Atuando como um dos principais corredores entre as áreas produtoras de cocaína da Colômbia, do Peru e da Bolívia, a Amazônia virou a verdadeira “rota do tráfico” entre as facções criminosas no Brasil. O PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho), consideradas as duas maiores potencias do crime organizado, transformaram o local em grandes fluxos transnacionais.
Um relatório elaborado por Gabriel Funari, da Global Initiative, e divulgado no início deste mês de setembro, aponta que a Amazônia está se tornando uma importante conexão entre as regiões produtoras da América Latina e os mercados europeus.
Cada vez mais mais diversificado, o tráfico regional de cocaína vêm redirecionando carregamentos da droga para o estado brasileiro do Amapá e para a Guiana Francesa, de onde são exportados para a Europa em vez de seguir a rota tradicional pelo curso do rio Amazonas.
De acordo com o levantamento, o principal método de tráfico de cocaína do bioma brasileiro para a Europa consiste em ocultar carregamentos em embarcações pesqueiras capazes de navegar tanto pelos sistemas fluviais amazônicos quanto em águas internacionais.
A “rota do tráfico”
Segundo o relatório, os fluxos de cocaína estão sendo redirecionados pela Amazônia, com o Amapá emergindo como um importante polo de exportação ao lado das rotas consolidadas por Belém. Mas, antes de entender como o processo se expandiu, é importante lembrar como a Amazônia virou alvo das organizações.
A bacia amazônica possui uma vasta rede fluvial que conecta produtores andinos a portos globais. Diante disso, as facções enxergaram o local como um pilar estratégico para o tráfico transnacional de drogas.
Historicamente, essa dinâmica começou com os cartéis de Medellín e Cali, que estabeleceram a “rota do Solimões” –– hoje sob controle do Comando Vermelho –– para exportar cocaína via Manaus e Belém. A rota abrange a região de Tabatinga na tríplice fronteira com Peru e Colômbia e tornou-se um ponto estratégico para o crime organizado.
Com a queda desses cartéis, as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o Comando Vermelho formaram alianças táticas, trocando armamentos por entorpecentes e consolidando o domínio do crime organizado.
Atualmente, a Amazônia serve tanto como corredor para o mercado internacional quanto para o consumo interno brasileiro. Segundo o relatório, a droga produzida na Colômbia e no Peru é transportada principalmente por rios até Manaus, em pequenas embarcações pesqueiras.
A cidade funciona como um entreposto logístico, de onde as cargas são distribuídas para o Sudeste ou seguem em embarcações maiores até Belém, de onde são exportadas pelo Atlântico para mercados internacionais. Uma parcela menor chega à região de Manaus por aviões de pequeno porte.
Veja a rota

Funari aponta que a geografia desafiadora e a fiscalização precária, limitada por custos elevados e corrupção, são agentes facilitadores para a prática de atividades ilícitas na região.
Metódos inovadores
O relatório mostra que os traficantes também estão diversificando seus métodos, que seguem cada vez mais inovadores. Através da utilização de embarcações pesqueiras, submersíveis, lanchas blindadas, contêineres, pequenos aviões e pistas clandestinas de pouso, os grupos permancem em uma gradual expansão.
No Amapá, os chamados “narco-mergulhadores” tornaram-se recursos valiosos nas operações de exportação de cocaína no estado. Segundo a Global Initiative, os criminos aproveitam-se dos longos períodos de espera dos navios transatlânticos ancorados perto dos portos de Macapá e Santana.
Os “narco-mergulhadores”, muitas vezes ex-mergulhadores da Marinha ou bombeiros treinados trazidos de avião de São Paulo ou Rio de Janeiro, trabalham à noite em condições perigosas nas águas profundas do rio para fixar cargas de cocaína nos compartimentos de carga dos navios. O método é chamado de “rip-on”.
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Para além do tráfico de drogas
A expansão do tráfico de cocaína está cada vez mais associada a outras atividades e economias ilícitas, como a mineração ilegal de ouro. Segundo Funari, organizações criminosas reinvestem os lucros do tráfico no setor aurífero e utilizam a infraestrutura e as redes do garimpo para apoiar suas operações.
O relatório aponta que, na Amazônia, grande parte do ouro é extraída ilegalmente desde a origem. As áreas de exploração costumam estar em terras indígenas ou unidades de conservação, onde a mineração é proibida. Ainda assim, o ouro consegue ingressar nos fluxos do mercado legal por meio de brechas na regulamentação do licenciamento.
Os investimentos no setor permitem que grupos criminosos ocultem recursos obtidos com o tráfico por meio da extração e comercialização de uma commodity cada vez mais valorizada. Além disso, o especlista afirma que a atuação na cadeia do ouro também facilita a logística do tráfico.
Redes de pequenos aviões, pistas clandestinas e agentes públicos corrompidos, construídas ou exploradas por garimpeiros ilegais ao longo de décadas, facilitam a prática para os criminosos.
Com a cotação do ouro atingindo US$ 5,5 mil por onça em janeiro de 2026, o relatório aponta a possibilidade de intensificação das conexões entre o tráfico de drogas e a mineração ilegal, ampliando a convergência entre o crime organizado transnacional e os fluxos de mercadorias ilícitas na Amazônia.

