A Abipesca (Associação Brasileira das Indústrias de Pescados) propôs ao governo federal a criação de uma cota anual para a importação de filés de tilápia. A entidade sugere limitar as compras externas a cerca de 16,2 mil toneladas por ano, independentemente do país de origem.
Pela proposta, o mecanismo teria caráter temporário, seria aplicado de forma transparente e passaria por revisões periódicas.
Segundo a associação, a medida busca administrar o avanço das importações em um momento de pressão sobre a cadeia nacional, marcado por dificuldades no mercado externo, aumento dos custos de produção e incertezas regulatórias.
A proposta prevê o monitoramento de indicadores como preços, oferta, geração de empregos e capacidade instalada das indústrias, além de critérios sanitários e de qualidade dos produtos importados. A Abipesca também defende a análise de possíveis práticas de concorrência desleal.
O volume sugerido tem como referência a média mensal das importações registrada no primeiro semestre de 2026. Anualizado, o montante de 16,2 mil toneladas corresponderia, segundo a entidade, a aproximadamente 5% da produção brasileira estimada de filés de tilápia.
Para a entidade, a criação de uma cota de importação permitiria ao governo acompanhar a evolução do mercado e, ao mesmo tempo, preservar condições de competição para a produção nacional enquanto são avaliados os impactos econômicos, comerciais, sanitários e regulatórios sobre a cadeia da tilápia.
Importações ganham espaço
Os dados apresentados pela Abipesca apontam aumento da participação do produto estrangeiro no mercado brasileiro. No primeiro semestre de 2026, o país importou cerca de 8 mil toneladas de filés de tilápia do Vietnã, em operações que movimentaram US$ 33 milhões.
Em março, as importações chegaram a representar aproximadamente 11% da produção nacional mensal, de acordo com a associação. No mesmo período, pela primeira vez, as compras externas de tilápia superaram as exportações brasileiras, segundo os dados citados pela entidade.
O avanço das importações ocorre em paralelo ao crescimento da produção nacional. Em 2025, o Brasil produziu mais de 707 mil toneladas de tilápia inteira, volume equivalente a cerca de 212 mil toneladas de filés.
Ao mesmo tempo, as exportações da piscicultura brasileira recuaram 34% nos primeiros seis meses de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025. Para a Abipesca, a combinação entre o aumento da entrada de produto estrangeiro e a perda de desempenho nas vendas externas amplia a pressão sobre produtores e frigoríficos.
Segundo a entidade, o acesso do pescado brasileiro ao mercado europeu continua limitado, enquanto mudanças nas tarifas dos Estados Unidos afetaram pedidos e contratos de exportação.
Outro ponto de preocupação para o setor é uma possível abertura do mercado brasileiro para a tilápia produzida na China. Maior produtor mundial da espécie, o país asiático opera em uma escala superior à brasileira, segundo a entidade.
Pressão sobre a produção
A entidade também aponta impactos sobre as decisões de investimento na produção de tilápia. Como o ciclo produtivo exige planejamento antecipado, a oferta de peixe comercializada meses depois depende de decisões tomadas anteriormente, como a compra de alevinos (peixes jovens) e o povoamento dos viveiros.
Segundo a Abipesca, entidades regionais registraram queda de aproximadamente 30% nas vendas de alevinos em um intervalo de seis meses. Para a associação, o recuo pode indicar redução dos investimentos destinados à produção futura.
A atividade também enfrenta pressão de custos. Entre os fatores citados estão as despesas com petróleo, fretes, seguros e logística, que elevam os custos de produção e comercialização.
Incertezas regulatórias
Além das condições de mercado, o setor acompanha a discussão sobre uma eventual inclusão da tilápia na Lista Nacional de Espécies Exóticas Invasoras.
A Abipesca afirma que uma eventual classificação poderia aumentar a insegurança para empreendimentos que dependem de licenciamento ambiental, crédito, uso de águas da União e autorização para expansão das atividades.

