À primeira vista, guardar a chave do carro envolvida em papel-alumínio parece apenas uma daquelas dicas estranhas que circulam pela internet. O hábito, porém, tem uma explicação ligada à tecnologia dos veículos e a um princípio da física que existe há quase dois séculos.
A prática é associada principalmente aos carros equipados com sistemas de entrada e partida sem chave, conhecidos como keyless. Nesses modelos, o veículo se comunica por radiofrequência com a chave para identificar quando ela está por perto. O problema é que esse sinal também pode ser explorado em ataques conhecidos como relay attack, ou ataque de retransmissão.
Nesse tipo de ação, criminosos utilizam equipamentos capazes de captar e retransmitir o sinal da chave, fazendo com que o veículo “entenda” que ela está próxima mesmo quando o proprietário está dentro de casa, por exemplo. Dependendo do sistema, isso pode permitir que o carro seja destravado e ligado sem que a chave esteja fisicamente ao lado do veículo.
Por que o papel-alumínio pode interferir no sinal da chave?
O alumínio é um material condutor e pode funcionar como uma barreira para ondas eletromagnéticas. Quando a chave fica completamente envolvida pelo metal, a comunicação por radiofrequência pode ser bloqueada ou bastante reduzida.
A explicação está relacionada à chamada gaiola de Faraday, estrutura criada e testada pelo cientista britânico Michael Faraday em 1836. O princípio mostra que um invólucro condutor pode proteger seu interior de determinados campos elétricos e eletromagnéticos.
A ideia continua presente em tecnologias atuais. Estojos e bolsas próprios para bloquear sinais, por exemplo, utilizam o mesmo princípio para dificultar a comunicação sem fio de dispositivos eletrônicos.
No caso da chave do carro, o papel-alumínio funciona como uma versão improvisada dessa proteção. Para ter efeito, no entanto, não basta colocar uma pequena folha sobre o controle. O material precisa envolver a chave de maneira a reduzir as possíveis aberturas por onde o sinal possa passar.
E por que isso também é usado em carteiras?
A mesma lógica aparece em outro hábito que pode parecer estranho: colocar cartões ou a carteira dentro de uma proteção metálica.
Alguns cartões utilizam tecnologias como NFC e RFID, que permitem a comunicação por aproximação. É o que possibilita, por exemplo, pagamentos sem a necessidade de inserir o cartão na máquina.
Uma barreira metálica pode dificultar essa comunicação. Por isso, existem carteiras e capas específicas com proteção contra RFID. O papel-alumínio também pode produzir esse efeito, embora seja uma solução improvisada e pouco prática para o uso cotidiano.
Isso não significa, porém, que qualquer pessoa com um aparelho consiga simplesmente passar perto de alguém e copiar todos os dados de um cartão. A tecnologia de pagamentos possui mecanismos próprios de segurança, e o risco de uma leitura indevida depende de vários fatores.
Por isso, o papel-alumínio deve ser entendido como uma barreira física para determinados sinais, e não como uma proteção universal contra furtos ou fraudes.
Afinal, o truque realmente funciona?
No caso das chaves de carros com sistema keyless, a lógica física por trás do truque existe. Ao envolver a chave com um material condutor, é possível reduzir ou bloquear a emissão do sinal que poderia ser explorado em um ataque de retransmissão.
O papel-alumínio, portanto, não tem nenhuma propriedade especial criada para proteger automóveis. O que está por trás do método é um princípio conhecido pela ciência desde o século XIX e que continua sendo aplicado em equipamentos modernos.
Ainda assim, a proteção depende do sistema utilizado pelo veículo e da maneira como a chave é envolvida. Por isso, fabricantes de acessórios de segurança oferecem estojos específicos para bloqueio de radiofrequência, que são desenvolvidos justamente para essa finalidade.
Para quem tem um carro com entrada e partida sem chave, outras medidas também podem ajudar, como manter a chave distante de portas e janelas e verificar se o veículo realmente foi travado depois de estacionar. O mais importante é não tratar o papel-alumínio como uma solução capaz de impedir qualquer tipo de furto.
No fim, o que parece uma simples gambiarra de cozinha tem uma explicação que remonta aos experimentos de Faraday. Um princípio observado em 1836 continua presente, quase 200 anos depois, em tecnologias e situações do cotidiano.
