A Segunda Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) encerra nesta sexta-feira (2) o julgamento virtual que decide se referenda a decisão do ministro Gilmar Mendes de enviar ao plenário um processo sobre indenizações a usinas de açúcar e álcool. A sessão termina às 23h59.
Até a noite de quinta-feira (1º), Gilmar, relator do caso, e Dias Toffoli haviam votado pela manutenção do envio. Faltavam os votos de André Mendonça, Nunes Marques e Luiz Fux, que também integram o colegiado.
Gilmar determinou a transferência imediata do processo em 24 de setembro e submeteu a decisão ao referendo da Segunda Turma. No voto apresentado no julgamento virtual, ele defendeu a confirmação da medida.
A discussão ganhou novo foco após a divulgação de mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, nas quais uma advogada comemorava um voto de Nunes Marques sobre o tema.
O processo envolve a União e a Raízen Energia e discute a aplicação do Tema 826 da repercussão geral, que exige a comprovação do prejuízo das usinas por meio de perícia técnica. A dúvida é se a exigência vale também para ações com decisão definitiva (transitadas em julgado) nas quais o valor da indenização foi calculado com base em estudo genérico da FGV (Fundação Getulio Vargas), sem análise individual das perdas de cada empresa.
Segundo o relator, decisões divergentes da própria Segunda Turma sobre o tema justificam uma manifestação do plenário para uniformizar o entendimento do STF. Ele afirma que a Corte poderá esclarecer como o tema deve ser aplicado na fase de execução ou reconhecer uma nova questão de repercussão geral.
O ministro também citou o impacto econômico da controvérsia. De acordo com dados mencionados no voto, as ações sobre indenizações ao setor sucroalcooleiro representam risco fiscal de R$ 103,4 bilhões para a União.
Relação com o Master
Em junho de 2025, a Segunda Turma analisou o tema em outro processo, em julgamento que terminou em 3 a 2. Nunes Marques, Dias Toffoli e Edson Fachin formaram a maioria, enquanto Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos.
O voto de Nunes Marques foi comemorado pela advogada Camilla Ramos, esposa do desembargador Newton Ramos, em mensagem enviada a Vorcaro.
Como mostrou a CNN, o escritório da advogada negociou um contrato de até R$ 427 milhões com o Banco Master para atuar em 12 ações relacionadas ao setor sucroalcooleiro. Os honorários estavam condicionados a resultados favoráveis em processos que poderiam liberar R$ 8,5 bilhões em precatórios.
Nas mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal, Newton e Camilla são identificados como integrantes da chamada “Turma do KN”, expressão associada nas conversas ao ministro Kassio Nunes Marques.
Em nota, o ministro afirmou que nunca votou a favor de Vorcaro ou do Master e sustentou que o processo julgado por ele tratava de uma tese jurídica ampla, aplicável a diferentes empresas, sem relação direta com as ações defendidas pela advogada.

