Às vésperas do primeiro turno das eleições brasileiras, os Estados Unidos e a Austrália suspenderam os serviços de suas embaixadas no Brasil nesta sexta-feira (2). O Reino Unido, por sua vez, emitiu um alerta recomendando que cidadãos britânicos que estejam no país evitem eventos políticos durante o período eleitoral.
A Polícia Federal informou que cumpriu dois mandados de busca e apreensão em São Paulo e no entorno do Distrito Federal para apurar suposto planejamento de atos que poderiam colocar em risco instalações diplomáticas dos Estados Unidos no Brasil.
Segundo nota da corporação, trata-se de ação preventiva, adotada em investigação sigilosa conduzida pela Polícia Federal e fruto da cooperação permanente com agências de inteligência estrangeiras.
A analista de internacional da CNN Fernanda Magnotta avaliou, no CNN 360°, que orientações de cautela eleitoral fazem parte de um protocolo comum adotado por diversos países em períodos de eleições polarizadas.
“O Reino Unido seguiu um protocolo que boa parte das autoridades no mundo todo costumam adotar quando se tem algum tipo de evento significativo num país, como uma eleição polarizada”, afirmou. Segundo ela, recomendações para evitar aglomerações e comícios políticos são medidas de praxe e não representam novidade.
No entanto, Magnotta destacou que a postura americana vai além do protocolo habitual. “O que está acontecendo no Brasil aqui nesse momento em relação aos americanos é diferente”, disse a analista, apontando que a medida se distingue pelo tom, pela gradação e pelo momento em que foi adotada.
Ela citou como precedente a decisão americana de encerrar atividades diplomáticas na Turquia em 2020, ocasião em que havia ameaças críveis e identificadas publicamente, como riscos de sequestro e violência contra diplomatas.
“O caso brasileiro é diferente porque não vem apresentado com nenhuma evidência palpável, pelo menos ao grande público, nesse momento”, avaliou.
Austrália e a rede de inteligência Five Eyes
Magnotta também comentou o fechamento da embaixada australiana, ocorrido logo após a decisão americana. A Austrália citou ameaças de terrorismo e de crimes violentos no Brasil ao justificar o fechamento temporário de sua representação em Brasília.
A analista apontou duas hipóteses para a ação australiana: a primeira seria um excesso de cautela, considerando que a embaixada da Austrália fica a cerca de um quilômetro da embaixada americana.
A segunda hipótese, mais complexa, leva em conta que a Austrália integra o chamado Five Eyes, uma rede de colaboração de segurança e inteligência que inclui também o Reino Unido, o Canadá e a Nova Zelândia.
“Muita gente entendeu que a Austrália ter seguido os Estados Unidos quase que imediatamente poderia indicar que nos bastidores desse grupo que monitora inteligência tivesse havido algum tipo de mapeamento que levaria a crer, de fato, em uma ameaça crível”, explicou.
Fato político em meio à eleição polarizada
Para Magnotta, independentemente de haver ou não uma motivação concreta, a decisão americana já cria um fato político relevante. “Ela cria, a partir desse fato político, um cenário para um novo enquadramento de risco para o Brasil”, afirmou.
A analista ressaltou que a medida ocorre num momento em que o Brasil não mantém relações harmoniosas com os Estados Unidos e em que os candidatos na disputa eleitoral têm posições distintas em relação ao país norte-americano.
Segundo ela, a decisão americana, nesse contexto, “começa a validar narrativa, começa a abrir precedente” e merece atenção pela combinação de tom, gradação e timing.
Sobre a posição de Donald Trump em relação à eleição brasileira, Magnotta afirmou que, embora seja evidente que uma vitória de Flávio Bolsonaro (PL) seria mais favorável aos interesses do governo americano, Trump também precisa agir com cautela para não ser acusado de intervenção.
“Numa eleição acirrada, se o presidente Lula for reeleito, é com ele que vai ter que se relacionar”, ponderou a analista. Trump foi questionado por um repórter na Casa Branca se apoiaria Flávio Bolsonaro, mas evitou fazer uma declaração direta de apoio ao candidato.
Polícia Federal não encontrou elementos suspeitos
A nota da Polícia Federal ressalta que “não tendo sido verificados até o momento elementos que corroborassem os riscos inicialmente apontados, tampouco identificados quaisquer suspeitos de envolvimento com organizações criminosas”.
As investigações prosseguem com a análise dos equipamentos de comunicação e mídias apreendidos. Em paralelo, a Polícia Militar do Distrito Federal deslocou tropas especializadas para o setor de embaixadas em Brasília, a pedido da representação americana.
Segundo a corporação, o efetivo permanecerá no local por tempo indeterminado, enquanto durar a situação de alerta. A PM afirmou ainda que a Embaixada não detalhou o tipo de ameaça que motivou o pedido.

