Jorge Jesus passou boa parte da entrevista coletiva desta quarta-feira (30) respondendo sobre Cristiano Ronaldo. Horas depois, o capitão de Portugal deixou a concentração antes do treino para o jogo contra a Dinamarca.
O treinador tentou minimizar o episódio e repetiu que não havia conflito com o atacante. Segundo Jesus, os dois haviam combinado previamente um plano para os primeiros jogos da Liga das Nações.
Ronaldo, porém, deixou o estágio da seleção após a entrevista. Em comunicado, afirmou que tomou a decisão depois da coletiva de Jesus e de uma conversa com Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol.
Jesus diz que havia plano para Ronaldo
Jesus afirmou que havia decidido não utilizar Ronaldo nas partidas contra Noruega e Dinamarca. A mesma estratégia, segundo o técnico, também foi adotada com Bruno Fernandes.
“É verdade que eu combinei com ele [Cristiano Ronaldo]. Como combinei? Não combinei só com ele. Criámos um plano, como também fiz com o Bruno Fernandes. E disse ao Cris que o jogo na Noruega e o jogo na Dinamarca ele não iria jogar.”
O treinador justificou a decisão pelo desgaste físico e pela experiência que acumulou ao trabalhar com Ronaldo no Al Nassr.
“Eu estive a trabalhar um ano com o Cris. Eu conheço completamente as condições físicas do Cris. E sei, porque já o fazia na Arábia, que, quando havia jogos de três em três dias, raramente o Cris jogava.”
Jesus também afirmou que Ronaldo costuma ter uma programação específica nos dias seguintes às partidas.
“Para além disso, o Cris nunca treina nem no primeiro dia nem no segundo dia após o jogo. Nunca. Esteve um ano comigo, nunca. E, portanto, eu combinei isso com ele.”
“Aqui é que eu fiz mal”
Apesar do planejamento inicial, Jesus revelou que considerou colocar Ronaldo em campo contra a Noruega. O atacante chegou a aquecer por cerca de 20 ou 30 minutos, mas permaneceu no banco até o fim da vitória por 2 a 1.
“Eu tinha combinado com ele [Cristiano Ronaldo] que não jogava os dois primeiros jogos, mas se calhar até ia precisar dele nos últimos minutos. Mas o jogo ditou-me outras coisas, começou-me a dizer outras coisas, e eu não o coloquei no jogo.”
O técnico reconheceu que poderia ter conduzido a situação de outra maneira.
“Chegou ao jogo. Eu mandei-o aquecer aos 45 minutos. Faltavam 45. Aqui é que eu fiz mal. Eu devia tê-lo mandado aquecer 15 ou 20 minutos mais tarde.”
Segundo Jesus, o problema foi ter iniciado o aquecimento antes de saber se realmente precisaria do atacante.
“Eu não sabia o que é que ia acontecer. Comecei a ver o jogo, comecei a ver as coisas de uma maneira diferente e achei que não precisava dele. Eu não o pus no jogo.”
“As regras são iguais para todos”
A gestão de Ronaldo levou Jesus a explicar como enxerga o chamado “estatuto” de um jogador dentro da seleção. Para o treinador, a trajetória de um atleta deve ser respeitada, mas não interfere na decisão sobre quem entra em campo.
“O estatuto é uma coisa. As regras são iguais para todos. Agora, o estatuto, para mim e para o jogador, é o treinador, pelo passado da carreira deles, ter algum cuidado naquilo que podem ser as suas decisões antes do jogo acontecer.”
Jesus citou Bruno Fernandes para afirmar que o mesmo critério foi aplicado a outro dos principais jogadores de Portugal.
“Eu disse ao Bruno a mesma coisa: ‘No próximo jogo não jogas, vais jogar no outro jogo, na Dinamarca, se recuperares’. Exatamente o que eu fiz com o Ronaldo.”
O técnico ainda reforçou que a decisão final sobre a escalação pertence a ele.
