Eleitores da Bósnia e Herzegovina foram às urnas neste domingo (4) em uma eleição que pode influenciar o processo de adesão do país à União Europeia e a disputa por influência entre Rússia e Estados Unidos na pequena nação dos Bálcãs.
Os eleitores escolhem a presidência colegiada de três integrantes e o Parlamento nacional, além de representantes para os legislativos das duas entidades que formam o país.
Alguns locais de votação precisaram ser temporariamente fechados devido a problemas no sistema de votação eletrônica, informou Jovan Kalaba, presidente da Comissão Eleitoral Central. As autoridades redesenharam as cédulas e adotaram uma nova identificação biométrica dos eleitores e leitores eletrônicos, medidas que, segundo a comissão, têm como objetivo reduzir fraudes.
A insatisfação dos eleitores aumentou diante da desaceleração econômica, da lentidão nas negociações para entrada na UE e de uma crise política prolongada. Partidos dominantes ligados aos diferentes grupos étnicos têm repetidamente bloqueado decisões do frágil governo central.
A Bósnia, que ainda se recupera da guerra que matou milhares de pessoas entre 1992 e 1995, obteve o status de candidata à UE em dezembro de 2022 e recebeu, em 2024, autorização para iniciar as negociações de adesão. As conversas, no entanto, ainda não começaram porque os líderes políticos não aprovaram medidas consideradas essenciais, como o fortalecimento da supervisão judicial e leis de combate à corrupção.
Os primeiros resultados devem ser divulgados pela comissão eleitoral após o fechamento das urnas, às 19h no horário local.
A guerra da Bósnia terminou em 1995 com o Acordo de Dayton, mediado pelos Estados Unidos. O pacto deixou o país dividido entre a Republika Srpska, de maioria sérvia, e a Federação da Bósnia e Herzegovina, de maioria bósnia e croata. As duas entidades são ligadas por um governo central e pela presidência colegiada.
Muitos eleitores dizem querer superar a retórica nacionalista, mas a política do país continua marcada pela divisão étnica. A eleição coloca partidos como SDA, de maioria bósnia, SNSD, ligado aos sérvios, e HDZ BiH, dos croatas, contra coalizões multiétnicas de oposição lideradas pelo Partido Social-Democrata.
Segundo a plataforma de acompanhamento Poliwave, o SDA aparece com uma pequena vantagem nacional, com 21,4% das intenções de voto, seguido pelo SDP, com 16,7%. Na Republika Srpska, o SNSD, partido do líder separatista Milorad Dodik, lidera com 34,2%.
“Estamos escolhendo aqueles que podem administrar determinados processos, construir a sociedade e tornar a Republika Srpska pacífica e estável”, afirmou Zeljka Cvijanovic, candidata do SNSD que busca um segundo mandato na presidência colegiada.
Caso os partidos baseados em divisões étnicas mantenham a maioria e continuem os conflitos dentro do governo central, o processo de adesão à União Europeia pode sofrer novos atrasos.
Em Sarajevo, Ismar Garasljevic, professor de 51 anos, resumiu a frustração de parte dos eleitores: “Mais de 30 anos depois da guerra, a situação continua a mesma; estamos falando de nacionalismo… As mesmas caras, a mesma história, constantemente.”
A participação eleitoral era de 11,94% às 11h (9h de Brasília), abaixo dos cerca de 15% registrados no mesmo horário nas eleições de 2022.
A União Europeia tenta ampliar sua presença nos Bálcãs, enquanto a Rússia mantém apoio à Republika Srpska e busca dificultar o avanço do país rumo ao bloco.
Os Estados Unidos também procuram ampliar sua influência e defendem um projeto de US$ 1,5 bilhão para importar gás natural liquefeito americano. O empreendimento seria administrado por uma empresa ligada ao governo Trump, mas a UE questionou a transparência do processo de escolha.
Washington também entrou em conflito com Bruxelas sobre o papel do Alto Representante internacional, autoridade que, conforme o Acordo de Dayton, tem poderes para fazer cumprir as leis no país.

