A inteligência artificial pode ser usada como apoio em diferentes etapas na hora de investir, desde a organização financeira até a análise de ativos e o acompanhamento da sua carteira.
As ferramentas também já conseguem explicar conceitos, comparar alternativas e realizar simulações.
Para Ricardo Ratner Rochman, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGVcef), o limite do uso da tecnologia para investir depende mais do usuário e de seu conhecimento do que das ferramentas disponíveis.
“A IA veio para ficar, é uma ferramenta sensacional, ajuda muito na produtividade”, destaca. “E cada vez mais ajuda a tomar decisões inteligentes na hora de formar uma carteira de investimentos, principalmente depois de você já ter mais conhecimentos, para saber julgar se o que ela te devolve é bom ou não”.
Apesar das vantagens, o especialista alerta que respostas produzidas por sistemas de IA precisam ser questionadas e verificadas. Informações incorretas, dados desatualizados e até as chamadas “alucinações”, podem levar a maiores riscos de investimento.
Quando usar inteligência artificial para investir?
O uso da IA no mercado financeiro acontece de diferentes maneiras. Assistentes generalistas, como ChatGPT, Gemini e Claude, podem ser utilizados para resumir documentos, organizar informações, explicar indicadores e estruturar análises.
Também existem soluções especializadas, capazes de combinar modelos de inteligência artificial com bases de dados financeiras.
Dependendo da plataforma e da instituição financeira, podem auxiliar na construção de carteiras e até na execução de determinadas tarefas de forma automatizada. A Seven, do Inter, é um exemplo disso.
Quatro usos possíveis da IA
Ricardo Ratner Rochman afirma que o investidor pode recorrer à tecnologia tanto para dúvidas básicas quanto para questões mais sofisticadas.
“Hoje, na verdade, a gente não tem limites do que pode fazer com a IA para investimentos”, explica. “O usuário pode perguntar tudo que ele quiser.”
Entre os exemplos estão questões sobre renda fixa e bolsa de valores, além de estratégias como long short, proteção de uma carteira de ações por meio de hedge e formas de investir no exterior.
Essas possibilidades podem ser divididas em quatro pontos:
- Organização financeira: categorização de despesas, projeção de receitas e definição de valores disponíveis para aportes
- Pesquisa e análise: síntese de balanços e relatórios, explicação de indicadores e comparação de alternativas
- Acompanhamento da carteira: organização de vencimentos, identificação de concentrações e criação de rotinas de revisão
- Automação: execução de tarefas previamente programadas, conforme os recursos e as autorizações oferecidos pela plataforma
Na avaliação do professor, a tecnologia também pode reduzir o tempo necessário para atividades que antes exigiam dias de trabalho. A escolha da ferramenta, porém, depende da complexidade da tarefa, já que existem modelos com diferentes níveis de sofisticação e custo.
Como usar IA para investir com mais segurança?
O primeiro passo é fornecer contexto suficiente para que a ferramenta compreenda o seu problema ou necessidade. Para Rochman, perguntas genéricas tendem a produzir respostas genéricas, que podem não atender à situação específica do investidor.
“Um paralelo é a consulta médica, por exemplo. Se você esconde dados informações do seu médico quando está sendo feito o diagnóstico, ele não será o melhor possível”, detalha. “Inclusive, pode te dar uma recomendação ou medicação errada”.
No caso dos investimentos, ele recomenda considerar aspectos como histórico, conhecimento, aplicações existentes, objetivos, recursos disponíveis e tolerância ao risco.
Um prompt de investimento ideal, portanto, deve ter:
- objetivo financeiro
- prazo para utilização dos recursos
- valor disponível para investir
- necessidade de liquidez
- tolerância a perdas e riscos
- investimentos que já fazem parte da carteira
- formato desejado para a resposta
Ainda assim, informações pessoais e financeiras sensíveis não devem ser compartilhadas, especialmente em ferramentas que não estejam vinculadas a uma instituição financeira.
Rochman ressalta que o investidor não deve aceitar automaticamente o primeiro resultado apresentado pela ferramenta.
“E temos que pensar sempre em desafiar a IA ou desafiar o que o chatbot tá colocando”, conta. “No momento em que a ferramenta dá a resposta, perguntar mais sobre, questionar o que ela te deu”.
Uma alternativa é fazer a mesma pergunta em mais de uma ferramenta e comparar os resultados. O especialista também recomenda complementar o uso da tecnologia com pesquisa própria, literatura especializada e conversas com profissionais especializados e certificados do mercado.
A IA elimina os riscos dos investimentos?
Embora consiga processar grandes volumes de informação, a inteligência artificial não garante previsões corretas sobre o comportamento do mercado financeiro ou de outros setores da economia.
Rochman chama atenção especialmente para o risco de utilizar uma resposta sem possuir conhecimento suficiente para avaliar sua qualidade. Ele também menciona as chamadas “alucinações” das IAs, quando o sistema apresenta informações que não correspondem aos fatos.
“A IA é algo muito interessante, mas é uma ferramenta”, explica o professor. “Não dispensa o estudo e a pesquisa. Pelo contrário, ela te ajuda a economizar tempo nisso”.
O resultado produzido por um chatbot não deve ser convertido automaticamente em uma ordem de compra ou venda. Dados relevantes precisam ser conferidos em documentos e fontes confiáveis antes de qualquer operação.
O especialista também destaca que o uso da tecnologia não substitui o conhecimento necessário para interpretar os resultados. Nesse processo, profissionais especializados podem auxiliar na avaliação das informações e na identificação de possíveis erros.

