⚡ Últimas

Segurança alimentar exige crédito, seguro rural e comércio aberto

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)
Segurança alimentar exige crédito, seguro rural e comércio aberto

A pandemia mostrou como estoques baixos de alimentos e rupturas nas cadeias de abastecimento podem rapidamente se transformar em inflação e instabilidade. Cinco anos depois, representantes do Banco Mundial, BNDES, IICA e União Europeia defenderam, no GAFFFF 2026, que garantir segurança alimentar exige mais do que aumentar a produção, é preciso manter crédito, seguro rural, políticas públicas e comércio internacional capazes de sustentar a oferta mesmo em períodos de crise.

O financiamento aparece como uma das principais peças desse sistema. Segundo Caio Barbosa, chefe do Departamento de Crédito Rural do BNDES, o Plano Safra movimenta entre R$ 500 bilhões e R$ 600 bilhões por ano e responde por aproximadamente um terço do financiamento da agricultura brasileira.

“O crédito é a principal alavanca de crescimento e, sem ele, não se garante segurança alimentar”, afirmou.

O BNDES participa desse sistema com cerca de R$ 50 bilhões por ano, mas Barbosa destacou que a estrutura brasileira vai além dos recursos públicos. Instrumentos como LCA e CRA ampliaram a participação do mercado privado no financiamento do agronegócio.

A agricultura familiar ocupa uma posição importante nessa equação. Segundo Barbosa, produtores desse segmento respondem por parcela relevante dos alimentos da cesta básica, o que torna as linhas específicas do Plano Safra uma ferramenta também de segurança alimentar.

O crédito, porém, está cada vez mais condicionado a critérios ambientais. Barbosa afirmou que o BNDES não financia operações com indícios de desmatamento e deixou de liberar cerca de R$ 1 bilhão no ano passado por esse motivo. O valor, segundo ele, correspondeu a aproximadamente 1% dos pedidos que chegaram ao banco.

Sustentabilidade no centro do crédito

A sustentabilidade também pode abrir novas fontes de financiamento e novas cadeias produtivas. Olaf Schmidt, da IFC (International Finance Corporation), braço do setor privado do Banco Mundial, citou projetos voltados à inclusão de pequenos produtores e ao desenvolvimento de novas matérias-primas.

Na cadeia do leite, o Banco Mundial financiou projetos que alcançaram cerca de 6 mil produtores no Nordeste e em Minas Gerais, combinando capital e assistência técnica. Outro projeto citado envolve a Natura e produtores da Amazônia. A estratégia é criar mercado para ingredientes fornecidos por pequenos agricultores e transformar esses produtos em fonte de renda, conectando produção, indústria e bioeconomia.

Schmidt também apontou a macaúba, planta nativa do Brasil, como uma possível nova cadeia para SAF (combustíveis sustentáveis de aviação). A expansão da produção poderia gerar empregos e aumentar a oferta de matéria-prima para um mercado que ainda representa uma parcela pequena da demanda global por combustível de aviação.

Para Schmidt, a dimensão desse potencial fica mais clara quando se olha para o papel da América Latina no abastecimento mundial. A região responde por cerca de 13% das exportações globais de alimentos, segundo ele.

A questão, portanto, não é apenas quanto a região consegue produzir, mas se consegue manter essa produção em momentos de choque.

É nesse ponto que entra o seguro rural, segundo Giovanni Coelho, do IICA (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura). O instituto acompanha políticas públicas agrícolas nos países das Américas e identificou uma ampliação da preocupação dos governos com mecanismos de proteção contra riscos climáticos.

O Brasil aparece entre as referências acompanhadas pelo instituto. Coelho citou o Plano ABC e o seguro rural como exemplos de políticas brasileiras observadas por outros países da região.

A lógica é que uma quebra de safra não afeta somente a renda do produtor. Pode comprometer o pagamento de dívidas, reduzir a oferta futura e pressionar preços. Em um ambiente de eventos climáticos mais frequentes, mecanismos de proteção passam a ter impacto também sobre a estabilidade da oferta de alimentos.

O comércio internacional é outra frente de segurança alimentar. Para Coelho, a dificuldade de avanço das negociações multilaterais aumenta a importância de acordos regionais e bilaterais e de instituições capazes de manter canais de diálogo entre países.

A discussão ganhou um exemplo concreto na fala de Jean-Pierre Bou, chefe adjunto da Delegação da União Europeia no Brasil. Segundo ele, a União Europeia enviou nesta semana missões de inspeção ao Brasil relacionadas às cadeias de frango e mel e uma decisão sobre a retomada do comércio desses produtos deve ocorrer nas próximas semanas.

No caso da carne bovina, as negociações continuam. Bou afirmou que o processo é mais complexo e depende de questões relacionadas ao ciclo de produção dos animais.

Ao mesmo tempo, o representante europeu destacou que o acordo entre Mercosul e União Europeia abre espaço para ampliar as exportações brasileiras. Ele citou café e uvas entre os produtos que já apresentaram avanço e afirmou que ainda há potencial de crescimento.

As indicações geográficas também entram nessa estratégia. Segundo Bou, o acordo amplia a proteção desses produtos nos dois mercados, permitindo que características específicas de determinadas regiões sejam usadas para agregar valor à produção.

Segurança alimentar exige crédito, seguro rural e comércio aberto — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado