Últimas

A revolução da IA também será decidida pelos data centers

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 1 hora)

A revolução da inteligência artificial já começou. Ela muda profissões, acelera pesquisas, transforma empresas, personaliza a educação, amplia a capacidade de diagnóstico na saúde e altera a maneira como governos prestam serviços. Mas a chamada “nuvem” não está no céu.

Por trás de cada comando, imagem ou decisão automatizada existem prédios, computadores, cabos, energia, água, sistemas de refrigeração e profissionais especializados. Sem data centers, não há inteligência artificial em escala.

É por isso que o Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center) representa mais do que um incentivo fiscal. Ao reduzir o custo dos equipamentos necessários à instalação e à expansão desses centros, o novo marco oferece ao Brasil a possibilidade de disputar uma posição mais relevante na economia da inteligência artificial.

Hoje, parte significativa dos dados brasileiros é processada no exterior. Ampliar a capacidade instalada dentro do país pode reduzir o tempo de resposta dos sistemas, atrair investimentos e criar uma infraestrutura mais robusta para computação em nuvem, inteligência artificial, indústria, mineração, agronegócio, logística, educação, saúde, serviços financeiros e administração pública.

Mas existe uma diferença decisiva entre receber data centers e desenvolver tecnologia. Um país pode abrigar edifícios repletos de computadores avançados e continuar importando equipamentos, sistemas, conhecimento e plataformas. O Redata será verdadeiramente estratégico se ajudar o Brasil a atravessar essa distância, transformando capacidade de processamento em pesquisa, empresas, produtividade e empregos qualificados.

O setor de tecnologia da informação acompanha com atenção essa agenda, assim como suas entidades representativas. Em Minas Gerais, o Sindicato da Indústria de Software e da Tecnologia da Informação do Estado de Minas Gerais — Sindinfor — representa um ecossistema formado por milhares de empresas. Para quem desenvolve software, integra sistemas, cria startups ou forma profissionais, a expansão dos data centers pode abrir oportunidades em cibersegurança, engenharia de dados, redes, inteligência artificial, eficiência energética e computação de alto desempenho.

Esse efeito, entretanto, não acontecerá automaticamente. Data centers podem funcionar como ilhas tecnológicas: recebem investimentos, consomem energia e processam informações, mas estabelecem poucas relações com as empresas e os profissionais ao redor. A regulamentação deverá aproximar os novos empreendimentos das universidades, dos centros de pesquisa, das startups e dos fornecedores brasileiros.

A exigência de investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação pode ser uma das partes mais importantes do novo regime. Se bem executada, permitirá transformar uma política de infraestrutura em uma política de conhecimento. O objetivo deve ser formar profissionais, desenvolver fornecedores nacionais e criar condições para que empresas brasileiras participem das cadeias de maior valor da inteligência artificial.

Na educação, essa infraestrutura pode apoiar plataformas capazes de identificar dificuldades de aprendizagem, oferecer percursos personalizados e auxiliar professores na preparação de conteúdos e no acompanhamento dos alunos. Na saúde, pode acelerar a análise de exames, apoiar diagnósticos, ampliar a pesquisa de medicamentos e permitir o acompanhamento remoto de pacientes. A inteligência artificial não substitui professores ou médicos, mas pode aumentar sua capacidade de compreender situações complexas e tomar decisões melhores.

Minas Gerais possui condições especiais para aproveitar esse movimento: universidades e centros de pesquisa reconhecidos, milhares de empresas de tecnologia, disponibilidade energética, posição geográfica estratégica e uma economia diversificada. A nova capacidade computacional pode apoiar soluções para mineração, indústria, agronegócio, logística, educação, saúde, serviços financeiros e gestão pública. O data center, nesse contexto, não é o destino final. É a base sobre a qual novos produtos, serviços e negócios poderão ser construídos.

Há ainda duas questões que não podem ser deixadas para depois. A primeira é ambiental. Data centers demandam muita energia e, dependendo da tecnologia empregada, volumes relevantes de água. O Brasil dispõe da vantagem de uma matriz elétrica predominantemente renovável, mas precisará estabelecer critérios claros de eficiência, localização e uso responsável dos recursos naturais.

A segunda é a proteção dos dados. Informações educacionais, financeiras e de saúde estão entre as mais sensíveis que uma pessoa pode produzir. Ter mais infraestrutura dentro do território nacional não garante automaticamente privacidade ou soberania. É necessário definir quem acessa esses dados, com qual finalidade, sob quais medidas de segurança e com que responsabilidade. Na era da inteligência artificial, ampliar a capacidade de processamento e fortalecer a governança dos dados precisam fazer parte da mesma estratégia.

O sucesso do Redata não poderá ser medido apenas pelo número de data centers construídos ou pelo volume de investimentos anunciado. A medida real será outra: quantos profissionais foram formados, quantas empresas brasileiras passaram a fornecer tecnologia, quantas pesquisas chegaram ao mercado e quanto conhecimento permaneceu no país.

A revolução da inteligência artificial será decidida também pela infraestrutura que a sustenta. O Brasil tem agora a oportunidade de receber parte dessa infraestrutura. O passo seguinte — e mais importante — é garantir que ela não apenas processe dados em nosso território, mas ajude a produzir tecnologia, melhorar serviços essenciais e construir riqueza e futuro para o país.

*Fábio Veras é empresário e membro do CNPD (Conselho Nacional de Proteção de Dados Pessoais e da Privacidade)

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.
A revolução da IA também será decidida pelos data centers — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado