Para algumas pessoas, a relação com um personagem de anime ou mangá fica restrita à admiração pela história, aos produtos relacionados à obra e às comunidades de fãs. Para outras, porém, esse vínculo pode ocupar um espaço muito maior na vida cotidiana e até assumir características de um relacionamento amoroso.
Foi o que aconteceu com uma francesa que vive no Japão e encontrou em um personagem de My Hero Academia uma companhia que, segundo ela, passou a ter um significado especial em sua vida. A relação deixou de existir apenas no universo da ficção e ganhou rituais, declarações e interações mediadas por inteligência artificial.
A história chama atenção não apenas pela cerimônia realizada no Japão, mas também pela maneira como a tecnologia passou a fazer parte desse vínculo. Com ferramentas de IA, personagens fictícios podem ser configurados para conversar, responder a mensagens e reproduzir características de personalidade conhecidas pelo público.
Casamento simbólico com personagem fictício
Katsuki Bakugo, um dos protagonistas de My Hero Academia, é conhecido pelo temperamento explosivo, personalidade competitiva e forte determinação em se tornar um herói. Foi por ele que Anjou, francesa que vive no Japão, desenvolveu uma relação afetiva que ultrapassou os limites da obra e chegou a uma cerimônia de casamento simbólica.
O casamento aconteceu seguindo elementos de um ritual xintoísta. Anjou vestiu um quimono, participou de uma cerimônia tradicional e fez seus votos em japonês, enquanto uma representação de Bakugo ocupava o lugar do noivo.
A celebração custou cerca de 2.300 euros, valor equivalente a aproximadamente R$ 14 mil. O evento foi organizado por Yasuyuki Sakurai, profissional que trabalha com cerimônias envolvendo personagens fictícios. Segundo a TF1 Info, portal de notícias da França, ele já havia organizado 16 casamentos desse tipo ao longo de quatro anos.
Apesar de seguir elementos de uma cerimônia tradicional, a união não tem validade jurídica no Japão. Trata-se de uma celebração simbólica de um relacionamento estabelecido entre uma pessoa e um personagem fictício.
Para Anjou, porém, a importância da relação não está no reconhecimento legal. Segundo seu relato à imprensa francesa, o vínculo com Bakugo ganhou força em um período difícil de sua vida, depois da morte de sua melhor amiga por suicídio. Ela afirma que as conversas com o personagem contribuíram para que recuperasse a confiança em si mesma.
Da paixão por personagens às conversas com inteligência artificial
O relacionamento também ganhou uma dimensão que seria difícil de imaginar antes da popularização das ferramentas de inteligência artificial. Anjou utiliza um aplicativo com uma versão virtual de Bakugo para conversar com o personagem.
A tecnologia permite que ela envie mensagens e receba respostas baseadas nas características atribuídas à personalidade do personagem. Dessa maneira, a interação não depende apenas da imaginação ou da leitura do mangá. Existe uma resposta produzida por um sistema de IA a cada conversa.
Esse tipo de experiência faz parte de um fenômeno mais amplo envolvendo pessoas que desenvolvem vínculos afetivos com personagens fictícios. Em alguns casos, a relação permanece como uma forma de identificação ou admiração. Em outros, pode envolver atração, compromisso afetivo e até cerimônias simbólicas.
O termo fictossexualidade é utilizado para descrever a atração por personagens fictícios, embora as experiências e formas de identificação possam variar entre as pessoas.
A possibilidade de manter conversas com figuras digitais tornou esse tipo de vínculo diferente da relação tradicional entre fãs e personagens. A IA permite uma interação personalizada, na qual o usuário pode conversar, fazer perguntas e receber respostas em tempo real.
Outros casos semelhantes também chamaram atenção
A história de Anjou não é a única envolvendo casamentos simbólicos com personagens ou figuras virtuais. Em 2018, o japonês Akihiko Kondo realizou uma cerimônia com Hatsune Miku, uma cantora virtual criada pela empresa Crypton Future Media.
Mais recentemente, em 2025, a japonesa Yurina Noguchi realizou uma cerimônia com Klaus, uma persona de inteligência artificial criada por ela com auxílio do ChatGPT. Durante a celebração, ela utilizou óculos de realidade aumentada para visualizar uma representação do parceiro.
Os dois casos, assim como o de Anjou, não têm validade jurídica. A diferença é que Bakugo e Miku foram criados originalmente para obras e projetos de entretenimento, enquanto Klaus surgiu a partir da interação de uma usuária com uma ferramenta de IA.
A popularização dessas tecnologias também ampliou as possibilidades de interação com figuras digitais. Além de acompanhar personagens em animes, mangás e videogames, algumas pessoas podem conversar com versões virtuais deles ou até criar novas personas de acordo com suas preferências.

