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A Síria pós-Assad enfrenta seu maior teste até agora

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
A Síria pós-Assad enfrenta seu maior teste até agora

No leste da Síria, um homem que reclama da disparada dos preços dos combustíveis volta-se para a multidão que o filma com celulares e dirige a palavra ao presidente de transição do país.

“Nós estivemos ao seu lado; agora, esteja ao nosso lado”, grita ele. “Juro por Deus: se as coisas não mudarem daqui até o ano-novo, a situação vai se transformar em algo que não queremos. Basta!”

Agentes de segurança observam enquanto ele denuncia abertamente o governo.

O que acontece em seguida é surpreendente: nada.

No início deste mês, milhares de sírios foram às ruas nos protestos mais abrangentes desde a queda de Bashar al-Assad, há quase dois anos.

Ao contrário do que ocorria sob o Estado policial de 54 anos de sua família — em que o desafio público podia resultar em prisão, tortura, desaparecimento ou morte —, eles puderam voltar para casa.

Os protestos foram amplamente transmitidos pela mídia estatal, em nítido contraste com a era de Assad, quando a televisão pública disseminava desinformação para desacreditá-los — inclusive alegando que as manifestações eram encenadas em estúdios distantes, no Catar.

A Síria tenta agora conciliar a recém-conquistada liberdade política com uma recuperação econômica que permanece frustrantemente distante para o cidadão comum — e muitos já estão perdendo a paciência.

As manifestações recentes foram desencadeadas pela decisão repentina do governo de aumentar os preços dos combustíveis em até 40% — medida atribuída à crise energética global provocada pela guerra no Irã.

Diante da crescente indignação, o governo recuou em alguns dos aumentos e enviou o ministro de Energia ao Parlamento, em um gesto de prestação de contas.

Analistas elogiaram a resposta do governo ao maior teste de estresse econômico que o país já enfrentou, mas alertaram que isso não alterará os fundamentos da crise do custo de vida no país.

O Banco Mundial estima que dois terços dos sírios vivem abaixo da linha de pobreza para países de renda média-baixa, com menos de 3,65 dólares (cerca de 19,08 reais) por dia.

“Veremos esses protestos acontecerem repetidamente. É praticamente impossível superar os graves desafios econômicos que os sírios estão enfrentando. A situação se tornará gradualmente mais difícil”, disse à CNN Ibrahim al-Assil, diretor do laboratório “Syria in Transition” da Harvard Kennedy School.

Essa pressão econômica está gerando um descompasso crescente entre as expectativas dos sírios em relação ao novo governo e a realidade que vivenciam.

“O período de lua de mel inevitavelmente chegaria ao fim. As expectativas das pessoas tenderiam a aumentar, e a paciência delas se esgotaria caso essas expectativas não fossem atendidas. É basicamente essa a situação atual”, afirmou Charles Lister, diretor da Iniciativa para a Síria no Middle East Institute, em Washington.

O presidente interino Ahmed al-Sharaa corre contra o tempo para reconstruir a Síria — uma tarefa estimada em 216 bilhões de dólares (cerca de R$ 1 trilhão) — antes que a paciência se esgote.

Ele herdou um Estado praticamente falido e saqueado por Assad e seus aliados, o que torna o novo regime fortemente dependente de investimentos estrangeiros.

Sua estratégia tem sido trazer o país de volta ao cenário global após décadas de isolamento, e ele agora tenta transformar esse impulso internacional em ganhos econômicos concretos.

“A Síria restabeleceu seu status na comunidade internacional. O país tornou-se um ponto de passagem para o mundo. Também construímos pontes diplomáticas e provamos ao mundo que a segurança da região precisa começar em Damasco”, disse al-Sharaa à Assembleia Geral da ONU na quarta-feira (30).

A aceitação global de al-Sharaa é talvez melhor exemplificada por sua relação cordial com o presidente dos EUA, Donald Trump, com quem se reuniu quatro vezes desde maio passado.

O resultado foi a suspensão total de todas as sanções dos EUA contra a Síria, fator-chave para destravar investimentos estrangeiros.

Turquia, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos impulsionaram a maior parte dos investimentos estrangeiros até o momento, estimados pela Síria, no ano passado, em US$ 28 bilhões (aproximadamente R$ 146 bilhões).

A União Europeia comprometeu-se com US$ 2,7 bilhões em apoio (cerca de R$ 14 bilhões), e o presidente francês, Emmanuel Macron, assinou vários novos acordos econômicos, de transporte e de infraestrutura durante uma visita a Damasco em julho.

Segundo o levantamento de um especialista em assuntos sírios, o novo governo reuniu-se com representantes de cerca de 100 países desde que assumiu o poder.

Em uma demonstração de pragmatismo, al-Sharaa mantém laços tanto com o presidente russo, Vladimir Putin — um importante aliado do antigo regime —, quanto com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

A geografia estratégica da Síria

A amplitude desse engajamento reflete a posição estratégica da Síria.

Em um momento de divergências internacionais, apoiar o futuro da Síria tornou-se um raro ponto de consenso — e a razão reside, em grande parte, na geografia.

