Na primeira semana de julho, após um ano e meio à frente do Metrô BH, o engenheiro Cláudio Andrade assumiu a presidência de outro grande projeto do grupo Comporte: a Trivia Trens, que havia arrematado a concessão de três linhas da estatal CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), com investimentos de R$ 14,7 bilhões em duas décadas e meia de contrato.
Trata-se do passo mais ambicioso no setor metroferroviário da holding controlada pela família Constantino (dona da empresa aérea Gol), mas sua estreia nas linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade foi definitivamente para esquecer.
No terceiro dia de operações, em 23 de julho, houve uma sucessão de falhas e a CPTM precisou retomar os três ramais. Houve incêndio em uma composição. Passageiros desceram dos trens e saíram andando pelos trilhos. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), classificou a situação como “inaceitável” e ameaçou até decretar a caducidade da concessão.
Recém-chegado na Trivia, Andrade precisou colocar a bola no chão. Foi uma “situação anormal e absolutamente atípica”, segundo o executivo, mas a crise serviu para uma readequação geral dos planos.
Novas rodadas de treinamento e capacitação foram realizadas. Metade dos 2,4 mil funcionários da Trivia já esteve pessoalmente com Andrade, que tem passado por todas as estações e centros operacionais para ouvir relatos de suas equipes.
“Ninguém está aqui para dizer que uma crise é boa, mas tudo isso nos uniu em torno de um imenso desafio e nos permitirá voltar com muito respeito, trazendo mais informações ao usuário e esclarecendo como pretendemos melhorar gradualmente os serviços nas três linhas”, afirmou o executivo à CNN.
Mais importante: uma série de investimentos exigidos contratualmente foi antecipada por decisão da concessionária.
A subestação de energia Engenheiro Sebastião Gualberto, no trecho mais afetado pelas falhas de julho, será recuperada no início de 2027. É um equipamento crítico, retificador da tensão elétrica, construído na década de 1950. Inicialmente, era uma obra prevista só no terceiro ano de concessão.
A implantação do SFTV — um sistema fechado de mais de 400 câmeras em estações, vias e pátios de manobras conectadas ao centro de controle operacional — está sendo adiantada em dois anos.
“Isso nos permitirá agir preventivamente quando enxergarmos situações que comprometam potencialmente a operação”, explica Andrade.
A inteligência artificial hoje é uma aliada e pode disparar alertas sobre vandalismo, roubos, comportamento suspeito de usuários, concentração elevada de passageiros em determinada plataforma.
Do total de investimentos previstos, segundo o CEO da Trivia, R$ 6 bilhões já foram contratados. Isso abrange obras civis das novas estações e 22,6 quilômetros de expansão das linhas, reforma das estações existentes, modernização da rede aérea, sinalização e energia, bem como revisões programadas dos trens que estão sendo herdados da CPTM.
Mais de 160 equipamentos ferroviários de médio e grande porte foram encomendados, incluindo uma renovadora de via permanente importada da Áustria, capaz de trocar dois quilômetros de trilhos e dormentes em períodos de apenas 36 horas, bem como limpar ou remover a pedra brita existente abaixo deles.
A fase pré-operacional foi estendida por 90 dias e agora a “virada de chave” nas três linhas que serão assumidas pela Trivia está prevista para o fim de outubro.
A partir daí, serão 12 meses — seis meses prorrogáveis por outros seis — de “operação assistida”, com supervisão da CPTM.
A Artesp (Agência Reguladora de Transportes do Estado de São Paulo) ainda precisará aprovar a passagem de bastão.
“Esse contrato tem um período de transição mais robusto e extenso do que contratos anteriores de mobilidade”, afirma Andrade.
Para o grupo Comporte, será um momento de deixar para trás esse começo tumultuado de operações, incorporando definitivamente as três linhas de trens metropolitanos à sua carteira de mobilidade, que já tem o metrô de Belo Horizonte (privatizado em 2022) e o Trem Intercidade São Paulo-Campinas, em plena construção, cujo contrato abrange a Linha 7-Rubi.

