Aos 40 anos de carreira, Péricles segue disposto a experimentar para além das fronteiras do pagode. Em seu novo álbum de estúdio, “Camuflagem”, o cantor reúne diferentes gêneros e gerações ao dividir os vocais com os artistas Ney Matogrosso, Zeca Pagodinho, Ana Castela e Jota.pê.
Em entrevista à CNN Brasil, o sambista explicou que a diversidade de vozes não aconteceu por acaso e defendeu uma música cada vez menos “presa” a gêneros específicos. Péricles ainda celebrou a receptividade no Rock in Rio 2026, festival no qual teve grande destaque este ano.
“Eu creio que, quando a gente estabelece a chance de poder quebrar muros, isso faz um bem para a música em geral. É importante ter esses diferentes timbres, gerações e estilos para que a gente componha esse projeto”, afirmou a voz de “Melhor Eu Ir”.
“O ‘Camuflagem’ tem essa cara justamente de fazer com que, além de a gente quebrar muros, a gente faça com que a música seja um grande universo onde caiba todo mundo, uma coisa em que eu sempre acreditei e sempre preguei.”
O próprio pagode tem desempenhado um papel importante nessa aproximação entre gêneros, segundo Péricles. “Vejo que o pagode vive um momento especialmente muito aberto, mas ele [gênero] está sendo vanguardista em mostrar que são possíveis as junções, a quebra de muros e fazer com que a gente seja um time grandioso.”
Encontros de diferentes gerações
Com 12 faixas, “Camuflagem” combina músicas inéditas e releituras. Entre as participações, Ney Matogrosso canta “Faz Parte do Meu Show”, composição de Cazuza e Renato Ladeira, enquanto Zeca Pagodinho aparece em “Não Quero Mais Amar a Ninguém”, de Cartola, Carlos Cachaça e Zé da Zilda.
Ana Castela participa de “Simplesmente Acontece”, enquanto Jota.pê divide com Péricles os vocais de “Até Quando”.
“São grandes participações e todas elas têm a ver principalmente com a questão das músicas. Assim que escolhemos as canções, eu vi que elas tinham a cara das vozes escolhidas para defendê-las”, explicou.
As regravações presentes no projeto cumprem ainda o papel de aproximar gerações diferentes de um mesmo repertório.
“As releituras são importantes para mostrar a uma nova geração, que não conhecia até então, aquelas canções. E, mais do que isso, mostrar para quem de repente já curtiu, já viveu esse momento, poder, se quiser, comparar com a nova versão ou, se quiser, matar saudade da versão original também.”
“Uma releitura é uma chance nova de celebrar essa canção que já faz parte da vida da gente”, acrescentou.
Amor dá o tom de “Camuflagem”
Apesar da variedade musical, Péricles escolheu um tema único e “urgente” para conectar as canções.
“O amor sempre foi a pauta do meu trabalho. Eu gosto e acho necessário, porque nunca foi tão urgente falar de amor, mostrar que o amor é possível, uma grande ferramenta”, disse.
“Nesse trabalho, a gente fala de todas as vertentes do amor, todas as possibilidades do amor. O amor que deu certo até então, o amor novo, o amor que é possível, às vezes as desilusões amorosas que muita gente viveu.”
O título vem de uma das canções do repertório. Segundo o cantor, “Camuflagem” aborda uma relação marcada pelo desequilíbrio entre quem se entrega e quem permanece protegido.
“É título de uma música muito bonita, que fala de alguém que se entregou e que, de repente, cansou de ver a outra pessoa somente querer que uma cedesse, que uma abrisse a guarda. E a gente vê essa música com um grande diferencial nesse disco.”
O álbum também ganhará os palcos. Péricles contou que uma nova turnê está sendo preparada para o próximo ano. “A gente ainda está em elaboração desse novo show, que estreia em 2027. Eu já estou ansioso e quero muito que todas as pessoas venham participar desse momento novo com a gente.”
Rock in Rio e a quebra das “caixinhas”
A vontade de transitar por outros universos musicais também apareceu recentemente no Rock in Rio 2026. No festival, Péricles apresentou um espetáculo dedicado à Motown, experiência que, segundo ele, teve uma repercussão maior do que esperava.
O cantor afirmou que a maior alegria do projeto foi justamente mostrar que sua identidade como sambista e pagodeiro não o impede de experimentar outros repertórios.
“A repercussão maior, eu creio, é ver um sambista, um pagodeiro — e as pessoas têm muito essa mania de pôr a gente em caixinhas — vendo que o músico brasileiro, o artista brasileiro, sempre pode um pouco mais. Acho que esse foi o maior desafio. Eu gostei desse desafio, e gostei muito mais da repercussão e do resultado.”
Embora o espetáculo tenha sido concebido inicialmente como uma apresentação isolada, a recepção abriu a possibilidade de o projeto ganhar novos palcos.
“A opinião pública e grandes fãs da gente pedem para que esse show seja uma realidade. Eu também espero, estou ansioso para que seja, dentro da minha carreira, mais um marco para que a gente possa aproveitar esse momento. Caso as pessoas queiram, por que não?”
Mesmo depois de quatro décadas de trajetória, Péricles ressaltou que novos projetos ainda despertam a mesma ansiedade de quem está dando os primeiros passos.
“Eu tenho 40 anos de carreira, mas me sinto começando de novo todo dia. Todas as etapas me deixam muito ansioso. Escolher um repertório, gravar um disco de estúdio, subir ao palco, fazer um show, me deixam com vontade de sempre dar passos a mais, crescer na carreira. Me sinto começando de novo todo dia.”
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