Durante a Copa do Mundo de 2026, chamou a atenção diversos vídeos gravados na Índia, especialmente em cidades como Kerala, ao sul do país, e Kolkata, mais ao leste, de torcedores locais vibrando e torcendo com os gols da Seleção Brasileira.
Ruas inteiras foram pintadas de verde e amarelo, e os torcedores ergueram estruturas colossais, incluindo outdoors e painéis de até 182 pés (cerca de 55 metros) homenageando craques como Vini Jr., Neymar e o técnico Carlo Ancelotti.
Considerado o país mais populoso do mundo, com quase 1,5 bilhão de habitantes (superou a China desde 2023, segundo projeções da ONU), a Índia vive uma febre pelo Brasil. Milhões de indianos transformaram cidades e vilarejos em verdadeiros redutos canarinhos durante o Mundial.
Mesmo sem a presença de sua própria seleção nacional no torneio, a Índia consolidou-se como um dos maiores mercados digitais da Fifa e com uma das maiores torcidas internacionais da Seleção Brasileira.
Da febre das ruas às lágrimas após a eliminação nas oitavas de final, a devoção indiana pelo Brasil escreveu um dos capítulos mais fascinantes do Mundial deste ano e já colhe frutos históricos.
Talvez sensibilizada pelos vídeos virais e pela imensa conexão cultural, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) confirmou o primeiro amistoso no país, marcado para esse sábado (3), em Calcutá.
A Copa do Mundo de 2026 também comprovou que apesar da falta de títulos importantes nos últimos anos e dos resultados pouco expressivos em Copas desde o penta em 2002, a seleção faz sucesso em países com menos expressão futebolística.
“O futebol brasileiro construiu, ao longo de décadas, uma relação afetiva com torcedores de países onde o esporte ainda está em desenvolvimento. Na Índia, esse sentimento é antigo e continua forte, sinal de que a conexão é com a identidade do futebol brasileiro, e não apenas com os resultados”, explica Thiciana Simão, CEO e cofundadora da AdSports, plataforma digital que conecta entidades, atletas e eventos esportivos a marcas interessadas em patrocínio.
Durante a Copa, dados divulgados pelo Google Trends mostraram que, entre os países que não disputavam o torneio, o Brasil liderou as buscas na plataforma, com 8,16%, a frente de Argentina, com, 7,14%, e Portugal, com 6,63%.
Entre os países que o Brasil liderou também apareceram com destaque a Jamaica e o Líbano. O ranking mostra que o tema desperta forte curiosidade em vizinhos da América Central, como Jamaica, Guatemala e El Salvador, mas também movimenta torcedores em mercados distantes, como Nepal, Bangladesh e Vietnã.
Esse fenômeno de mobilização em massa ocorre porque populações de países com pouca ou nenhuma representação no torneio adotam o Brasil como sua própria seleção de coração. O impacto cultural e a festa dessas torcidas ganharam enorme destaque com registros impressionantes ao redor do planeta.
Especialistas apontam que o Brasil funciona como uma espécie de “seleção do Sul Global”. Por ser o exemplo mais bem-sucedido de equipe esportiva vinda de um país em desenvolvimento, o Brasil gera uma forte identificação afetiva em nações da Ásia, África e Caribe.
O maior exemplo global desse fenômeno está em Bangladesh, no Sul da Ásia. Sem tradição no futebol mundial, estima-se que mais de 100 milhões de bengaleses torçam pelo Brasil.
Durante o torneio, bairros inteiros e até os tradicionais riquixás (meio de transporte local) são pintados de verde e amarelo, dividindo a nação asiática em uma festa gigantesca que impressiona a própria Fifa.
“O caso do Brasil é muito representativo porque existe uma identificação que vai além dos resultados em campo. É uma conexão construída em torno da história, dos grandes jogadores, do estilo de jogo e da própria imagem que o futebol brasileiro carrega”, explica Thales Rangel Mafia, gerente de marketing da Multimarcas Consórcios.
Estratégia e forte mobilização em outros países fez Brasil disparar nas redes sociais
Durante este ano, o Brasil se tornou pela primeira vez na história líder de seguidores no Instagram. A primeira colocação pertencia já há alguns anos a Portugal, impulsionada, é verdade, pelo poder midiático de Cristiano Ronaldo.
Durante a Copa, Portugal ganhou 2,7 milhões de seguidores e, hoje, conta com 25,2 milhões. O Brasil ganhou mais de 5 milhões de fãs neste período e atualmente é o líder absoluto com 27 milhões. Ambos estão bem a frente que outras seleções como França (19,1 milhões), Argentina (18,6 milhões) e Inglaterra (14 milhões).
Além da forte mobilização de públicos de outros países que acabaram torcendo pelo Brasil na Copa, o crescimento do perfil do Brasil se deu desde meados de 2025, quando a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) comunicou uma alteração ao mudar o nome do perfil oficial de “CBF” para “Brasil”.
À primeira vista, pareceu ser uma mudança irrisória, mas especialistas apontam que passar de @cbf_futebol para @brasil significou muitos impactos, no campo dos negócios e do marketing.
Para a CBF, o objetivo era claro: buscar a intercionalização do perfil em busca de fãs de outros continentes e menos familiarizados com siglas do futebol nacional, além de tornar a conta mais acessível e atrativa.
A presença do Brasil na Índia deve potencializar o futebol feminino. Um estudo da Nielsen Sports – empresa de análise global de esportes -, em parceria com a PepsiCo, aponta que o futebol feminino deve se consolidar entre os cinco esportes mais consumidos do mundo até 2030, o que representa um crescimento de 38%, atingindo mais de 800 milhões de pessoas.
A audiência global dos principais torneios deve aumentar 30% no mesmo período, enquanto a receita dos patrocínios já mostram avanços significativos, como a triplicação de acordos na Copa do Mundo Feminina de 2023 em relação a de 2019, tendo um crescimento expressivo na base de fãs em países como China, Brasil e Índia.
“A Seleção Brasileira é sinônimo do futebol bem-jogado e de vitórias ao redor do mundo. Saber estimular essa ligação e gerar ações que promovam engajamento é fundamental para converter esses fãs em consumidores. A disputa de um jogo na Índia, pela primeira vez na história, é um movimento que segue essa linha”, analisa Robson Oliveira, sócio-fundador e presidente da FutebolCard, plataforma líder em gestão de ingressos e programas de sócio-torcedor.
“O Brasil ocupa um espaço muito particular no imaginário do futebol mundial. A Seleção Brasileira continua sendo uma das principais portas de entrada para o futebol internacional nesses países, com uma base de torcedores extremamente fiel que mantém esse vínculo independentemente dos resultados em campo”, comenta Alexandre Vasconcellos, diretor regional da Flashscore no Brasil, com experiência em marketing esportivo, comunicação, inovação e ESG no mundo dos esportes.
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