A administração Trump está recorrendo a argumentos de segurança nacional para remodelar partes de Washington conforme os caprichos do presidente e criar um perímetro de segurança ao seu redor.
Ou a administração está genuinamente preocupada com uma invasão armada — ou nervosa diante de um ataque em um momento em que o presidente iniciou uma guerra e ordenou o sequestro do presidente de outro país —, ou está buscando justificativas para gastar o dinheiro dos contribuintes em projetos pessoais do presidente Donald Trump.
A segurança nacional é um conceito coringa para exercer o poder presidencial. Trump tentou utilizá-la para justificar tarifas, deportações, ataques extrajudiciais contra embarcações supostamente dedicadas ao narcotráfico e suas pretensões expansionistas em relação à Groenlândia, entre muitas outras coisas.
Agora, a segurança nacional está transformando a capital em uma fortaleza.
O salão de baile foi transformado em um complexo militar
Em primeiro lugar, o projeto de demolição na Ala Leste da Casa Branca deixou de ser uma reforma do salão de baile para se tornar uma enorme instalação militar subterrânea.
As necessidades de segurança serviram para justificar a solicitação de cerca de US$ 400 milhões (cerca de R$ 2 bilhões) dos contribuintes para o projeto, apesar da promessa anterior de Trump de que ele seria financiado com recursos privados.
As tropas permanecerão nas ruas durante o restante do mandato
O envio de tropas da Guarda Nacional, que patrulham as áreas turísticas, foi prorrogado até o fim do mandato de Trump.
Isso representará um custo adicional de US$ 1,4 bilhão (aproximadamente R$ 7 bilhões), segundo uma estimativa fornecida pelo Pentágono aos legisladores.
Esse valor soma-se às centenas de milhões que a medida já custou.
O Arco do Triunfo contará com franco-atiradores e drones
Agora, o arco do triunfo que Trump quer erguer cumprirá uma dupla função: servirá como posto de franco-atiradores, depósito de armas e base para drones, segundo uma publicação do presidente nas redes sociais.

A imprensa é agora considerada uma ameaça à segurança nacional
O Departamento de Justiça defendeu a decisão do presidente de expulsar da Casa Branca jornalistas da CNN, da MSNBC e do Politico, e argumentou perante o tribunal que as notícias sobre seu projeto do salão de baile e a guerra com o Irã poderiam representar um risco à segurança nacional.
Uma audiência judicial está prevista para quarta-feira (23).
Já existe uma zona de segurança em torno de Trump e da Casa Branca
A residência presidencial é um dos locais mais seguros do planeta e conta com um abrigo nuclear e um centro de comando desde a década de 1940.
Há muito tempo, os presidentes invocam a segurança nacional para justificar suas ações e ampliar seus poderes, em grande parte porque os tribunais se mostram reticentes em impedi-los nessa esfera.
Além disso, os magistrados conservadores da Suprema Corte aceitaram a ideia de que era necessário construir imediatamente uma nova Ala Leste por motivos de segurança.
Argumentaram que um cidadão preocupado com a história não tinha motivos para iniciar ações judiciais, em parte devido à ameaça de um ataque.
Segundo a decisão do tribunal:
“O Secretário do Exército, por exemplo, sustenta que a ‘altura e a massa’ do salão de baile projetado acima do nível do solo são ‘cruciais’ para proteger a instalação militar subterrânea prevista contra ‘impactos cinéticos’ e que, sem essa altura e massa, ‘os engenheiros teriam de escavar a uma profundidade impraticável’”.
No entanto, o presidente da Suprema Corte, John Roberts, votou de forma dissidente, juntamente com os magistrados progressistas, argumentando que a construção provavelmente era ilegal.
Sem mencionar a segurança nacional, ele apontou que o Congresso não havia autorizado a obra nem os recursos para pagá-la, conforme exige a lei.
Cercas ao norte. Cercas ao sul
Além do complexo militar sob a Ala Leste, a zona de segurança que cerca o edifício foi ampliada, pelo menos por enquanto.
O parque Ellipse, situado ao sul do edifício, permanece fechado desde a luta do UFC realizada no verão, aparentemente para replantar a grama danificada durante o evento e construir um heliponto.
Além do Ellipse, uma grande parte do National Mall também foi fechada até 2027 para reparos no gramado e nas árvores, segundo o Serviço Nacional de Parques.
A Lafayette Square, ao norte do edifício, foi cercada por grades para a reforma de uma fonte.
No entanto, o Serviço Secreto manteve a área fechada enquanto propõe planos para instalar, de forma permanente, uma cerca ao redor do parque — um espaço que, segundo defensores da liberdade de expressão, deveria continuar sendo um local de reunião e protesto.
O parque seria reaberto — de acordo com os planos do Serviço Secreto apresentados à Comissão de Belas Artes e à Comissão de Planejamento da Capital Nacional —, mas a instalação de portões facilitaria seu fechamento futuro.
Mais recentemente, o Serviço Secreto declarou que o Ellipse e a Lafayette Square deveriam permanecer fechados até o final do mês devido à visita do líder chinês Xi Jinping.