“Eu coloco sempre primeiro a questão daquilo que é o plano que eu traço com o jogador e depois quem decide sou eu.”
Jesus nega que Ronaldo tenha se recusado a treinar
Outro ponto abordado na coletiva foi a ausência de Ronaldo dos trabalhos com o restante do elenco nos dias anteriores. Jesus negou que o atacante tenha se recusado a treinar.
“Não, não se recusou a treinar. Não treinou o Francisco Conceição, porque estava lesionado. O Félix, porque tentámos descarregar um pouco a fadiga que ele apresentou depois destes dois jogos.”
Sobre Ronaldo, o treinador explicou que havia sido programada uma atividade diferente.
“E o Cris fez trabalho de ginásio, fez um pouco de mobilização no campo e depois foi fazer um trabalho de reforço para o hotel. Portanto, foi isso.”
Jesus ainda considerou improvável que um jogador de seleção simplesmente se negasse a participar de um treinamento.
“Vocês acham que algum jogador do nível de uma seleção se recusa a treinar? Não é de Portugal, de outra seleção. Só se ele quiser ir embora. Se ele vier com outras ideias, recusa-se a treinar. Ninguém se recusa a treinar.”
Pouco depois da coletiva, Ronaldo deixou o Estádio Parken, onde Portugal se preparava para o duelo com a Dinamarca. A saída aconteceu justamente após Jesus afirmar que o atacante treinaria normalmente.
“Não há caso nenhum”
Durante a entrevista, Jesus insistiu diversas vezes que o episódio com Ronaldo não representava uma crise entre os dois.
“Já agora, vou-vos dizer. Eu tive um ano a trabalhar com o Cris. Isto parece que há aqui um caso entre mim e ele, quando não há caso nenhum, pá.”
O treinador também afirmou que Ronaldo ficou irritado após não entrar contra a Noruega, mas tratou a reação como algo superado.
“Qualquer jogador, quando anda ali a aquecer 20 minutos, 30 minutos, e depois não entra, não há nenhum que fique contente. Nenhum.”
Jesus contou ainda que conversou com o atacante sobre a repercussão do episódio.
“Vocês, entre aspas, obrigaram-me a falar com o Cris de um caso em que não havia caso. ‘Cris, em Portugal está-se a falar tanto disto que temos de falar. Eu não estou a perceber o que é que está a acontecer.’”
Segundo o treinador, Ronaldo respondeu reafirmando que aceitaria qualquer decisão técnica.
“‘Míster, estou aqui para tu decidires. Queres que eu jogue? Eu jogo. Queres que eu não jogue? Eu não jogo. Queres que eu vá para a bancada? Eu vou para a bancada’.”
“Nenhum jogador vai mudar minhas ideias”
Em um dos momentos mais firmes da coletiva, Jesus afirmou que nem mesmo o peso de Ronaldo na história do futebol português mudaria suas decisões.
“Porque não há um Cristiano, nem nunca vai haver nenhum jogador, que vá mudar as minhas ideias como treinador. Nunca. Nem ele, nem ninguém no futebol.”
O treinador também citou Sadio Mané, com quem trabalhou no Al Nassr, para explicar como utiliza o conceito de estatuto.
“O estatuto não tem regras diferentes dos outros. É igual. Para mim, nas minhas decisões de pôr a jogar, tirar, não pôr a jogar, mandá-lo para a bancada, é igual.”
Gonçalo Ramos deve começar contra a Dinamarca
Antes de deixar a coletiva, Jesus indicou que Gonçalo Ramos deve ser titular contra a Dinamarca, mas não garantiu se Ronaldo seria utilizado durante a partida.
“Hoje vou treinar. Se tudo acontecer normalmente, é o Gonçalo [Ramos] que vai jogar.”
Questionado sobre a possibilidade de Ronaldo entrar durante o jogo, respondeu:
“Se precisar dele, entra. Se não precisar, não entra”, concluiu.
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