Entre a noite desta quinta-feira (1º) e a manhã de sexta (2), os jornais O Globo, Folha de S. Paulo e Estadão publicaram editoriais criticando as decisões do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e STF (Supremo Tribunal Federal) que culminaram no cancelamento do debate presidencial da Rede Globo.
Poucas horas antes do embate – o último antes dos eleitores irem às urnas no domingo (4) – a ministra Estela Aranha, do TSE, proibiu que a TV Globo colocasse uma cadeira vazia no lugar reservado para o presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A determinação se deu mesmo diante do fato de o PT (Partido dos Trabalhadores) ter assinado um documento, junto com representantes dos demais partidos, no qual concordava com a regra do lugar vazio em eventual ausência.
Logo depois, o ministro Gilmar Mendes, do STF, determinou que o candidato do Missão à Presidência, Renan Santos, fosse incluído no programa.
Diante das decisões judiciais, a emissora decidiu cancelar o debate. Associações de defesa do jornalismo manifestaram, por meio de uma nota conjunta, a indignação com o que chamaram de “intervenção judicial” do STF.
Os presidenciáveis Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante) questionaram as decisões judiciais que alteraram as regras do encontro. Renan também criticou a suspensão do debate.
O Globo diz que debate exige jornalismo livre
Na noite de quinta-feira, O Globo criticou as decisões judiciais que, segundo o jornal, interferiram nas regras do debate e cercearam a liberdade jornalística.
Em editorial intitulado “Sem liberdade não há debate”, O Globo ressalta que as regras do embate foram previamente acordadas pelas campanhas. Para o jornal, a decisão criou “um desequilíbrio em favor do candidato petista, em detrimento dos demais postulantes ao Planalto”.
Além de criticar as decisões de Gilmar e Estela Aranha, o editorial também menciona uma determinação anterior de Kassio Nunes Marques que determinou a inclusão de Romeu Zema.
“O debate existe para informar o eleitor sobre ideias e propostas num ambiente jornalístico livre, não numa entrevista controlada. Todos os candidatos deveriam comparecer. Desistir de debater e entrar com o pedido de liminar junto ao TSE demonstra desrespeito não apenas com o documento firmado estabelecendo as regras, mas também com o eleitor.”
Folha de S. Paulo aponta prejuízo à neutralidade da eleição
Ainda na noite de quinta, a Folha apontou prejuízo à neutralidade da eleição, com favorecimento de Lula, a partir das decisões.
A Folha afirma, no editorial “Ataque de juízes prejudica neutralidade da eleição”, que Renan não teria respaldo da legislação eleitoral para exigir uma vaga no encontro e questiona o caminho processual adotado por Gilmar. O editorial também critica a decisão de Estela Aranha. Para a Folha, a determinação representou uma intervenção sobre o que a emissora poderia transmitir e impediu a aplicação de uma prática já utilizada em outros debates.
O jornal afirma que as duas decisões, tomadas às vésperas do debate, interferiram na organização do encontro e, em sua avaliação, “corroem a autoridade” da Justiça como árbitra do processo eleitoral. O jornal também sustenta que as intervenções judiciais enfraquecem as instituições democráticas.
“Destruir o que a Nova República levou 40 anos para colocar de pé não pode ser o preço da luta pela sobrevivência individual. Tudo o que os inimigos da Constituição de 1988 desejam é que o regime se enfraqueça para que seja mais fácil subvertê-lo com seus projetos tirânicos.”
Estadão cita força-tarefa no Judiciário para reeleger Lula
Em editorial publicado na manhã desta sexta-feira (2), o Estadão criticou o que chamou de uma “força-tarefa” no Poder Judiciário que estaria atuando em favor da reeleição de Lula.
No texto intitulado “Juízes fazem o diabo para ajudar Lula”, o jornal faz menção à proximidade de Estela Aranha com o ministro Flávio Dino, conhecido aliado de Lula. “Não é papel de uma juíza eleitoral poupar um candidato do desgaste político de se ausentar de um debate por livre e espontânea vontade, muito menos ditar o que um veículo de comunicação pode ou não exibir”, escreveu o editorial.
Para o Estadão, a decisão de Gilmar Mendes é ainda pior. O jornal criticou o atalho tomado pelo partido Solidariedade para fazer com que seu pedido ficasse com Gilmar. Ainda citou a atuação “vergonhosa” do ministro na sessão do STF de 15 de setembro, quando os ministros deram início à discussão sobre possível investigação contra Alexandre de Moraes.
“Em nome de seus interesses políticos, Gilmar Mendes e Estela Aranha violaram a liberdade de imprensa e cassaram o direito do eleitor de ouvir as propostas dos candidatos à Presidência da República no que seria o último encontro entre eles antes do primeiro turno. E pela força de canetadas judiciais. É amarga a ironia de que a lisura da campanha eleitoral, defendida a duras penas contra o golpismo bolsonarista, seja agora tisnada justamente por quem tinha o dever de resguardá-la”, finaliza o texto.

