A Bridgewater Associates, um dos maiores fundos de hedge do mundo, avalia que a eleição presidencial brasileira de 2026 é a mais importante entre os mercados emergentes. Para a gestora, o resultado determinará a capacidade do Brasil de se tornar o principal destino de uma dupla movimentação financeira: a rotação de capital global para fora dos EUA e o retorno da poupança doméstica aos ativos locais.
O relatório “Bridgewater Client Observatory”, publicado nesta quinta-feira (1º), coloca a situação fiscal do Brasil como fator determinante para o retorno dos ativos ao país. Segundo o documento, a disputa presidencial entre o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o candidato da oposição, o senador Flávio Bolsonaro (PL), deve resultar em duas trajetórias fiscais muito distintas.
Uma vitória de Flávio Bolsonaro, segundo o relatório, poderia catalisar reformas centradas na estabilização da dívida, na contenção de gastos públicos e na redução de programas fiscais extraorçamentários, abrindo caminho para a queda das taxas de juros e da inflação.
Isso, combinado a uma política de privatizações, a uma reforma tributária que incentive investimentos e exportações e a um Estado mais enxuto, poderia desencadear um ciclo de políticas que se “retroalimentam”.
Em tese, esse movimento traria redução das necessidades de financiamento e dos prêmios de risco exigidos pelos investidores.
Por outro lado, a continuidade da atual gestão Lula “provavelmente significaria a manutenção das estruturas existentes e uma relutância em enfrentar os ‘trade-offs’ necessários para alterar a trajetória fiscal do Brasil”, escrevem os autores, citando como exemplos as amplas isenções fiscais, os canais de gastos fora do orçamento e a rigidez orçamentária.
“Isso provavelmente exigiria a manutenção das elevadas taxas de juros reais que o país tem enfrentado ao longo dos anos para assegurar a estabilidade cambial”, ressalta o documento.
O relatório reconhece, contudo, que mesmo uma vitória de Lula tenderia mais a resultar em tentativas de reformas positivas — como sugerido pela equipe econômica da campanha petista — do que em uma mudança negativa abrupta na trajetória fiscal.
Nos últimos 12 meses, o texto aponta que as eleições no Chile, na Hungria, na Colômbia e no Peru levaram ao poder candidatos favoráveis ao livre mercado e com plataformas políticas consideradas mais ortodoxas, atraindo fluxos expressivos para os mercados locais graças à promessa de transformações institucionais potencialmente duradouras.
O efeito dominó com a vitória da oposição
Quem guarda dinheiro no Brasil consegue ter acesso a um rendimento que ronda os 14% ao ano, com ganho real de 9,5% acima da inflação, sem correr riscos.
Essa é a maior taxa de retorno sem risco entre as grandes economias do mundo, o que levou investidores a tirarem recursos da Bolsa de Valores e de fundos com maior grau de risco para deixá-los aplicados em opções de curto prazo e baixo risco.
Por causa dessa dinâmica, a Bridgewater Associates mostra que o patrimônio dos fundos de investimento de cobertura (hedge funds) no país caiu pela metade em relação a 2022.
O resultado é que tanto investidores brasileiros quanto estrangeiros preferem deixar o dinheiro parado rendendo juros altos no Brasil e só correr riscos investindo em outros países.
Por essa razão, a próxima eleição presidencial deve ser entendida, do ponto de vista do relatório, como uma escolha entre dois modelos de mercado muito diferentes, e não apenas como uma disputa política.
No cenário de reformas trazido por uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, o “Bridgewater Client Observatory” destaca três efeitos que aconteceriam em cadeia:
- A perspectiva de juros futuros mais baixos aumentaria o valor das empresas;
- Governo ganharia mais credibilidade, reduzindo a taxa de risco cobrada pelos investidores;
- A queda dos juros forçaria o dinheiro a sair da renda fixa tradicional para ir rumo à Bolsa de Valores e a investimentos produtivos, criando um ciclo positivo e contínuo.
Para atingir esse cenário, a gestora detalha que um eventual governo da oposição deveria focar na contenção dos gastos obrigatórios, propondo um limite para a relação dívida/PIB respaldado por gatilhos de corte.
Entre as medidas estão a desvinculação do reajuste do salário mínimo do crescimento do PIB, a eliminação dos pisos constitucionais de saúde e educação, o encerramento de programas fora do orçamento, privatizações e reformas administrativas e tributárias voltadas ao investimento.
A gestora traça um paralelo com a criação do teto de gastos no governo Temer, em 2016, ressaltando que, embora a situação fiscal atual seja pior, a ausência de uma recessão profunda tornaria o ajuste menos doloroso.
Já uma eventual continuação do governo Lula tentaria ajustar as contas buscando mais arrecadação, sem resolver estruturalmente o problema de gastos. Ainda assim, os investimentos no Brasil continuariam de certa forma protegidos.
Isso acontece, como escrevem os autores, porque os próprios juros altos funcionam como uma espécie de escudo contra grandes perdas para quem investe.
A candidatura petista propõe manter o arcabouço fiscal vigente e buscar a consolidação fiscal por meio do aumento de receitas, além de regras de crescimento do salário mínimo.
Não há previsão de enfrentamento da rigidez orçamentária ou de grandes privatizações. A Bridgewater avalia que essa estratégia não resolve o problema fiscal estrutural, mas não espera uma deterioração fiscal abrupta.
Apesar de as pesquisas de intenção de voto apresentarem sinais mistos, o relatório considera que a disputa segue muito equilibrada.
Em maio, após o surgimento de áudios vinculando Flávio Bolsonaro ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, as probabilidades de vitória de Lula nas casas de apostas ultrapassaram 60%, enquanto as de Flávio recuaram para a faixa de 25% a 30%.
Entre agosto e setembro, o cenário se inverteu: o desgaste gerado pela inflação e pelos juros altos, somado aos desdobramentos das investigações sobre trocas de mensagens entre o ministro do STF Alexandre de Moraes e Vorcaro, prejudicou a candidatura governista.
Em resposta, o governo anunciou medidas como o reajuste de 15% no Bolsa Família, programas de renegociação de dívidas das famílias e o banimento de plataformas de apostas online, as bets.
Diante do cenário político-eleitoral, a Bridgewater argumenta que os preços dos ativos indicam que o mercado financeiro ainda não colocou na conta uma vitória de Flávio Bolsonaro nem a virada econômica que ela traria.
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