Cristiano Ronaldo ajudou Jorge Jesus a chegar ao Al-Nassr, foi campeão saudita com o treinador e admitiu ter continuado na Seleção por causa dele. Dois meses após a chegada de Jesus à seleção portuguesa, o capitão deixou a concentração.
-
1 de 8Cristiano Ronaldo deixa concentração de Portugal na Nations League • Foto: Reprodução
-
2 de 8Cristiano Ronaldo em entrevista coletiva de Portugal • Foto: Divulgação/ Federação Portuguesa de Futebol
-
3 de 8Cristiano Ronaldo chora após o término da partida entre Portugal x Espanha na Copa do Mundo • Getty Images via Divulgação/Fifa
-
-
4 de 8Cristiano Ronaldo comemora gol em jogo entre Portugal e Uzbequistão na Copa do Mundo de 2026 • IMAGN IMAGES via Reuters
-
5 de 8Cristiano Ronaldo comemora primeiro gol em mata-mata de Copa • FIFA / Divulgação
-
6 de 8Cristiano Ronaldo em jogo de Portugal contra Irlanda • 13 de novembro de 2025 REUTERS/Clodagh Kilcoyne
-
-
7 de 8Cristiano Ronaldo com a taça da Nations League • Foto: Divulgação/ @UEFAEURO
-
8 de 8Cristiano Ronaldo conquistou a Euro de 2016 com Portugal • Foto: Matthias Hangst/Getty Images Europe/Getty Images
Há pouco mais de um ano, Cristiano Ronaldo convidou Jorge Jesus para treinar o Al-Nassr. O técnico aceitou, admitiu que provavelmente não teria voltado à Arábia Saudita sem o telefonema do capitão e definiu a missão: ajudá-lo a conquistar o título que ainda faltava no país.
Conseguiu. Ronaldo foi campeão saudita pela primeira vez, Jesus deixou o clube como havia prometido e, semanas depois, os dois se reencontraram na seleção portuguesa.
A relação que parecia facilitar o trabalho com o jogador mais internacional da história de Portugal começou a mudar no segundo jogo de Jesus como técnico da seleção. Ronaldo ficou no banco contra a Noruega, aqueceu, mas não entrou.
O atacante deixou o campo e foi para o vestiário sem acompanhar os companheiros no agradecimento aos torcedores. Dois dias depois, deixou um treino antes mesmo de a atividade começar.
Pedro Proença antecipou a viagem à Dinamarca para acompanhar o caso. Nesta quarta-feira (30), Jesus afirmou que não havia conflito, explicou publicamente as decisões que havia tomado e reafirmou a autoridade do treinador.
14 de julho de 2025 — “Sem o convite de Ronaldo não estaria no Al Nassr”
Jorge Jesus retorna à Arábia Saudita dois meses depois de deixar o Al Hilal e assume o Al-Nassr, com contrato de uma temporada. A influência de Cristiano Ronaldo na escolha não é escondida pelo próprio treinador: “Sem o convite dele, de certeza que não estaria lá.”
A missão também fica definida no aeroporto de Lisboa: “Ronaldo ainda não ganhou na Arábia Saudita. Vou ver se o ajudo.”
Sobre a relação entre os dois, Jesus antecipa: “Falamos a mesma língua, é tudo fácil.” Ronaldo responde nas redes sociais: “Bem-vindo, Mister Jorge Jesus!”
23 de julho de 2025 — Jesus faz defesa pública de Ronaldo
Poucos dias depois de assumir o clube, Jesus faz uma das maiores manifestações públicas de admiração pelo capitão. Em entrevista à RTP, considera Ronaldo “a maior referência humana no mundo” e lamenta: “Em Portugal não sabemos valorizar o que Cristiano Ronaldo é.”
O treinador destaca ainda a longevidade do atacante, então com 40 anos, e a dimensão de Ronaldo, que ultrapassa o futebol.
