicamente, a China encara as negociações nucleares como uma “ferramenta para obter concessões políticas” sobre Taiwan, e não como um objetivo político genuíno.

“Não saberemos o que está na mesa até que nos envolvamos de maneira ponderada e rigorosa para verificar se isso é do nosso interesse — e pode ser”, disse Dean.

Dean, cuja organização sem fins lucrativos tem mantido contato com entidades chinesas em discussões diplomáticas não oficiais nos últimos meses, afirmou perceber um “interesse mútuo e o reconhecimento de que os riscos são reais”.

Ele citou a Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962 — que impulsionou algumas das primeiras medidas de redução de riscos entre os EUA e a União Soviética, como uma linha telefônica direta de 24 horas —, como um alerta histórico.

“Não precisamos esperar por uma crise para começar a reduzir os riscos nucleares”, argumentou Dean. “E os riscos são muito reais neste momento.”