Cuba e EUA mantêm “canais de comunicação”, mas não estão atualmente engajados em negociações formais, disse à Reuters a principal diplomata de Havana em Washington, enquanto o governo Trump promove uma campanha de pressão contra a ilha.
Em entrevista nesta segunda-feira (5), Lianys Torres Rivera, encarregada de negócios da embaixada em Washington, afirmou que Cuba permanece aberta a um diálogo “respeitoso”, mas “não é ingênua” em relação às ameaças do presidente Donald Trump e intensificou os preparativos para se defender caso ocorra alguma ação militar dos EUA.
Os contatos diplomáticos mais recentes entre EUA e Cuba envolveram reuniões, bem como telefonemas e mensagens via WhatsApp, mas os dois lados não avançaram em direção a uma agenda de negociações ou à retomada de conversas oficiais, disse ela.
“O que temos com os EUA são canais de comunicação”, disse Torres Rivera. Ela não quis fornecer detalhes sobre datas, temas ou participantes.
A descrição que ela fez das comunicações parece divergir da afirmação feita por Trump nas Nações Unidas, no mês passado, de que o secretário de Estado Marco Rubio estava “profundamente envolvido em negociações” com Havana. Trump também classificou Cuba como um “Estado falido” e previu a queda de seu governo. A delegação cubana retirou-se do recinto em protesto.
Trump declarou abertamente que seu objetivo é mudar fundamentalmente o governo de Cuba. Um bloqueio de petróleo imposto pelos EUA colocou o país sob forte pressão, enquanto este enfrenta escassez de combustível e apagões agravados por uma infraestrutura precária. Especialistas em direitos humanos da ONU condenaram o bloqueio de petróleo como uma violação do direito internacional.
O chanceler cubano, Bruno Rodríguez, disse no final de junho que as conversas iniciadas no início deste ano com os EUA haviam estagnado e, no início de setembro, afirmou que não havia negociações em andamento ou planejadas.
A Casa Branca e o Departamento de Estado não responderam imediatamente a pedidos de comentário.
A “linha vermelha” de Cuba
Torres Rivera afirmou que a “linha vermelha” de Cuba continua sendo a recusa de Havana em negociar quaisquer mudanças em seu sistema político, encarando as exigências de Trump pela remoção da liderança cubana como uma violação da soberania.
Ela rejeitou as alegações do governo Trump de que Cuba representava uma ameaça à segurança nacional dos EUA ou de que estaria interferindo nos assuntos internos americanos, afirmando que Washington usava tais acusações como pretexto para continuar sufocando a ilha economicamente, numa ação que ela classificou como “punição coletiva”.
Na semana passada, o governo Trump endureceu o embargo contra Cuba, restringindo ainda mais as viagens de americanos ao país e o acesso do setor privado cubano ao sistema bancário dos EUA.
Essas medidas, segundo Torres Rivera, contradizem a insistência dos EUA de que desejam ver a expansão da iniciativa privada em Cuba.
Diante da pressão americana, Cuba anunciou em junho reformas de livre mercado que, se totalmente implementadas, representariam a maior mudança na economia socialista da ilha desde que o ex-líder Fidel Castro assumiu o poder, em 1959.
No entanto, Washington afirma que as reformas são insuficientes e também tem exigido a realização de eleições “livres e justas”.
Apesar das divergências, Trump previu, no final do mês passado, que os EUA e Cuba “chegarão a um acordo”, acrescentando: “Não acho que precisaremos dos militares”.
Contudo, o governo cubano mantém-se cauteloso.
“Cuba sempre se preparou para uma agressão dos EUA”, disse Torres Rivera. “E estamos ampliando nossas capacidades agora, mais do que nunca… É para nos defendermos.”
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