A imagem de Eloína dos Leopardos coroando Anitta como rainha de bateria da escola de samba Acadêmicos do Grande Rio no último domingo (20) ganhou grande repercussão nas redes sociais.
Por trás do encontro está Nídia Aranha, que assinou a direção artística da performance apresentada durante a final de samba-enredo da agremiação de Caxias para o Carnaval de 2027.
Em 1976, a convite de Joãosinho Trinta, renomado carnavalesco da Beija-Flor de Nilópolis, Eloína inaugurou o tão cobiçado posto de rainha de bateria na azul e branco. 50 anos depois, ela retornou à folia carioca, desta vez para coroar Anitta, sob a representação de uma Pombagira, acompanhada por Exus que conduziram a coroa até a sua majestade.
A construção dialogou com o enredo da escola, que promete contar a trajetória de africanos escravizados que, após a liberdade, retornaram ao continente africano a partir do título batizado de “Sankofa Tabon – Os Retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da Liberdade”.
O projeto também dá continuidade ao universo que Nídia vem desenvolvendo ao lado de Anitta em “EQUILIBRIVM”. Para Aranha, artista travesti, nascida na Baixada Fluminense, a escolha de Eloína atravessa sua própria trajetória.
“Existe uma dimensão muito íntima em reverenciar uma artista travesti que abriu caminhos décadas antes para que hoje outras travestis possam ocupar posições de criação, arte e poder dentro da cultura brasileira”, disse em comunicado enviado à CNN Brasil.
Ao longo da concepção, Anitta foi apresentada como um encontro de diferentes matrizes brasileiras: a fé católica herdada pela mãe paraibana, Miriam; a ancestralidade do pai, Mauro, iniciado no candomblé e filho de Xangô; Honório Gurgel, o funk, o samba e sua relação com Logunedé.
Já para materializar essa dramaturgia, Nídia reuniu colaboradores que já integram seu universo criativo. Labô Young desenvolveu elementos cenográficos e estruturas em serralheria e folhas, enquanto Tainara Cerqueira assinou a direção de movimento a partir de pesquisas em danças afro-brasileiras.
A presença de Eloína também conecta a coroação à pesquisa de Nídia sobre tecnologia travesti: reconhecer quem veio antes não apenas como figura de resistência, mas como produtora de linguagem, epistemologia e cultura.
As duas, inclusive, já haviam dividido a Avenida em 2025, no desfile do Paraíso do Tuiuti, que levou para a Sapucaí o enredo “Quem Tem Medo de Xica Manicongo?”, dedicado àquela que é considerada a primeira travesti não indígena do Brasil.
Ao colocar a primeira rainha de bateria diante de uma nova rainha, sob a guarda de Exu, Nídia buscou transformar a coroação em um ritual de continuidade histórica.
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