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Análise: Juros dos EUA podem ofuscar brilho de eleições no Brasil

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Análise: Juros dos EUA podem ofuscar brilho de eleições no Brasil

A expectativa em torno da eleição presidencial brasileira tem sido o principal motor dos dias de alta do Ibovespa, que retornou à marca dos 188 mil pontos por alguns momentos durante os pregões da semana.

O principal indicador do mercado de ações brasileiro fechou em queda de 0,56%, aos 187.206,89 pontos. Ainda assim, a Bolsa acumulou alta de cerca de 1% na semana, com os investidores repercutindo positivamente pesquisas eleitorais indicando que o pleito de outubro será mais competitivo que o previsto anteriormente.

O índice avança a cada nova pesquisa que aponta redução na diferença de intenção de voto entre os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno.

No entanto, esse movimento positivo tem sido ameaçado pelo cenário externo, especialmente pelo comportamento dos juros nos Estados Unidos. A analista Lucinda Pinto avaliou o momento e trouxe uma leitura mais precisa sobre o que está ocorrendo nos mercados.

Reprecificação, não otimismo

A analista fez uma ressalva importante sobre a interpretação do desempenho recente da Bolsa. “Ela não está exatamente operando com otimismo. Eu acho que está num processo de reprecificação de cenário e de riscos”, afirmou.

Segundo ela, o que se observa é o mercado trabalhando com probabilidades e colocando nos preços os cenários considerados mais prováveis.

“O mercado está entendendo que cresceu muito, segundo as pesquisas, a chance de haver uma vitória da oposição nesse momento e a probabilidade de que essa oposição traga uma nova política fiscal”, explicou.

Lucinda destacou que ninguém está precificando uma transformação fiscal radical, mas sim a possibilidade de uma gestão fiscal “um pouco mais responsável”. Essa percepção impacta diretamente o mercado de juros futuros e a taxa Selic, que, num cenário de melhora fiscal, poderia ser reduzida ao longo do tempo.

“A taxa de juros hoje é a variável mais importante, que tem impactado mais diretamente o desempenho das empresas e, portanto, das ações”, ressaltou a analista.

Incertezas eleitorais e dúvidas sobre a oposição

Apesar do movimento de reprecificação, Lucinda alertou para as muitas incertezas que ainda cercam o cenário político. Com cerca de três semanas para o primeiro turno, ela lembrou que pesquisas eleitorais já mostraram cenários que não se confirmaram nas urnas.

Além disso, a analista pontuou que “ninguém sabe de verdade qual será a política fiscal da oposição”. Segundo ela, ainda são necessárias informações mais concretas para que o mercado se convença de um cenário diferente do atual, tornando qualquer projeção sobre a dinâmica da dívida praticamente impossível neste momento.

Juros americanos como principal ameaça

O fator externo que mais preocupa é o comportamento dos juros nos Estados Unidos. Lucinda apontou que essa variável “tem poder, tem força para alterar a dinâmica dos mercados” e pode se sobrepor ao trade eleitoral doméstico.

Todos os olhares estavam voltados para a divulgação do CPI — índice de preços ao consumidor americano — e para os próximos indicadores. “Se de fato houver um aumento de taxa de juros nos Estados Unidos, tudo muda”, alertou a analista.

Ela também questionou se, nesse cenário, o Brasil conseguiria continuar cortando a taxa Selic, lembrando que parte da recuperação recente das small caps está associada à expectativa de novos cortes na taxa básica de juros.

Guerra, petróleo e Petrobras no radar

O conflito no Oriente Médio também foi destacado como fator de risco.

A tomada de uma cidade no Iêmen próxima ao Estreito de Bab el-Mandeb pelos rebeldes Houthis, apoiados pelo Irã, acendeu alertas sobre a rota marítima que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden — considerada a principal via de acesso da Ásia e do Oriente Médio à Europa.

Com o petróleo já na casa dos 107 dólares, o cenário inflacionário nos Estados Unidos pode se agravar ainda mais.

No Brasil, a Petrobras adicionou ruído ao quadro ao recuar de um reajuste nos preços dos combustíveis e, na sequência, anunciar um desconto de 19 centavos por litro de gasolina. “Ela recuou dessa decisão, o que trouxe uma questão importante em termos de governança”, avaliou Lucinda.

Para a analista, esse episódio ameaça o efeito positivo que o petróleo mais alto poderia ter sobre a companhia, que tem sido fundamental para sustentar o desempenho do Ibovespa nos últimos meses.

No cenário global, a Europa elevou seus juros, com pressão crescente sobre o Banco da Inglaterra para seguir o mesmo caminho, em razão da alta nos preços de energia e da inflação distante das metas do Banco Central Europeu.

“O custo do dinheiro no mundo está ficando mais alto”, resumiu Lucinda, reforçando que competir nesse ambiente se torna cada vez mais complicado para os mercados emergentes.

Juros altos são uma das principais causas de inadimplência no Brasil

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