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Leitura sobre atividade econômica do Brasil é de acomodação, diz professor

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Leitura sobre atividade econômica do Brasil é de acomodação, diz professor

O governo federal reduziu para 2% a projeção de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em 2026, conforme dados do Boletim Macrofiscal divulgado pelo Ministério da Fazenda.

Em entrevista ao CNN Money, Cristiano Corrêa, professor de Finanças do Ibmec-SP, avaliou que os dados indicam uma acomodação da atividade econômica brasileira.

Corrêa explicou que a aparente contradição entre a revisão do governo e a projeção da OCDE (Organização para o Crescimento e Desenvolvimento Econômico) — que apontou crescimento maior — tem uma explicação técnica.

“Essa leitura que aparentemente parece ser contraditória, na verdade, ela é uma leitura de acomodação”, afirmou. Segundo ele, o relatório do governo tem um corte referente ao início de setembro, quando as condições econômicas eram diferentes das atuais, o que justifica parte das divergências entre as projeções.

Consumo das famílias como fator limitante

O especialista destacou que o crescimento do PIB ainda depende fortemente do consumo das famílias. Contudo, o indicador tem perdido força.

“Boa parte dos gastos da família hoje são feitos com pagamento de juros, com pagamento de despesas financeiras e, obviamente, acaba não sobrando dinheiro de forma geral para acelerar de alguma forma esse PIB”, explicou Corrêa.

O aumento do endividamento e da inadimplência foram apontados como fatores que travam o consumo, mesmo em um cenário de desemprego baixo.

Corrêa ressaltou ainda que desemprego baixo não se traduz automaticamente em maior renda disponível. “Eu posso ter um baixo desemprego, mas a renda insuficiente para esse eventual aumento”, disse.

Ele também chamou atenção para o fato de que o crescimento do PIB está “menos disseminado”, pois setores como agropecuária avançam enquanto serviços e indústria são revisados para baixo — serviços de 2,4% para 1,8% e indústria de 2,1% para 1,7%.

Divergência entre governo e mercado

Para 2026, enquanto a Fazenda projeta crescimento de 2%, o mercado financeiro, segundo o Boletim Focus, já trabalha com estimativa próxima de 1,88%.

A diferença se amplia para 2027: a Fazenda estima 2,3%, ao passo que o mercado projeta um valor significativamente menor.

“O governo ainda me parece otimista em relação a 2027 e essa divergência fica bem clara”, afirmou Corrêa.

O especialista ponderou que o otimismo do governo para o próximo ano se baseia na expectativa de que o ciclo de redução de juros produzirá efeitos sobre o crédito, o consumo e os investimentos. No entanto, Corrêa alertou que esses ciclos são lentos e seus efeitos não são imediatos.

“Olhar para 2027 e achar que a gente vai ter um efeito muito mais rápido, principalmente no passo em que o Banco Central está indo, eu acho que talvez seja um pouco otimista demais”, concluiu.

Desafios fiscais e inflacionários

Corrêa apontou que o cenário exige a articulação entre política monetária, fiscal e choques de oferta. Ele destacou que pressões sobre alimentos e petróleo, somadas à incerteza fiscal, compõem um quadro desafiador.

Segundo ele, o próprio boletim indica um impulso estrutural de gasto de quase 0,8% do PIB em 2026, sustentando a atividade pelo gasto federal e não pelo consumo das famílias.

O especialista avaliou que a redução da inflação está ocorrendo de forma muito lenta e que o país ainda se encontra acima da meta estabelecida.

“O ritmo em que isso acontece é muito lento e, obviamente, depende muito da nossa previsibilidade fiscal e das condições que favoreçam essa produtividade e esse investimento”, disse Corrêa.

Ele reconheceu o papel do Banco Central em ser cauteloso para evitar um efeito inflacionário contrário ao esperado pela política fiscal.

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