Últimas

Gasmig 40 anos: o que um aterro sanitário ensina sobre desenho de mercado

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)

O Brasil sempre tratou resíduo como passivo. Em 1986, a Gasmig nasceu apostando o contrário: o passivo podia virar insumo. Recursos energéticos, porém, só geram valor quando existe uma arquitetura capaz de conectá-los ao mercado. 

Naquele ano, um termo de cooperação celebrado entre o Estado de Minas Gerais, a Prefeitura de Belo Horizonte, a Cemig e a SLU deu origem a uma companhia de gás cujo primeiro insumo não era uma molécula importada nem um campo offshore. Era o biogás do aterro sanitário de Belo Horizonte, capturado, tratado e distribuído para clientes comerciais, taxistas e a frota da própria Cemig. A empresa formou ali os primeiros técnicos gasistas do estado. Quatro décadas depois, essa origem deixou de ser curiosidade histórica e virou a chave para entender o movimento mais relevante da companhia hoje. 

A infraestrutura veio antes do recurso energético

A trajetória energética brasileira tem um padrão que costuma passar despercebido: o país prospera quando desenha a arquitetura antes de celebrar o ativo. 

Nos anos 1970, o recurso hidrelétrico era abundante, mas disperso e distante dos centros de carga. O que o viabilizou não foram as usinas em si, e sim o sistema de transmissão de porte continental que permitiu explorar a complementaridade hidrológica entre bacias. Essa mesma malha, décadas depois, integrou solar, eólica e biomassa onde quer que o recurso se apresentasse. No mesmo período, o Proálcool respondeu aos choques do petróleo não com um combustível, mas com um sistema: cadeia agroindustrial, logística, regulação e, com a escala brasileira, o motor flex disseminado na frota leve. 

Em nenhum desses casos a riqueza estava no ativo isolado. Estava na arquitetura que conectou recurso, infraestrutura e demanda. 

Biometano: a molécula é trivial, o contrato não

O biometano é quimicamente idêntico ao gás natural fóssil. Entra na rede sem adaptação alguma. Do ponto de vista técnico, portanto, o problema está resolvido há anos. O que faltava era o desenho econômico. 

Os números mostram que ele começa a aparecer: 21 usinas já autorizadas pela ANP, outros 48 projetos em processo de autorização e um potencial adicional superior a 2 milhões de m³/dia. A Lei do Combustível do Futuro e o CGOB, o certificado de garantia de origem, criaram a camada regulatória que transforma atributo ambiental em ativo negociável. Falta a peça que destrava o investimento: demanda firme e de longo prazo. 

É exatamente isso que a Gasmig acaba de construir. A maior chamada pública de sua história contrata até 250 mil m³/dia de biometano produzido em Minas Gerais, com contratos de 10 anos e investimentos da ordem de R$ 1 bilhão em aproximadamente 400 km de gasodutos no Triângulo Mineiro. 

Vale entender o mecanismo. Uma usina de biometano não se financia com promessa de mercado spot. Ela se financia com três elementos combinados: contrato de longo prazo, contraparte crível e conexão física garantida à rede. A chamada pública da Gasmig inverte a sequência tradicional. Em vez de esperar a oferta surgir para depois contratá-la, a distribuidora cria simultaneamente a demanda firme e a infraestrutura necessária para viabilizá-la.

Ao se comprometer com contratos de 10 anos e com aproximadamente 400 km de gasodutos no Triângulo Mineiro, a Gasmig não apenas assegura a compra do biometano, mas também viabiliza a entrega até o consumo. O contrato de longo prazo e a extensão da infraestrutura não são detalhes acessórios. São os dois pilares que transformam um projeto de papel em ativo financiável. Isso é desenho de mercado, não compra de gás. 

Em setores intensivos em capital, o problema central não é tecnológico. É a coordenação entre oferta, demanda e infraestrutura. Quando essa coordenação falha, investimentos economicamente eficientes deixam de ocorrer mesmo diante da existência do recurso energético. 

 O que se compra junto com a molécula

O biometano do Triângulo Mineiro não é apenas um substituto químico do gás fóssil. É suprimento produzido no estado, com contrato de longo prazo e conexão à rede — o que reduz exposição a GNL spot, a rotas de importação e a choques cambiais e geopolíticos. 

Os mesmos dutos que escoam o gás renovável levam gás canalizado a regiões agroindustriais hoje desatendidas. Ampliam mercado, aproximam produção e consumo e diluem o custo fixo da malha à medida que o volume cresce. Ao mesmo tempo, o resíduo agroindustrial e de saneamento que hoje emite metano livremente passa a gerar receita local, imposto local e emprego local. Segurança de suprimento, interiorização e desenvolvimento regional caminham juntos. É essa combinação, e não a molécula isolada, que dá sentido ao desenho. 

O teste de verdade

O Brasil demonstrou, ao longo das últimas décadas, capacidade de desenhar mercados para elétrons. Transmissão integrada, leilões de energia nova, geração distribuída: cada expansão relevante da matriz elétrica foi precedida por uma arquitetura contratual e regulatória que tornou o investimento racional. 

A pergunta dos próximos dez anos é se sabemos fazer o mesmo para moléculas renováveis. A chamada pública da Gasmig é um dos primeiros testes em escala real: ao demonstrar que o modelo de demanda firme comprada pela distribuidora gera projetos bancáveis, com contratos de longo prazo e conexão garantida à rede, ele cria as condições para que outras concessionárias adotem a mesma lógica em diferentes regiões do país. O biometano deixará de ser um nicho e passará a ser a prova de que o Brasil também sabe desenhar mercados para moléculas renováveis. 

Há uma simetria que resume tudo. A Gasmig nasceu em 1986 transformando o passivo de um aterro em energia para taxistas de Belo Horizonte. Quarenta anos depois, aplica a mesma lógica em escala industrial. A molécula é a mesma. O que mudou, e o que sempre importou, é a capacidade de construir os desenhos, contratos e infraestruturas que transformam potencial em mercado. 

* Gustavo De Marchi é CEO da Gasmig, a Companhia de Gás de Minas Gerais*

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
Gasmig 40 anos: o que um aterro sanitário ensina sobre desenho de mercado — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado