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Brasileiro vem da África ao Brasil remando sozinho após 2 anos de treino

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Brasileiro vem da África ao Brasil remando sozinho após 2 anos de treino

A cidade portuária Lüderitz, na Namíbia, costa do continente africano, recebeu mais um brasileiro disposto a concluir uma missão ‘quase impossível’ de cruzar o Oceano Atlântico com a força das próprias mãos. Raphael Garcia, 34, decidiu repetir o feito de Amyr Klink, 42 anos depois, partindo do mesmo local, com a missão de chegar ao Brasil remando.

O paulistano que atualmente mora na Nova Zelândia leu o livro, em 2022, sobre a epopeia de Amyr Klink, ‘Cem dias entre céu e mar’. Engenheiro elétrico de formação, decidiu que iria repetir o feito de remar da África ao Brasil, mas para isso ele precisava aprender a remar.

“O que eu fiz foi tentar desmembrar o projeto. Eu desenvolvi uma folha de autoavaliação, toda semana eu ia nessa folha marcar o quanto eu tinha feito. Eu tentava toda semana remar um pouco mais. Nesse período eu me machuquei três vezes, jogando bola. Machuquei o ombro e perdi toda a memória muscular, fiquei nove meses sem treinar. De remo mesmo eu tive mais ou menos uns dois anos de preparação”, explica Raphael Garcia à CNN Brasil.

A viagem total no pequeno barco de seis metros durou 136 dias, um pouco mais de tempo do que Amyr Klink, que precisou de 100. Uma das grandes preocupações são os encontros inesperados com navios gigantes que passam na mesma rota todos os dias. Pode parecer impossível um choque de embarcações, mas é o principal risco da viagem. Sem contar as baleias.

“O grande problema foi no final. Eu tinha que acordar de 20 em 20 minutos, para tirar minha cabeça para fora da cabine, escanear o horizonte e ver se não tinha nenhum barco se aproximando. Depois de conseguir consertar o AIS, que faz a comunicação entre navios, eu estava numa tempestade e uma hora depois ele apitou, tinha um navio a 300 metros vindo na mesma direção. Eu tive que sair do barco, ondas de cinco metros, conectei um rádio VHF e consegui falar para avisar o capitão, quando ele já estava a menos de dez minutos da gente colidir”, conta Garcia.

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Rotina no barco

Ao preparar a viagem, Raphael estudou as correntes marítimas, para melhorar a performance da travessia. Na rotina do dia a dia, o paulistano ficava à deriva à noite e todas as manhãs ele corrigia a rota ao perceber os desvios do caminho original pelo GPS (Sistema de posicionamento global).

Algumas vezes eu conseguia corrigir a rota no mesmo dia, outras vezes eu levava semanas para voltar ao caminho certo.

Raphael Garcia, brasileiro que atravessou o Oceano Atlântico a remo

O brasileiro nunca cogitou pedir resgate, mas logo no começo as dificuldades quase impediram o início da viagem. Amyr Klink, coincidentemente, também quase enfrentou momentos tensos logo na partida, ao chocar o barco com outra embarcação que estava o acompanhando. Sair da costa da África pode se tornar um desafio fatal.

“Logo no começo eu peguei uma tempestade que me jogou 150 quilômetros acima da minha rota. Eu fiquei quatro dias nessa tempestade e tive que me esgoelar para voltar. Nesse momento eu achei que a viagem estava quase perdida, menos de um mês da partida”, revela o engenheiro.

Raphael e Amyr • Uiler Costa-Santos

Alimentação

Raphael tem apenas um rim e tem tendência a ter pedras no único órgão, por isso teve que basear sua dieta em comida desidratada, alimento comum para esse tipo de travessia, pensando no problema do sódio.

“Eu baseei toda comida que eu escolhi em baixo teor de sódio e isso é um grande problema, porque as comidas desidratadas têm mais sódio do que uma pessoa saudável come num dia inteiro. As minhas opções eram extremamente limitadas. Na verdade, minhas refeições foram extremamente repetitivas. Comi por quase meio ano, um dia sim, um dia não, a mesma comida”.

Mãos de Raphael após a viagem • Uiler Costa-Santos

Quando o brasileiro chegou em Salvador, ao concluir a travessia, o seu ídolo Amyr Klink o esperava. Raphael estava abatido e cansado, mas feliz. Agora, após todas as dificuldades, ele sabia porque Amyr nunca mais repetiu a viagem.

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