Uma posição de franco-atirador entre um cemitério e um rio
Apresentar o arco do triunfo como uma prioridade de segurança nacional é a interpretação mais estranha da recorrente invocação da segurança nacional por parte de Trump para conseguir o que deseja.
Pouco importa que o local previsto para o arco fique no meio de uma rotatória — cercada por inúmeras instalações militares, como o Pentágono e a Base Conjunta Myer-Henderson Hall.
Quando os planos foram apresentados à Comissão de Planejamento da Capital Nacional — órgão que foi ocupado por apoiadores de Trump —, descreveram-se espaços públicos em vez de uma instalação militar.
Ao que parece, os planos estão mudando, pelo menos segundo a publicação de Trump nas redes sociais.
No domingo (20), Trump descreveu o arco como “um complexo militar e arco do triunfo de primeira linha, destinado a abrigar, armazenar e permitir o rápido deslocamento de um grande número de drones e franco-atiradores — tanto no terraço quanto na praça —, bem como a armazenar grandes quantidades de munição para franco-atiradores”.
Isso soa mais como o tipo de capacidade defensiva necessária para repelir um ataque do que como aquela exigida para manter a ordem pública.
Cavalo de Troia ou Arco do Triunfo?
John Miller, analista-chefe de segurança e inteligência da CNN, observou que a legislação americana proíbe o uso do Exército contra os cidadãos do país.
Então, contra quem exatamente esses franco-atiradores estão protegendo a cidade?
A polícia de Washington, o FBI e muitas outras agências contam com equipes da SWAT na cidade, ressaltou ele, o que torna desconcertante a necessidade de um arco do triunfo repleto de equipamentos militares.
“Não é exatamente um cavalo de Troia, já que o segredo veio à tona”, declarou Miller na segunda-feira (21) a Pamela Brown, da CNN. “Qualquer adversário estrangeiro que tivesse Washington como alvo saberia do que se trata, o que contém e onde atacar”.
O arco teria 250 cerca de 76 metros, o que não representaria risco para o tráfego aéreo com destino ao Aeroporto Nacional Ronald Reagan, nas proximidades, segundo a FAA (Administração Federal de Aviação).
O órgão aprovou recentemente a construção do arco, embora sua autorização não mencionasse nada sobre drones militares ou franco-atiradores.
Esperemos que os Estados Unidos nunca cheguem ao ponto em que franco-atiradores militares apontem suas armas do alto de um arco do triunfo para o outro lado do rio.
Os gastos do Pentágono são uma prioridade
A administração priorizou os gastos com segurança nacional. Trump prometeu um escudo de defesa antimísseis chamado “Cúpula Dourada” para proteger os Estados Unidos de um possível ataque com mísseis.
Esse sistema inspira-se na “Cúpula de Ferro” de Israel, embora a diferença de escala entre os dois países complique a situação e eleve o custo a cifras astronômicas.
Esse escudo defensivo é uma das razões pelas quais Trump também deseja aumentar drasticamente os gastos militares até atingir aproximadamente US$ 1,5 trilhão — um aumento de cerca de 40% —, embora o Congresso ainda não tenha aprovado tal aumento.
Washington já foi atacada antes
Os britânicos saquearam a cidade em 1814. Terroristas da Al-Qaeda sequestraram aviões comerciais e lançaram um deles contra o Pentágono em 2001.
No entanto, a extensão e a geografia dos Estados Unidos tornam impensável qualquer tipo de cerco à cidade.
Durante a Guerra Civil, quando era um alvo principal do exército confederado, a cidade foi fortemente fortificada e cercada por fortes militares.
Até mesmo o presidente Abraham Lincoln foi atacado durante uma visita a Fort Stevens, na zona norte da cidade.
Alguns desses fortes transformaram-se hoje em parques.
A antiga propriedade do general confederado Robert E. Lee — situada logo do outro lado do rio Potomac e confiscada pela União durante a guerra — foi adquirida pelo Congresso e transformada no Cemitério Nacional de Arlington; nas imediações desse local, Trump pretende instalar o complexo de arcos, franco-atiradores e drones.
Trump e alguns de seus apoiadores classificaram a chegada de imigrantes aos Estados Unidos como uma invasão, mas não há provas que sugiram que a cidade de Washington corra perigo de sofrer um ataque.
A questão de saber se o governo pode recorrer à Lei de Inimigos Estrangeiros de 1798 — promulgada em tempos de guerra — para deportar supostos membros de gangues criminosas sem uma audiência judicial permaneceu sem solução, uma vez que tais pessoas acabaram sendo deportadas com base em outra norma.
No entanto, os perigos que os presidentes enfrentam muitas vezes provêm do próprio entorno
Trump foi alvo de tentativas de assassinato e, em 2020 — durante seu primeiro mandato —, foi levado às pressas para o bunker da Casa Branca em meio a protestos tensos na Lafayette Square.
A existência de tais ameaças permite que Trump invoque a segurança nacional para obter o que deseja agora, mesmo não tendo utilizado esse argumento até que os planos para seu salão de baile e seu arco já estivessem bastante avançados.
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