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EUA queriam “dissidentes” em eleição no Brasil para negociar tarifaço

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
EUA queriam “dissidentes” em eleição no Brasil para negociar tarifaço

O governo brasileiro recebeu, em 16 de outubro do ano passado, uma proposta de negociação comercial dos Estados Unidos que envolvia pontos como garantia de participação de “dissidentes políticos” nas eleições de 2026, exigência de compra de aeronaves da Boeing por empresas aéreas brasileiras e direito de preferência na aquisição de jazidas de minerais críticos.

A proposta foi recebida pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, quando ele estava em Washington preparando-se para um encontro presencial com o secretário de Estado, Marco Rubio, e o chefe do USTR (Escritório ddo Representante Comercial da Casa Branca), Jamieson Greer.

Esse encontro era uma espécie de “quebra-gelo” entre altos funcionários dos dois países, na sequência do esbarrão entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, na Assembleia Geral da ONU.

O conteúdo da proposta foi revelado nesta quinta-feira (17) pelo “Estado de S. Paulo” e confirmado pela CNN.

O documento chegou às mãos do chanceler brasileiro por meio de seus auxiliares no Itamaraty, que recebeu o texto da área técnica do governo Trump.

Vieira, segundo fontes, informou o Palácio do Planalto sobre os pedidos e rejeitou os termos propostos pelos Estados Unidos. Na reunião com Rubio e Greer, conforme relatos feitos à CNN, esses pontos sequer foram tratados — e nem teriam voltado à mesa nas negociações conduzidas a partir dali.

Reservadamente, o Itamaraty trata os pedidos feitos inicialmente pela Casa Branca como “bullying diplomático” e enfatiza que aquela proposta “nasceu morta”, pois jamais esteve na lista efetiva de barganhas em reuniões oficiais.

Um dos pontos que teriam imediatamente rechaçados pelo Itamaraty à época foi a menção a “dissidentes políticos”, já que o termo não tem validade jurídica em uma democracia.

Da mesma forma, a exigência de compra de aviões da Boeing foi considerada uma tentativa de ingerência indevida em negócios privados e inviável de ser cumprida por meio de um acordo entre governos, porque as companhias aéreas no Brasil têm liberdade de escolha sobre seus fornecedores de jatos.

Outros pedidos americanos incluíam a adesão do Brasil ao “princípio da neutralidade competitiva” sobre o papel do Banco Central como regulador e supervisor dos meios de pagamento eletrônico, como o Pix.

O governo Trump também pediu a eliminação de tarifas de importação sobre etanol, produtos químicos, máquinas e equipamentos, veículos automotivos e bens de alta tecnologia fabricados nos Estados Unidos.

Queria, ainda, que o Brasil informasse previamente sobre possíveis transferências de controle de ativos na área de minerais críticos e proporcionasse às empresas americanas uma espécie de direito de preferência antes da venda para outros países.

A CNN procurou o Departamento de Estado e ainda não obteve uma resposta. O Itamaraty também foi acionado e não se pronunciou.

Na avaliação de negociadores brasileiros que acompanharam todas as tratativas com os Estados Unidos, a proposta enviada inicialmente traz vários dispositivos que se assemelham a acordos feitos pela gestão Trump com outros parceiros comerciais, algo como um “corta e cola” dos documentos.

Alguns diplomatas veem com preocupação o vazamento do conteúdo ao lembrar que o governo americano tem exigido confidencialidade das negociações e adotado postura agressiva contra países que divulgam extra-oficialmente parte das tratativas.

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