A meio mundo de distância e longe das atenções cotidianas, a economia japonesa reverbera nos mercados globais e pode pressionar decisões de investimentos em torno de títulos públicos – inclusive daqui do Brasil.
Na sexta-feira (18), o BoJ (Banco do Japão) subiu sua taxa de juros em 0,25 ponto percentual, para o patamar de 1,25% ao ano – o mais elevado em 31 anos.
O mercado já via a decisão como consenso. Mas isso não impede que a tendência de alta de juros na “Terra do Sol Nascente” mexa com o comportamento dos investidores.
“O Japão é o maior detentor estrangeiro de títulos do Tesouro americano. Por décadas, com juro zero em casa, o investidor japonês não tinha alternativa senão comprar lá fora. Isso acabou”, enfatiza Gianluca Rosales, sócio e gestor de mercados globais da 3V Capital.
“O título japonês de 10 anos paga 2,91%, o maior nível desde 1996, e a distância entre a taxa básica dos dois países caiu de 4,25 pontos no fim de 2024 para 2,75”, explica.
Como a alta de juros pelo mundo atinge o Brasil?
Apesar de inserido em uma economia com condições muito específicas, o Banco Central do Japão participa de uma tendência mais ampla entre os países mais ricos. Nos Estados Unidos, os dirigentes do Federal Reserve aprovaram nesta semana a primeira alta de juros em três anos. Enquanto isso, na Zona do Euro, o BCE (Banco Central Europeu) também voltou a subir sua taxa básica em setembro, com as incertezas sobre o Oriente Médio no radar.
O aperto monetário atinge autoridades monetárias amplamente integradas à economia global; e agrava um cenário já deteriorado para a dinâmica dos títulos do Tesouro no Brasil.
O aumento dos juros fora do país diminui a atratividade dos papéis brasileiros, tidos como mais arriscados pelo investidor internacional. Assim, o Tesouro é pressionado a aumentar os prêmios para atrair credores.
Esse movimento acontece ao mesmo tempo em que o BC (Banco Central) cortou a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, diminuindo o diferencial de juros entre o Brasil e as economias avançadas – ainda que o Brasil siga como o campeão mundial na taxa real de juros, segundo levantamento da MoneYou em parceria com a Lev Intelligence.
Combinados, esses movimentos podem levar a uma queda no valor do real, depreciando o câmbio brasileiro frente ao dólar.
“A redução do diferencial de juros aumenta a incerteza a respeito dos fluxos de investimento, potencializando uma pressão de desvalorização da nossa moeda”, afirma Marilia Fontes, sócia-fundadora da Nord Investimentos.
Depreciação do iene e títulos dos EUA
A derrocada no preço do iene, que acumula baixa de quase 1% ante o dólar no acumulado do ano até o momento, é um dos fatores de risco para alta da inflação no radar do BoJ.
A tensão não é sentida apenas no país insular, mas também do outro lado do Pacífico: o Japão é um grande detentor de títulos do Tesouro dos Estados Unidos – os Treasuries –, e mercados desordenados de iene podem desencadear liquidações forçadas, o que pode desestabilizar os mercados globais.
“Iene fraco força o Japão a intervir, e o Japão financia intervenção vendendo ativos em dólar, ou seja, Treasuries“, explica Gianluca Rosales.
E com o juro mais alto na terra natal, o investidor já tem se realocado: os japoneses venderam líquido 2,6 trilhões de ienes em títulos estrangeiros de longo prazo até setembro, depois de comprarem 11,3 trilhões de ienes no mesmo período de 2025.
“Se isso virar venda relevante de Treasuries, empurra o juro americano para cima justamente quando ele já ronda 5%”, pontua o sócio da 3V Capital.
A divisa acumula baixa de quase 1% neste ano até o momento, e as perdas só não foram maiores por conta de intervenção ativa dos EUA na economia japonesa. O governo Donald Trump foi o primeiro em mais de uma década a comprar ienes, segundo o presidente norte-americano em “um sinal de amizade”.
O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, que tem tentado de tudo para manter os juros futuros do país sob controle, defendeu a participação da pasta, em conjunto com o Japão, para sustentar o iene a um custo “modesto”, argumentando que isso é benéfico para os exportadores norte-americanos e para as taxas dos títulos.
A fraqueza da moeda japonesa é uma dinâmica que também pressiona o Brasil.
Como a venda de Treasuries pelos japoneses cria uma pressão altista nos juros dos títulos norte-americanos, os investidores tendem a deixar mercados emergentes – como o Brasil – uma vez que financiar a dívida dos EUA é um movimento visto como “livre de risco” pelo mercado.
“Essa venda de Treasuries de longo prazo pelo Japão deixa o juro de longo prazo americano mais alto e, consequentemente, a nossa taxa de juro de longo prazo fica mais alta também”, conclui Marilia Fontes.
Perspectivas
Apesar de precificar a alta de juros, o mercado foi pego de surpresa por um detalhe na decisão de juros do Japão: dois membros da alta cúpula do BoJ votaram a favor de manter as taxas como estavam.
O comunicado do BC japonês trouxe sinais de que a alta deve continuar, mas a dissidência deixou dúvidas sobre a magnitude e extensão desse ciclo.
“A decisão foi considerada menos agressiva que o esperado, já que duas pessoas votaram para que as taxas permanecessem inalteradas e o presidente do BoJ evitou dar dicas sobre timing e o ritmo de novos aumentos, deixando o futur totalmente dependentes do crescimento, dos preços e das condições financeiras, reafirmando apenas a direção, enquanto era esperado um possível sinal de aceleração das altas de juros”, observa Andressa Durão, economista do ASA.
A divisão inesperada levou o iene a depreciar na sequência do anúncio da decisão.
O Japão vinha de um cenário de juros negativos, e apesar de a inflação dar sinais de controle, a alta das taxas é condicionada a uma perspectiva de normalização da economia do país asitático.
Vale destacar que, mesmo com a taxa básica agora em 1,25%, a inflação perto de 2% faz com o juro real do país siga negativo. A leitura do BoJ é de que política de emergência não combina mais com uma economia sem emergência.
Porém, os dois votos contrários mostram que a leitura não é consensual: com o núcleo abaixo da meta há sete meses, subir juro é apertar uma economia que já está desacelerando a inflação sozinha.
“Quem decide repatriar dinheiro não olha o juro de hoje, olha para onde ele vai nos próximos dois anos. Uma diretoria dividida sinaliza ciclo mais lento e teto mais baixo, o que adia a repatriação em vez de acelerá-la. Soa contraintuitivo, mas a alta de hoje é menos ameaçadora para o Tesouro americano do que seria a mesma alta decidida por unanimidade”, pondera Gianluca.
“A margem dessa operação ficou fina [com a diminuição do diferencial de juros e endurecimento das taxas no Japão], e posição fina se desmonta rápido. Com o ritmo do ciclo em dúvida, ela sobrevive por mais tempo”, finaliza.
Juros altos são uma das principais causas de inadimplência no Brasil

