Os grandes festivais sertanejos deixaram de ser apenas eventos de rodeio e música e passaram a movimentar uma cadeia de negócios que envolve turismo, hospedagem, alimentação, transporte, comércio, serviços e fornecedores. Em Barretos, no interior de São Paulo, a 71ª Festa do Peão de Boiadeiro gerou R$742 milhões em movimentação financeira direta em 11 dias de programação, entre 20 e 30 de agosto de 2026.
O evento recebeu cerca de 1 milhão de visitas, segundo levantamento do Centro de Inteligência da Economia do Turismo (CIET), vinculado à Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (Setur-SP). A pesquisa mostra que 84% dos frequentadores eram turistas ou excursionistas, indicando o peso do festival para a atividade turística e para a economia da região.
O impacto não fica restrito à cidade que sedia o evento. Segundo Jeronimo Luiz Muzeti, presidente da Festa do Peão de Barretos, a rede hoteleira da cidade não comporta sozinha o fluxo de visitantes durante a programação. Parte do público se hospeda em municípios como Olímpia e São José do Rio Preto, além de outras cidades em um raio de até 100 quilômetros.
“A realização da Festa movimenta uma cadeia muito grande de profissionais e serviços”, afirmou Muzeti. Segundo ele, a edição de 2026 envolveu cerca de 5 mil empregos diretos e outros 10 mil indiretos, em áreas como montagem, alimentação, segurança, limpeza, tecnologia, transporte, produção e infraestrutura.
Um mercado que vai além dos dias de festa
A dimensão dos grandes rodeios também exige investimentos permanentes em estrutura. Em Barretos, Muzeti afirma que cerca de R$30 milhões foram destinados à infraestrutura em 2026.
O Parque do Peão, que possui 2 milhões de metros quadrados, também é utilizado em outros períodos do ano. Os Independentes, responsável pela Festa, realiza eventos como o Barretos Motorcycles e o Insane Sound, além de receber eventos particulares.
A estratégia, segundo Muzeti, não é apenas ampliar o número de pessoas durante a Festa, mas também aproveitar a estrutura ao longo do ano.
“Nosso crescimento não está relacionado apenas a aumentar o número de pessoas dentro do Parque. A Festa já alcançou uma dimensão muito grande e nosso desafio é continuar avançando em estrutura, conforto, segurança, tecnologia, experiências e qualidade dos serviços oferecidos ao público”, disse.
O levantamento do CIET reforça a dimensão turística desse mercado. Os visitantes da Festa de Barretos tiveram gasto médio de R$816 por pessoa ao dia e permanência média de cinco dias. Hotéis e pousadas foram utilizados por 27,6% do público, enquanto 23,5% ficaram em camping e 17,4% em imóveis alugados por temporada.
Público nacional
A capacidade de atrair consumidores de diferentes regiões ajuda a ampliar o impacto econômico dos eventos. Em Barretos, foram identificados visitantes dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal, vindos de 2.938 municípios. Também foram registrados turistas internacionais, com destaque para Estados Unidos e México.
Entre os estados com maior participação de turistas estavam Minas Gerais, com 13,8%, Paraná, com 8,7%, e Goiás, com 6,1%.
Para Muzeti, a distribuição do público também aparece nas vendas de ingressos. Segundo dados apresentados pela organização, houve comercialização para 2.938 municípios brasileiros, o equivalente a 51,3% das 5.569 cidades do país.
Jaguariúna aposta na expansão do festival
A mesma transformação pode ser observada em Jaguariúna, também no interior paulista. O Jaguariúna Rodeo Festival tem mais de 30 anos de história e, segundo Gui Marconi, vice-presidente de negócios do Grupo DVT, responsável pelo evento, passou a atrair um público maior de São Paulo, do Rio de Janeiro e de outros estados.
A expansão, de acordo com Marconi, acompanha uma mudança na própria relação do público com o universo sertanejo. O festival procura unir a tradição do rodeio a novas experiências, atrações musicais e inovação na estrutura.
“Jaguariúna é um evento grandioso, com muita história e, ao mesmo tempo, contemporâneo, sempre com inovação, da estrutura à programação”, afirmou.
A estratégia também aparece na programação. O evento contou com Zezé Di Camargo & Luciano na abertura e Syon Trio no encerramento, combinando diferentes gerações e propostas musicais.
Para Marconi, rodeio e música fazem parte de uma mesma cadeia de entretenimento.
“O rodeio nunca seria do tamanho que é sem a música e nem a música seria sem o rodeio: um fomenta o outro”, afirmou.
O festival também ampliou a estrutura destinada às competições. Segundo Marconi, essa edição apresentou uma nova pista coberta para as provas eliminatórias realizadas durante o dia no camping, que também foi ampliado.
Tradição como negócio
A transformação dos rodeios também acompanha a expansão da cultura country para além dos próprios eventos. Segundo Marconi, o público se renovou e passou a incorporar elementos como camisa, bota e chapéu ao cotidiano, enquanto a cultura do interior ganhou espaço na moda e no comportamento.
Para ele, os grandes rodeios funcionam como pontos de encontro dessa cultura e ajudam a conectar a tradição regional a um público nacional.
“Os rodeios têm um papel fundamental na história da cultura sertaneja. São os grandes encontros desse universo, que representa a tradição do interior
do Brasil”, disse.
Em Barretos, o impacto de R$742 milhões registrado em 2026 dimensiona uma parte desse mercado e mostra como um grande evento pode movimentar uma cadeia que vai muito além da venda de ingressos. Em Jaguariúna, a combinação entre rodeio, música, entretenimento e novas experiências aponta para um modelo em que a tradição sertaneja se transforma também em uma plataforma de negócios e turismo.