21 de maio de 2026 — A promessa é cumprida
O Al-Nassr vence o Damac por 4 a 1 na última rodada, com dois gols de Ronaldo, termina com 86 pontos, dois a mais que o Al-Hilal, e conquista o Campeonato Saudita.
É o primeiro título nacional de Ronaldo desde que chegou ao país e encerra uma espera de sete anos do Al Nassr pelo campeonato.
Após a partida, Jesus revela que sua saída estava prevista desde o início. Ele havia recusado um contrato de duas temporadas e recorda o que disse ao capitão quando aceitou o desafio: “Vou te ajudar a ser campeão e depois vou à minha vida.”
A saída se torna oficial em 28 de maio.
10 de julho de 2026 — O reencontro na Seleção: “Nunca vai ser um problema”
Portugal havia sido eliminado pela Espanha nas oitavas de final da Copa do Mundo, e Roberto Martínez deixou o cargo. Jorge Jesus é apresentado como novo técnico da seleção, e Cristiano Ronaldo se torna imediatamente um dos temas da coletiva.
Jesus não deixa dúvidas: “Nunca vai ser um problema para a Seleção nem para mim.” Chama Ronaldo de “um símbolo” de Portugal, diz que é “facílimo trabalhar com ele” e usa a experiência no Al-Nassr para explicar que sabe administrar o capitão.
Na temporada anterior, lembra, Ronaldo participou de 31 dos 50 jogos e foi substituído 16 vezes no campeonato sem que isso gerasse problemas. Mas também estabelece uma fronteira entre os dois: Ronaldo decide o futuro da carreira; as decisões esportivas pertencem ao treinador.
18 de setembro — Primeira convocação, primeira regra pública
Na primeira lista de Jesus, 25 jogadores são convocados, e Ronaldo, então com 233 partidas pela seleção e 146 gols, continua entre os escolhidos. A explicação do treinador antecipa muito do que aconteceria nove dias depois.
“O Cris é um jogador como todos os outros, se tem rendimento joga, se não tem rendimento não joga.” Jesus reconhece um status diferente pela carreira e pelas cinco Bolas de Ouro, mas acrescenta: “Isso conta para as minhas decisões? Não conta nada, zero.”
Ele também diz que não sentiu necessidade de conversar previamente com Ronaldo: “Ele conhece as minhas ideias e eu conheço as dele.”
21 de setembro — Começa a primeira concentração
Os convocados se apresentam na Cidade do Futebol para a primeira concentração de Jorge Jesus. O primeiro trabalho é de recuperação, na academia.
Portugal se prepara para quatro jogos da Nations League em um curto período, calendário que Jesus usará depois para justificar o controle físico dos jogadores mais utilizados.
23 de setembro — Ronaldo chama Jesus de “a escolha perfeita”
É a imagem do entendimento. Técnico e capitão sentam-se juntos na coletiva de imprensa de antevisão ao jogo contra o País de Gales, realizada durante o Portugal Football Summit.
Ronaldo revela que considerou deixar a Seleção depois da Copa do Mundo. “Sim, considerei”, admite. Mas conversou com Pedro Proença e Jorge Jesus: “Eles contam comigo. Eu ainda acredito que posso ajudar a Seleção Nacional.”
Sobre o treinador, não poupa elogios: “Foi uma escolha perfeita.”
E aceita publicamente a hierarquia definida por Jesus cinco dias antes. “Como disse o mister, e concordo com ele, os estatutos não contam para nada.” Em outra resposta, vai ainda mais longe: está disponível para “entrar, sair, não jogar”.
E deixa uma frase que ganharia outro significado sete dias depois: “Quando não quiserem contar comigo, sou o primeiro a agarrar na mala e vou embora.”
Ronaldo é titular contra Gales, mas deixa o campo no segundo tempo
Jesus confirma Ronaldo como titular diante do País de Gales e volta a falar sobre a dimensão do capitão, mas ressalva que o status não lhe garante uma vaga em campo.
“Se vai jogar amanhã 90 minutos, o jogo é que dita.”
