A divulgação de mensagens atribuídas ao ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro aprofundou a crise interna na Corte e passou a ter efeitos diretos sobre o cenário eleitoral de 2026.
O episódio colocou tanto a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto a de Flávio Bolsonaro (PL) em posições delicadas, obrigando cada lado a recalcular suas estratégias diante da repercussão do escândalo.
Lula busca distanciamento do STF
Lula utilizou o fim de semana para se reunir com ministros próximos de Alexandre de Moraes, buscando medir a temperatura para o julgamento marcado para a terça-feira (15) e avaliar possíveis desdobramentos.
O petista também cobrou uma participação mais ativa de membros do governo nas articulações dentro do STF. Na semana anterior, o PT havia convocado uma reunião interna para avaliar os impactos eleitorais do episódio, a partir da qual o partido passou a defender uma reforma no Judiciário e a levantar a pauta da adoção de mandatos para magistrados.
Para o cientista político e CEO da Arko Advice, Murillo de Aragão, Lula tenta, de alguma forma, se desvincular de uma imagem que ficou fortemente associada ao Supremo Tribunal Federal.
Flávio Bolsonaro intensifica retórica contra o STF
Do lado da oposição, Flávio Bolsonaro adotou uma postura mais agressiva, ampliando o discurso contra o STF. O senador afirmou que a Corte tem obrigação de investigar Alexandre de Moraes e cobrou o afastamento definitivo do ministro de suas funções.
A estratégia da campanha de Flávio inclui associar o governo ao STF, com o argumento de que “quem vota em Lula vota em Moraes”. Paralelamente, Flávio é investigado no caso Master por suposta lavagem de dinheiro e corrupção envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse”, uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O analista de Política da CNN Caio Junqueira relatou que a campanha de Flávio avalia que, comparativamente, o caso Dark Horse é muito menor do que a crise envolvendo Alexandre de Moraes.
Segundo ele, a campanha entende que, para o eleitor, a crise do Supremo denota “autoblindagem, alta impunidade, muito poder, dinheiro, relação com empresários”, elementos que ficam mais fortemente gravados no imaginário popular.
Já a campanha de Lula reconhece o dano, tanto que declarações como “ninguém está acima da lei” passaram a ser usadas como sinalização de distanciamento do ministro.
Pesquisas apontam desgaste e mudança no eleitorado
O diretor de Jornalismo da CNN em Brasília, Daniel Rittner, destacou que a campanha de Lula é muito centralizada no próprio presidente, o que dificulta ajustes estratégicos.
Rittner mencionou ainda dados de pesquisa que mostram um recuo de Lula no Sudeste e entre eleitores com renda de dois a cinco salários mínimos, além de crescimento consistente no número de pessoas que desaprovam o governo.
A âncora da CNN Thais Herédia acrescentou um dado relevante: as mulheres, historicamente um grupo eleitoral mais favorável a Lula, estão migrando para Flávio Bolsonaro. “As mulheres estão saindo do Lula e estão indo para o Flávio Bolsonaro, num movimento que ninguém esperava”, afirmou.
Ela também destacou que a corrupção subiu para o segundo lugar entre as principais preocupações dos eleitores, e a economia avançou para o terceiro, refletindo a percepção negativa sobre o poder de compra.
Escândalo, corrupção e economia definem o ambiente eleitoral
Para Murillo de Aragão, a combinação de escândalo, corrupção e deterioração da percepção econômica forma um cenário muito desfavorável para quem disputa a reeleição. “Corrupção vem a reboque porque tudo que está sendo exposto cheira a uma corrupção grossa”, disse.
Ele ressaltou que há uma sensação generalizada de desaquecimento econômico, inflação e carestia, especialmente no Nordeste, o que prejudica diretamente a campanha do incumbente.
Caio Junqueira concluiu que, apesar do momento atual ser mais favorável a Flávio, a eleição ainda está longe de ser definida. “Acho que a gente tem que transportar tudo ali para a metade de outubro e para as duas últimas semanas”, disse, referindo-se ao período entre 15 e 25 de outubro como o momento decisivo.
Rittner também alertou para o fator abstenção, que tende a afetar mais o eleitorado mais pobre e pode ser determinante em uma disputa que se projeta extremamente acirrada.

