A nova edição do reality show da Record “A Fazenda” começa nesta segunda-feira (14), com 22 peões confinados e competindo por um prêmio de R$ 2 milhões. O programa está no ar há 18 anos, mas está longe de ser o mais longevo do gênero no Brasil.
O telespectador nacional consome reality shows de confinamento desde 2001, quando foi exibida a primeira edição de “Casa dos Artistas” no SBT. O formato virou tradição e define a agenda anual das principais emissoras, as pautas de discussão popular e o futuro das carreiras (e contas bancárias) de seus participantes.
A demanda resiste há mais de duas décadas e, ao longo desse período, intrigou pesquisadores de psicologia, sociologia e estudos de mídia. Por que nos interessamos tanto pelo que os peões da “Fazenda” estão fazendo? Veja como diferentes campos justificam a febre.
Espelho da sociedade
Uma das justificativas mais comuns para a popularidade das “novelas da vida real” é a identificação com os participantes. O psicólogo cognitivo-comportamental Osvaldo Marchesi Jr. acrescenta que “dinâmicas de exclusão, amizade, romance e rivalidade refletem comportamentos comuns em empresas, famílias e grupos sociais”. “A diferença é que, no reality, tudo é amplificado e exposto”, diz.
Essa similaridade à vida real permite julgar as atitudes dos participantes e, em alguns casos, de outros espectadores.
Além do “Grande Irmão”: o primeiro “reality show” foi no Coliseu
A psicanalista Marion Minerbo descreveu reality shows como uma luta de gladiadores moderna na revista de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo).
Assim como multidões romanas adoravam assistir às batalhas entre seus semelhantes, milhares abrem diariamente a transmissão ao vivo de programas competitivos como o “Big Brother Brasil” da TV Globo ou “A Fazenda”.
A consequência da disputa é menos violenta: em vez do risco à vida, existe o risco do retorno ao anonimato. E, desta vez, o espectador sente-se no controle dos resultados.
Mais do que identificar-se com os participantes, ele recebe “o prazer de exercer o voto de exclusão semelhante ao ‘polegar romano’ dos imperadores”, descreve Minerbo, “e a oportunidade de realizar a catarse das angústias cotidianas”.

Busca por autenticidade
Em artigo, o doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Bruno Campanella acompanhou uma comunidade de fãs do “Big Brother Brasil” para identificar as emoções e comportamentos mais comuns.
“Fãs do programa sugerem que as condições criadas pelo confinamento seriam ideais para revelar a autenticidade dos participantes”, afirma. “Se apresentar como ‘autêntico’ é visto como fundamental para que tenham sucesso ao longo da disputa.”
No caso de reality shows com celebridades, como “A Fazenda”, cria-se uma oportunidade única para saber quem os famosos são “de verdade”. Por isso, participantes lidos como “falsos” ou “personagens” são recusados.
Fandoms e mutirões intensificam a experiência
A criação de comunidades online em torno dos reality shows deu vida nova ao formato já popular. Cenas das transmissões em tempo real repercutem primeiro nas redes sociais, antes mesmo de aparecerem reeditadas nos programas ao vivo.

Com a popularização dos perfis oficiais moderados, equipes inteiras selecionadas pelos participantes dedicam-se a cultivar torcida popular, apoiando-se na empatia, compaixão e identificação, ou na aversão aos “adversários”.
“Aristóteles já falava em catarse como a liberação de emoções intensas provocadas pela arte”, explica Osvaldo Marchesi Jr. “O público vibra com vitórias e eliminações e se une em torcidas, hashtags e mutirões. Projetamos e julgamos como se estivéssemos dentro do jogo.”
Importa se é verdade ou não?
Especialistas rejeitam a ideia de que o público vê reality shows como fiéis à realidade, ou não reconhecem as intervenções das emissoras. O interesse nasceria do choque entre pessoas reais e condições fictícias.
“Esses membros da audiência esperam que as constantes provas, tanto físicas quanto emocionais, e o isolamento do mundo exterior façam o confinado ser verdadeiro com ele mesmo e com a audiência”, teoriza Bruno.
Marion Minerbo resume: “A graça toda consiste em não sabermos ao certo quanto de representação e quanto de realidade há naquilo. O reality show é um espetáculo e, ao mesmo tempo, é ‘de verdade’.”

