Às vésperas do primeiro turno, as campanhas de Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) traçaram uma estratégia para conter o avanço do chamado voto útil em favor de Flávio Bolsonaro (PL).
De acordo com interlocutores ouvidos pela analista de política Isabel Mega, as campanhas de Caiado e Cury não pretendem concentrar ataques diretos a Flávio durante o último debate antes da votação.
“Vão tentar isso de uma maneira elegante, mas tentando dar certas indiretas a Flávio Bolsonaro, para que o senador não fique tirando voto deles”, destacou Mega durante o Bastidores CNN desta quinta-feira (1º).
O movimento ocorre em resposta a ações da campanha de Flávio para convencer eleitores de candidatos da terceira via a anteciparem seu voto no senador.
Pesquisas como argumento contra o voto útil
Um dos principais argumentos utilizados pelas campanhas de Cury e Caiado é o desempenho dele nas simulações de segundo turno.
“Em cenários desses candidatos contra Lula, eles performam de maneira muito parecida que Flávio Bolsonaro”, afirmou Mega.
Na pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta quinta, Lula soma 45% das intenções de voto de segundo turno contra os três candidatos. Flávio é o único com vantagem sobre o petista, somando 46%, enquanto Caiado e Cury somam 43% e 44%, respectivamente.
Além disso, as campanhas destacam que esses candidatos possuem índices de rejeição menores do que os de Flávio, elemento que consideram estratégico para o discurso público.
Entre os candidatos da chamada terceira via, Augusto Cury chegou a demonstrar maior competitividade em determinado momento da corrida eleitoral.
Após o primeiro debate do primeiro turno, na TV Bandeirantes, ele passou a pontuar melhor nas pesquisas e chegou a registrar dois dígitos em algumas delas.
“Mas isso demonstrou ser ‘voo de galinha’, ele caiu novamente no patamar de pesquisas e hoje esse pelotão da terceira via está com comportamento parecido”, destacou Mega.
A analista observou que Romeu Zema (Novo) aparece mais atrás nesse grupo, com intenções de voto ainda mais reduzidas.
No campo do PT, há uma leitura dividida sobre o cenário. Alguns integrantes do partido avaliam que os candidatos da terceira via podem acabar atacando Flávio Bolsonaro, o que seria conveniente para Lula.
Outros, porém, acreditam que esses candidatos não irão bater tanto em Flávio, o que poderia, indiretamente, beneficiá-lo.
Capital político e interesse dos partidos
A estratégia de preservar votos vai além da disputa presidencial em si. A analista de política Clarissa Oliveira observou que, quanto mais votos esses candidatos conseguirem entregar nas urnas, maior será o valor de seus apoios em um eventual segundo turno.
“Isso pode envolver a participação dos partidos políticos deles em um eventual futuro governo ou mesmo apenas na segunda etapa da campanha”, afirmou Clarissa.
A analista destacou o interesse institucional dos próprios partidos envolvidos. Segundo ela, uma candidatura presidencial tende a puxar as bancadas e aumentar a votação parlamentar, que é fundamental para legendas como o PSD e o Avante.
“Mesmo que Caiado não tenha muitos votos na eleição presidencial, o fato de ele ser candidato contribui para trazer mais votos às candidaturas no Legislativo. Mesmo Augusto Cury, ele conseguiu trazer um capital político maior do que se imaginava, isso atrai votos para o Legislativo”, explicou Clarissa.