Questionado sobre João Palhinha, Jesus explicita, porém, que nem todos os jogadores têm o mesmo status dentro da Seleção. “O estatuto é diferente. Ele tem estatuto, posso dizer, o outro não tem, não digo”, afirma, em referência a Ronaldo.
24 de setembro — Titular, mas substituído contra Gales
No primeiro jogo de Jorge Jesus, Portugal vence o País de Gales por 1 a 0, em Alvalade, com um gol de João Félix. Ronaldo começa ao lado do antigo companheiro do Al-Nassr.
O atacante perde uma oportunidade no início do segundo tempo, ainda coloca a bola na rede em posição irregular e é substituído por Gonçalo Ramos a cerca de 25 minutos do fim.
Jesus explica a decisão sem rodeios: precisava de “um jogador fresquinho para pressionar a saída de bola”.
Ronaldo não demonstra publicamente desagrado e escreve nas redes sociais: “Primeiro passo dado. Vamos, Portugal!”
26 de setembro — “Ronaldo pode fazer melhor”
Na véspera do jogo contra a Noruega, Jesus é questionado sobre o desempenho do capitão diante de Gales. “Pode fazer melhor, como é óbvio”, responde.
Ele explica que avaliará o jogador no treino e lembra que, aos 41 anos, Ronaldo não pode ser administrado da mesma forma que João Neves, de 22.
Mas deixa uma garantia: se Ronaldo não começar como titular, entrará. “Uma coisa eu sei, se não for a primeira escolha, vai entrar no jogo.” A declaração ganharia peso na história dois dias depois.
Ronaldo fica no banco contra a Noruega
27 de setembro — O banco, o aquecimento e a primeira ruptura pública
Ronaldo começa no banco em Oslo. Jesus justifica a decisão antes da partida: o capitão havia jogado quase 70 minutos três dias antes, e ele não queria escalá-lo desde o início em dois jogos tão próximos.
Gonçalo Ramos ocupa a vaga no ataque. Portugal vence a Noruega por 2 a 1. Ronaldo aquece durante o segundo tempo, mas não entra.
Depois do jogo, Jesus revela que havia pensado em utilizá-lo por cerca de meia hora e que chegou a conversar com o atacante sobre essa possibilidade, mas mudou de ideia conforme a partida avançou.
“O jogo não estava a pedir”, explica. Gonçalo Ramos havia marcado, e o técnico optou por mantê-lo em campo.
É a primeira vez desde junho de 2008 que Ronaldo fica no banco durante toda uma partida oficial de Portugal.
No apito final, o capitão entra rapidamente no vestiário e não acompanha os companheiros no agradecimento aos torcedores portugueses presentes em Oslo.
Jesus diz inicialmente que não viu o gesto. Quando é informado sobre o que aconteceu, responde: “Tenho de falar com ele, como é óbvio.”
Ronaldo não comenta a decisão do treinador. Nas redes sociais, limita-se a compartilhar a publicação da Seleção sobre a vitória e escreve apenas: “VAMOS!”
28 de setembro — Ronaldo volta ao campo e sorri
No primeiro treino em Malmo, já com Portugal se preparando para a viagem à Dinamarca, Ronaldo participa no gramado do grupo de reservas que atuaram e dos jogadores que não entraram em campo em Oslo.
As imagens mostram o capitão sorridente. Publicamente, o episódio da noite anterior parece não ter passado disso.
Ronaldo deixa treino antes da atividade começar
29 de setembro — Não treina, conversa com Jesus e retorna ao hotel
A situação volta a mudar no dia seguinte.
Ronaldo chega ao Eleda Stadion e ainda pisa no gramado cerca de meia hora antes do início da atividade, mas não participa do treino. Ele conversa brevemente com Jorge Jesus e deixa o local enquanto os companheiros trabalham.
O jogador retorna ao hotel para realizar um trabalho específico na academia.
