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Redata: país está pronto para transformar uma decisão política em vantagem

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)

A aprovação do Redata pelo Congresso Nacional representa mais do que uma mudança na política tributária. É uma sinalização política e econômica de que o Brasil reconhece a infraestrutura digital como parte estratégica de seu projeto de desenvolvimento. O texto segue agora para sanção presidencial e ainda dependerá de regulamentação por decreto e de convênio no Confaz para produzir efeitos plenos. 

Essa decisão tem potencial para produzir efeitos que vão muito além do setor de tecnologia. Ao criar condições mais competitivas para a instalação e expansão de data centers, o Redata pode reduzir barreiras para investimentos de grande porte, aumentar a atratividade do país diante de investidores internacionais e acelerar a construção da infraestrutura necessária para a próxima etapa da economia digital. A questão agora é transformar essa decisão política em negócios, investimentos e desenvolvimento. 

Não existe inteligência artificial em escala sem data centers, assim como não existem data centers de alta capacidade sem energia, conectividade, terrenos, mão de obra especializada, segurança jurídica e previsibilidade para investimentos de longo prazo. É nessa conexão entre política pública e infraestrutura que o Redata ganha relevância. 

Uma decisão política com impacto direto nos negócios 

Investimentos em data centers são projetos intensivos em capital, energia e infraestrutura. São decisões que precisam considerar o cenário atual e as condições que existirão durante décadas de operação. Por isso, qualquer fator que altere a equação econômica de um projeto pode influenciar diretamente a decisão de investir em um país ou em outro. 

O Redata contribui para essa equação ao tornar o ambiente brasileiro mais competitivo para novos projetos. Segundo o relatório aprovado no Senado, o regime pode reduzir em até 30% o investimento inicial de um empreendimento. Na prática, isso pode significar maior capacidade de atração de capital, estímulo à expansão da infraestrutura digital e melhores condições para que empresas que dependem de processamento de alta capacidade escolham o Brasil como base para suas operações. 

Quando um novo data center é instalado, não estamos falando apenas de servidores e processamento. Há demanda por construção, equipamentos, energia, conectividade, serviços especializados, segurança, manutenção e profissionais qualificados. Ao redor dessa infraestrutura também podem surgir novos negócios, parcerias com universidades, centros de pesquisa e empresas de tecnologia. 

O impacto econômico de uma política como o Redata não deve ser medido apenas pela eventual redução de custos de um projeto. É preciso considerar o investimento que ela pode destravar e o ecossistema econômico que pode se formar a partir dele. 

O próximo desafio é transformar vantagem tributária em infraestrutura. O Redata é um avanço importante, mas não resolve sozinho os desafios brasileiros. O incentivo tributário pode melhorar a competitividade do país, mas investidores continuam fazendo perguntas fundamentais: haverá energia disponível? Em quanto tempo? A que custo? Haverá conectividade suficiente? O licenciamento será previsível? Existirá mão de obra qualificada? O marco regulatório continuará estável? 

Essas respostas serão determinantes para transformar interesse em investimento efetivo. O Redata deve ser entendido como ponto de partida, e não como ponto de chegada. 

A decisão tomada no campo político precisa ser acompanhada de uma agenda de infraestrutura capaz de sustentar a expansão da inteligência artificial. Caso contrário, corremos o risco de criar um ambiente tributário mais competitivo sem conseguir oferecer as condições físicas necessárias para que os investimentos aconteçam na velocidade exigida pelo mercado. 

Entre esses desafios, a energia ocupa uma posição central. A expansão da IA significa aumento expressivo da demanda por processamento e processamento significa eletricidade. O Brasil tem, nesse aspecto, uma vantagem que poucos mercados conseguem combinar: uma matriz elétrica com forte participação de fontes renováveis. Isso pode representar um diferencial relevante na disputa global por investimentos em data centers, especialmente diante da crescente pressão de empresas e investidores por redução de emissões e maior eficiência ambiental. 

Uma matriz renovável, porém, não é suficiente. É necessário garantir geração, transmissão e conexão compatíveis com a velocidade de expansão da demanda. É preciso conseguir levar energia competitiva e confiável até os locais onde a infraestrutura computacional será instalada. Hoje, o gargalo brasileiro está menos na geração e mais na transmissão: parte da energia renovável produzida no país deixa de ser aproveitada por falta de capacidade de escoamento. Um data center concebido como carga controlável, com sistemas de armazenamento em baterias, pode absorver esse excedente e contribuir para a estabilidade da rede, em vez de apenas competir por energia. 

A mesma lógica vale para água, conectividade e demais recursos necessários à operação dos data centers. A expansão digital precisa ser acompanhada por planejamento de longo prazo e por critérios cada vez mais rigorosos de eficiência energética, hídrica e ambiental. 

É positivo que o próprio Redata incorpore compromissos relacionados à sustentabilidade e contrapartidas que acompanham o beneficiário durante toda a vigência do regime. Para as empresas, isso significa tratar esses compromissos como parte permanente da operação. A próxima geração da infraestrutura digital precisará conciliar crescimento, eficiência e responsabilidade ambiental. 

A oportunidade é maior do que atrair data centers 

Existe ainda um efeito econômico menos evidente, mas potencialmente muito relevante: o desenvolvimento de novos polos de tecnologia e infraestrutura fora dos grandes centros tradicionais. 

Quando as condições de energia, conectividade, terrenos, mão de obra e infraestrutura são favoráveis, a economia digital pode se expandir para novas regiões. Projetos de grande escala, como os que estamos implantando em Minas Gerais e no Paraná, mostram que um data center pode ser muito mais do que uma instalação de infraestrutura tecnológica. Projetos dessa natureza movimentam fornecedores, demandam profissionais especializados, criam oportunidades de qualificação, aproximam empresas de universidades e centros de pesquisa e podem contribuir para a atração de novos negócios. 

É um efeito multiplicador que precisa entrar na discussão sobre políticas públicas para o setor. Quando o poder público cria condições para que um investimento dessa magnitude aconteça, a discussão passa a envolver, além da dimensão tributária, desenvolvimento econômico, política energética, indústria, inovação, qualificação profissional e competitividade internacional. A corrida pela infraestrutura de inteligência artificial já está acontecendo. O Brasil precisa decidir que papel quer ocupar. 

Por Fernando Palamone, CEO da RT-One*

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
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