Após ser alvo de uma operação do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), o desembargador Newton Ramos, do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região), disse nesta quinta-feira (24), estar à disposição conselho para prestar todos os esclarecimentos necessários e sanar eventuais dúvidas sobre os casos em análise.
A operação no gabinete do desembargador partiu do corregedor nacional de Justiça, Benedito Gonçalves, e foi cumprida pela PF (Polícia Federal).
Em nota, Ramos disse ter sido alvo de uma correição extraordinária, um procedimento de fiscalização e auditoria.
“O Desembargador Newton Ramos esclarece que a Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça realizou uma correição extraordinária em seu gabinete com o objetivo de levantar informações em processos que envolvem o setor sucroalcooleiro. O magistrado ressalta que permanece no pleno exercício de sua jurisdição, atuando e julgando normalmente os demais processos sob sua responsabilidade”, afirmou.
“O Desembargador confia no trabalho desempenhado pela Corregedoria do CNJ, o qual considera natural e regular. Por fim, reafirma que está à inteira disposição do órgão para prestar todos os esclarecimentos necessários e sanar eventuais dúvidas sobre os casos em análise”, complementou o magistrado em nota.
De acordo com mensagens extraídas pela PF do celular de Daniel Vorcaro, Ramos é identificado como integrante da chamada “Turma do KN”, em referência ao ministro Kassio Nunes Marques, do STF (Supremo Tribunal Federal).
A operação decorre dos desdobramentos do caso Banco Master, em que mensagens do celular do ex-banqueiro revelam um contrato de advocacia de R$ 427 milhões com os investigados.
Newton Ramos faz parte do TRF-1 desde 2023 e integrava o círculo social do ministro do Supremo ao atuar como juiz auxiliar de Kassio Nunes enquanto o magistrado ocupava a cadeira de vice-presidente do tribunal. A rede de amizade também envolve a esposa de Newton, Camilla Ramos, sócia de um escritório de advocacia.
Entenda o caso
O repasse por parte de Vorcaro teria sido feito em caso de resultados favoráveis em ações de interesse do Banco Master em tribunais superiores que poderiam liberar R$ 8,5 bilhões em precatórios.
O contrato com a “Turma do KN” foi acordado com o escritório de advocacia de Camila (Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia) para serviços em que o Master era parte contra a União em 12 ações relacionadas ao setor sucroalcooleiro.
O documento, obtido pela CNN, prevê honorários de 5% líquidos sobre o valor recebido pelo banco nos processos. No total, os honorários chegariam a R$ 427 milhões em caso de vitória das causas. Os repasses deveriam ser feitos em até cinco dias após a obtenção dos ganhos.
Em uma mensagem de junho de 2025, Camila comemora uma “vitória” em ação que estava em análise na Segunda Turma do STF. “Um excelente voto do Min. Nunes Marques fazendo a distinção dos casos em que o título judicial trouxe os critérios da indenização”, disse para Vorcaro.
Relação com Vorcaro
Pelas mensagens, Newton Ramos atuava como intermediário de pedidos de Nunes Marques junto a Vorcaro. As negociações incluíam hospedagens no hotel Fasano, entradas em camarotes e, como a CNN mostrou, o aluguel de uma casa durante o Carnaval de 2025.
Parte das tratativas era negociada por Leonado Serrano Giunchetti, que assessorava Vorcaro. Em diferentes conversas, Giunchetti citou pedidos para possíveis reservas no hotel Fasano.
Em mensagens trocadas em fevereiro de 2025, Giunchetti questiona Vorcaro sobre ingressos em um camarote. “Dani, turma do KN/Newton me mandou aqui 6 nomes para colocar na lista do Camarote… posso encaminhar isso lá pra lista do Camarote, né?”
Conforme a CNN mostrou, outras mensagens obtidas no celular Vorcaro também revelaram diálogos sobre pagamentos que seriam destinados a Kevin Marques, filho do ministro do STF. O magistrado negou que seu filho tenha prestado serviços ao Master.
Em nota, Newton diz que mantinha uma relação pessoal com Vorcaro antes dos fatos objeto de investigação.
“Em razão da participação societária na empresa Prime You, o empresário foi consultado sobre a disponibilidade de imóveis e transportes. Tratou-se de situação privada articulada com a profissional que presta serviços para o referido banco, sem qualquer vínculo com funções públicas. Por fim, nunca julguei qualquer causa de interesse do Banco Master”, afirmou.
O que diz Kassio Nunes Marques
À CNN, o ministro Kassio Nunes Marques classificou a divulgação das mensagens como uma tentativa de criar narrativa para incriminá-lo. O ministro cita ameaças ao posto que ocupa atualmente como presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Segundo ele, o processo que julgou no STF não tem relação com ações sobre precatórios defendidos pela advogada Camila, que estavam em tramitação no Superior Tribunal de Justiça, possivelmente tratadas nas mensagens; e acusa uma tentativa de ligar processos que não são correlatos para atingi-lo.
Nunes Marques afirmou ainda que nunca autorizou ninguém a falar em nome dele, e que também em nenhum momento conversou ou trocou mensagens com Daniel Vorcaro. Ele ainda disse que nunca votou a favor de Vorcaro ou do Master.
Na última semana, Kassio Nunes Marques se declarou impedido no julgamento sobre menções de Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes. “Esse julgamento pode também impactar no cenário político-eleitoral, então na condição de presidente do TSE eu não me sinto confortável para participar deste julgamento e afirmo o meu impedimento”, disse.