A versão oficial da Federação é que a academia do estádio não tinha um “equipamento específico” de que Ronaldo precisava. Nenhuma lesão é comunicada.
João Félix também trabalha na academia, mas permanece nas instalações do Malmo.
Depois do treino, o capitão da Seleção, enigmático, publica no Instagram uma fotografia sua com a legenda: “PT
”.
A informação é de que a primeira conversa entre Ronaldo e Jesus não resolveu o desentendimento, embora posteriormente tenha sido divulgado que uma nova conversa no hotel permitiu chegar a um entendimento.
Enquanto isso, Pedro Proença altera sua agenda. Em vez de seguir para os Açores, onde deveria assistir ao jogo da seleção sub-21, viaja para Copenhague para acompanhar pessoalmente a situação.
30 de setembro — Jesus põe os pontos nos is
Antes do último treino para o jogo contra a Dinamarca, Jorge Jesus se apresenta aos jornalistas e tenta encerrar o assunto. Ele começa avisando que não quer uma coletiva dedicada ao capitão: “Não tenho um jogador. Tenho 23.”
Depois, revela um dado até então desconhecido. Segundo Jesus, havia combinado previamente com Ronaldo que o atacante não seria titular — e, no plano inicial, não jogaria — nem contra a Noruega nem contra a Dinamarca, devido à sequência de partidas.
O treinador também explica que Ronaldo normalmente não treina nos dois primeiros dias após uma partida.
Sobre Oslo, admite que alterou esse plano durante o próprio jogo. Disse a Ronaldo que poderia precisar dele por 20 ou 30 minutos e mandou o atacante aquecer.
Jesus reconhece que o erro foi ter enviado Ronaldo para o aquecimento cedo demais. Mas a decisão final continuou sendo sua: “Nunca nenhum jogador vai mudar as minhas ideias. Nem ele nem ninguém no futebol. Nem nenhum presidente. Nunca, zero.”
Jesus também admite a insatisfação do capitão. “Não há nenhum que fique contente por aquecer e não entrar. Quanto mais o Cris.” Mas rejeita uma ruptura: “Não há caso nenhum entre mim e ele.”
E estabelece novamente a regra: “O estatuto não dá direitos que os jogadores sejam diferenciados.”
Sobre a ausência do treino de terça-feira (29), é taxativo: “Ele não se recusou a treinar.” E garante que Ronaldo participará da atividade naquela tarde. “Hoje vai treinar.”
Quando questionado sobre a escalação contra a Dinamarca, confirma, porém, a permanência de Gonçalo Ramos: “Se tudo acontecer normalmente, é o Gonçalo que vai jogar.”
Jesus confirma ainda uma reunião com Proença e Ronaldo, mas rejeita a ideia de que o presidente tenha viajado para apagar um incêndio: “Ele não veio resolver nada porque não havia nada para resolver.”
30 de setembro, minutos depois — Ronaldo vai embora
A garantia de Jesus dura poucos minutos.
Enquanto os demais jogadores se preparam para o treino no Parken, Ronaldo deixa o estádio em uma van da Federação Portuguesa de Futebol. Ele não participa da atividade.
A Federação Portuguesa de Futebol confirma a ausência, sem apresentar naquele momento uma explicação pública.
Quase imediatamente, o avião particular de Ronaldo, que estava em Madri, se prepara para decolar rumo a Copenhague.
Horas depois, Ronaldo explica a decisão no Instagram. Diz que ela foi tomada “após a conferência de imprensa do Selecionador Nacional” e depois de uma conversa com Pedro Proença.
“Tomei a decisão de deixar o estágio da Seleção Nacional”, escreve. E deixa uma frase que abre uma incógnita sobre 23 anos de carreira internacional: “A seu tempo, direi a verdade a todos os portugueses sobre as razões que motivaram a minha saída da equipa nacional.”
Ele termina desejando “boa sorte a Portugal” e aos companheiros, “sem exceção”.
Cristiano Ronaldo pede punição a torcedores após cânticos sobre Diogo Jota

