A inteligência artificial começa a deixar a fase dos testes para entrar nas operações das empresas. Na quarta edição do Comex Tech Forum (CTF), essa mudança apareceu acompanhada de uma questão mais complexa: como transformar a tecnologia em resultado sem perder de vista custos, produtividade e preparação das equipes.
Promovido pela Logcomex em 2 de setembro, no Transamerica Expo Center, em São Paulo, o encontro levou a discussão para situações que já fazem parte da rotina corporativa. Definir onde a IA pode trazer ganhos, avaliar o investimento, organizar processos e preparar profissionais para trabalhar com novos recursos estiveram entre os desafios abordados.
“O nível das pessoas que vêm ao evento subiu muito. As empresas estão nessa transição para entender como colocar a IA de fato em suas operações, e existe uma curva de maturidade acontecendo”, afirma Helmuth Hofstatter, fundador e CEO da Logcomex. Segundo ele, o CTF buscou combinar usos atuais da inteligência artificial com questões que devem ganhar importância nos próximos anos.
Resultado vem antes da ferramenta
À medida que recursos semelhantes ficam disponíveis para diferentes empresas, o acesso à inteligência artificial, sozinho, tende a perder força como diferencial. O desafio passa a ser identificar os usos capazes de melhorar processos ou criar oportunidades de negócio.
Rafael Milagre, fundador do Viver de IA, defendeu no CTF que a adoção da tecnologia esteja associada a objetivos como aumentar receitas e reduzir custos. Para ele, a maior disponibilidade dessas ferramentas também permite que empresas menores desenvolvam soluções antes restritas a companhias com maior capacidade de investimento.
Alfredo Soares, cofundador da G4 Educação e sócio da VTEX, chamou atenção para outro aspecto. Se o acesso tende a se ampliar, a diferença estará na capacidade de cada empresa de criar contexto, alimentar os sistemas com informações relevantes e usar esses recursos de acordo com as necessidades do negócio.
“A vantagem não é usar. A vantagem é o que você faz com ela”, afirmou.
A escolha também passa pelo custo. Diferentemente de um software tradicional, a IA pode gerar despesas crescentes conforme aumentam o uso e a complexidade. Isso exige avaliar o retorno e concentrar investimentos onde houver benefício para o negócio.
Produtividade faz parte dessa conta. Automatizar uma atividade pode reduzir tarefas manuais ou liberar profissionais para funções de maior valor, mas o ganho depende de como o recurso é incorporado aos processos.
Pessoas fazem parte da mudança
A adoção da IA exige ainda que os profissionais acompanhem recursos que evoluem rapidamente. A capacitação, porém, não se resume ao domínio de uma ferramenta específica.
Dafna Blaschkauer, executiva global com passagens por Nike, Apple e Microsoft, abordou competências como aprender, rever conhecimentos, perseverar e transformar aprendizado em ação. Para ela, a velocidade das mudanças não elimina a curva de aprendizado.
“Está todo mundo aprendendo. Não existe hoje alguém que conheça exatamente todas as ferramentas. Mas o mais importante é colocar em prática aquilo que estamos aprendendo. A gente aprende fazendo e executando, porque é ali que se entende o que funciona, o que precisa ser ajustado e, principalmente, o que dá certo para o seu negócio”, afirmou.
O iFood levou ao encontro um exemplo de como esse aprendizado pode chegar às equipes. Segundo Camila Pinto, diretora de RH da companhia, cerca de 8 mil colaboradores tiveram acesso à ferramenta proprietária de IA, além de workshops e espaços de experimentação. Em seis meses, os profissionais criaram aproximadamente 12 mil agentes.
“A IA vem para potencializar a nossa capacidade e as nossas competências humanas”, afirma Camila. Segundo ela, ao assumir tarefas repetitivas e operacionais, a tecnologia pode liberar tempo para criatividade, colaboração, inovação e pensamento crítico.
A experiência do iFood traz ainda a cultura organizacional para a discussão. Para que as equipes testem novas possibilidades e incorporem aquelas que funcionam, as lideranças precisam participar desse processo. “Não existe cultura sem liderança e não existe liderança sem fazer a cultura acontecer. As organizações precisam fomentar uma cultura de experimentação e inovação que traga toda a organização junto”, diz Camila.
Da empresa à cadeia logística
No comércio exterior, a busca por eficiência alcança diferentes pontos de uma cadeia que reúne empresas, portos, aeroportos e operadores logísticos.
Inteligência artificial aplicada à logística e ao comércio, capacidade da infraestrutura e eficiência operacional estiveram entre os recortes do CTF. Lars Karlsson, diretor global de Consultoria Comercial e Aduaneira da Maersk, discutiu o uso da IA no setor, enquanto executivos ligados a portos e aeroportos compartilharam experiências sobre os desafios de acompanhar o crescimento das operações.
Essa discussão acompanha uma transformação da própria organizadora do evento. No ano em que completou uma década, a Logcomex adotou o posicionamento AI-First, colocando a inteligência artificial no centro de sua estratégia e do desenvolvimento de soluções para o comércio exterior.
A empresa nasceu voltada aos desafios de importadores, exportadores, indústrias, tradings, operadores logísticos e outros participantes da cadeia. Hoje, mais de 30% das operações brasileiras de importação ou exportação têm pelo menos um cliente da Logcomex envolvido. Desde 2025, seus clientes representam aproximadamente 26% do valor importado pelo Brasil, o equivalente a cerca de um em cada quatro dólares importados pelo país.
O conhecimento acumulado sobre o setor serve de base para aplicar a IA a problemas específicos do comércio exterior. A estratégia AI-First da Logcomex se conecta, assim, a uma das questões centrais do CTF: encontrar usos capazes de responder a necessidades concretas das empresas.
CTF amplia alcance em sua quarta edição
O Comex Tech Forum 2026 reuniu mais de 4 mil participantes e foi a maior edição realizada desde a criação do encontro, em 2023. Executivos e especialistas de grandes companhias, entre elas iFood, Volkswagen e Bradesco, estiveram entre os participantes.
A estrutura também cresceu, assim como a presença de patrocinadores e expositores e os espaços destinados a networking. Conteúdos simultâneos ocuparam diferentes palcos, enquanto o principal adotou formato de arena, aproximando convidados e público.
O networking, um dos pilares do CTF, levou as discussões dos palcos para as conversas entre executivos, especialistas e profissionais do setor. A dimensão alcançada pelo encontro acompanhou uma pauta que ganhou novos contornos nesta edição: custos, retorno, qualificação profissional, liderança e eficiência dividiram espaço com o desenvolvimento da própria tecnologia.
O próximo Comex Tech Forum já tem data marcada. A edição de 2027 será realizada em 1º de setembro, novamente no Transamerica Expo Center, em São Paulo.
“A cada ano, queremos reunir as discussões que realmente importam para o mercado e fazer com que quem participe saia daqui mais preparado para o que vem pela frente”, afirma Hofstatter.