O país situa-se no coração do Oriente Médio, conectando a Ásia e a Europa por meio de seus portos no Mediterrâneo.

Isso reflete a convicção de que, assim como a guerra civil síria repercutiu muito além de suas fronteiras — desencadeando uma crise migratória e possibilitando a ascensão do Estado Islâmico —, uma Síria estável e próspera poderia reforçar a estabilidade regional, incentivar o retorno de refugiados e conter o extremismo.

Em meio à tensão com o Irã, al-Sharaa tem aproveitado a localização estratégica da Síria para promovê-la como uma moderna Rota da Seda, um polo comercial que serve como uma alternativa de rota terrestre aos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb.

Uma prova de conceito já está em andamento, com milhares de caminhões-tanque carregados de petróleo do sul do Iraque atravessando a Síria em direção ao porto mediterrâneo de Baniyas.

No entanto, para os sírios comuns, os planos ambiciosos do governo ainda não apresentaram resultados concretos.

Charles Lister, diretor da Iniciativa para a Síria no Middle East Institute, em Washington, afirma que a comunidade internacional vê uma oportunidade real na reconstrução do futuro da Síria, mas isso levará tempo.

“A realidade é que a maioria desses projetos são iniciativas estratégicas de longo prazo, com duração de 10 anos. Eles não vão reduzir o preço do pão, nem trazer mais combustível ou reduzir o custo do combustível do país de imediato”, disse ele.

O diretor diz que o fim das sanções americanas gerou uma onda de novos projetos de investimento de pequeno e médio porte, capazes de gerar empregos mais rapidamente.

“São esses tipos de projetos que oferecem uma chance muito maior de começar a plantar as sementes que levarão à amenização dos desafios enfrentados pelos sírios comuns”, afirmou. “Mas isso não resultará na solução desses problemas já na próxima semana. Provavelmente levará mais um ou dois anos.”

Capital político “revolucionário” está se esgotando

Karam Shaar, um economista político sírio que dirige uma empresa de consultoria, estima que apenas 5% dos acordos prometidos apresentaram avanços concretos.

Entre os mais visíveis estão as obras de reforma da infraestrutura energética e do aeroporto de Damasco, realizadas pela UCC Holding, liderada pelos influentes irmãos sírio-catarianos Al-Khayyat.

“A economia está, sem dúvida, se recuperando. Mas essa nunca é a questão para a pessoa comum. O que importa para ela é se suas condições de vida estão melhorando”, disse ele à CNN.

Um manifestante sírio, Bassam Al-Ali, queixou-se à agência de notícias Reuters de que o governo estava concentrado em negócios de alto valor em vez de melhorias no custo de vida.

“Não queremos rotatórias. Todos os dias eles constroem uma nova rotatória que custa um milhão de dólares, além de shoppings e sei lá mais o quê. Deixem o seu povo viver”, disse ele, dirigindo-se a al-Sharaa. “O seu povo estava com você, ainda está com você agora e continuará com você, mas isso fará com que as coisas explodam.”

Al-Assil alertou que, à medida que o descontentamento econômico aumenta, a “legitimidade revolucionária” que o governo de al-Sharaa conquistou pode se dissipar.

“Comprar a paciência das pessoas exige permitir que elas participem, fazendo com que sintam que suas vozes são ouvidas.”

O fator Israel

Mas, mesmo que o governo consiga reduzir a distância entre o investimento internacional e a melhoria econômica no dia a dia, ele enfrenta outro obstáculo em grande parte fora de seu controle — um obstáculo que al-Sharaa apontou diretamente na ONU na quarta-feira (30).

“O mundo se alegra com o nosso retorno. Mas Israel está lançando ataques contra a Síria”, disse ele. “Isso contraria a tendência que observamos em nível global.”

Ele estimou que Israel realizou cerca de 500 ataques na Síria desde que ele assumiu o poder.

O país também ocupa grandes áreas do sul da Síria, e autoridades israelenses afirmaram que os militares planejam permanecer lá por tempo indeterminado.

Israel alega não confiar em al-Sharaa e sustenta que precisa de uma zona de segurança para evitar ataques terroristas em seu território.

Exausta pela guerra, a Síria afirma que não deseja um conflito com seu vizinho.

Os dois lados mantêm negociações diretas desde agosto do ano passado.

Al-Sharaa afirmou na terça-feira (29), durante um painel do Atlantic Council em Nova York, que as negociações haviam “alcançado 90% de acordo” até que Israel se retirasse por “motivos diversos”.

Lister diz que a instabilidade gerada pelas ações de Israel é uma das principais preocupações dos investidores que o consultam sobre oportunidades na Síria.

“Se os israelenses mantiverem sua postura atual após as eleições (em outubro), a probabilidade de investimentos externos na Síria diminuirá cada vez mais, pois eles brandem essa enorme marreta sobre a cabeça de Damasco”, disse ele.

“Essa questão específica é tão central para os debates sobre a recuperação econômica quanto as sanções, as perspectivas de investimento e as pequenas e médias empresas. Israel é igualmente importante.”

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