Poucas semanas depois de o BC (Banco Central) decretar a liquidação do Banco Master, em novembro de 2025, perfis com milhões de seguidores começaram a publicar críticas à atuação da autoridade monetária.
Para a Polícia Federal, parte dessas manifestações integrava uma estratégia articulada para defender o banqueiro Daniel Vorcaro e questionar a decisão sobre o banco.
Batizada internamente de “Projeto DV“, em referência às iniciais de Vorcaro, a iniciativa teria envolvido a contratação de influenciadores sob acordos de confidencialidade. A proposta, segundo a PF, era trabalhar a imagem do banqueiro e disseminar questionamentos sobre a liquidação do Master.
Documentos do inquérito que investiga o caso, divulgados na quinta-feira (10) após o ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), retirar o sigilo dos autos, mostram como a Polícia Federal chegou aos envolvidos e reconstituiu parte da estratégia.
A investigação reúne mensagens preservadas em cartório e depoimentos de pessoas que afirmam ter sido procuradas e recusado as propostas. A CNN Brasil teve acesso ao material.
Campanha em meio à crise
Para a PF, o momento em que os contatos começaram é um dos pontos centrais da investigação. Em um pedido encaminhado ao STF em fevereiro, a corporação afirma que as contratações tiveram início em dezembro, pouco depois de Vorcaro deixar a prisão pela primeira vez, no fim de novembro, por decisão do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região).
Segundo os investigadores, a intenção era “atacar a reputação do Banco Central do Brasil no mesmo período em que o Tribunal de Contas da União emitia sinais de que desfaria a liquidação extrajudicial do Banco Master”.
A suspeita ganhou repercussão no início de janeiro de 2026, quando o vereador de Erechim (RS) Rony Gabriel (PL) e a jornalista Juliana Moreira Leite disseram, nas redes sociais, que haviam sido procurados. A partir desses relatos, a PF começou a reunir informações sobre as abordagens.
Um relatório preliminar, concluído em 12 de janeiro, compilou os relatos que haviam circulado publicamente. No dia seguinte, a área de contrainteligência da corporação fez uma varredura, classificada no documento como “parcial e não exaustiva”, e encontrou 22 perfis no Instagram que haviam publicado críticas ao Banco Central no fim de dezembro.
Alguns tinham mais de 20 milhões de seguidores. Boa parte das publicações, segundo a PF, já havia sido apagada.
A suspeita que deu origem ao inquérito
O inquérito foi instaurado em 28 de janeiro. Na portaria, a delegada responsável registrou a suspeita de que Vorcaro “teria contratado empresa de marketing para realizar propaganda negativa e/ou difamação do Banco Central perante a sociedade”.
De acordo com o documento, a estratégia poderia ter como objetivo “atravancar o andamento das investigações” e permitir ao empresário “influenciar as decisões em curso” no STF e no TCU (Tribunal de Contas da União). A PF apontou ainda a possível prática do crime de embaraçar investigação envolvendo organização criminosa.
Abordagem a Rony Gabriel
O vereador Rony Gabriel prestou depoimento como testemunha em 12 de fevereiro. Aos investigadores, afirmou que recebeu a proposta em 20 de dezembro de 2025, por meio de um assessor. A mensagem apresentava o trabalho como um serviço de “gerenciamento de reputação e gestão de crise para um executivo grande”.
“É um caso de repercussão nacional. Gente grande. Esquerda e centrão envolvidos”, dizia a mensagem, que posteriormente foi registrada em ata notarial.
Mais informações seriam apresentadas apenas depois da assinatura de um acordo de confidencialidade. O documento anexado ao inquérito cita o “PROJETO DV”, restringe manifestações públicas sobre o trabalho sem autorização e estabelece multa de R$ 800 mil em caso de violação do sigilo.
Depois da assinatura, Rony participou de uma reunião por videochamada em 29 de dezembro. Segundo o vereador, foi nesse encontro que o nome de Vorcaro foi mencionado pela primeira vez.
Não houve definição de valores durante a conversa, mas Rony afirmou aos investigadores: “Ficou muito claro que se tratava de valores milionários”.
Roteiro de publicações e viagem a São Paulo
Segundo o vereador, a orientação era transmitir a ideia de que “o Banco Central errou” e de que o TCU “deveria intervir”.
Ao pedir exemplos do conteúdo esperado, Rony recebeu links de publicações feitas por outros perfis. Os materiais, de acordo com o relato, serviriam como referência para as manifestações.
“Eles tinham um roteiro, mas ele poderia ser dito da forma que eu achasse melhor, cada um com seu estilo”, afirmou.
A proposta incluía ainda o pagamento de passagens para que o vereador viajasse a São Paulo e conversasse pessoalmente com o interessado. Rony recusou a oferta no mesmo dia.
À PF, ele disse que decidiu tornar o episódio público alguns dias depois, ao identificar semelhanças entre a narrativa apresentada na abordagem e os questionamentos que começavam a aparecer no TCU sobre a liquidação do banco.
“Minha opinião não está à venda”
A jornalista Juliana Moreira Leite também relatou ter sido procurada. Segundo ela, o contato ocorreu em 21 de dezembro, pelo Instagram, por um homem que se apresentou como representante de uma agência.
Nos áudios, preservados em cartório, o homem menciona um cliente que precisava divulgar “várias matérias” de “âmbito político, financeiro”. A proposta previa um contrato de pelo menos três meses, com oito vídeos por mês, e também estava condicionada à assinatura de um termo de confidencialidade.
Juliana encerrou a conversa depois de receber, como referência, um texto que questionava a liquidação do Banco Master.
“A minha opinião não está à venda”, disse a jornalista aos investigadores.
Ela, porém, fez uma ressalva durante o depoimento: afirmou não ter como dizer que a proposta havia partido de Vorcaro, já que recusou o trabalho antes de saber quem era o cliente.
Investigação avançou até operação
O caso foi transformado em um inquérito próprio no STF e passou à relatoria do ministro André Mendonça. No fim de março, o magistrado prorrogou as investigações.
A suspeita de atuação no ambiente digital também apareceu no pedido que levou à nova prisão de Vorcaro, em março. Na representação, a PF afirmou que, mesmo depois de preso, o banqueiro “seguiria utilizando o ambiente digital com a finalidade de influenciar e atacar instituições públicas”.
Paralelamente, os investigadores tentavam ouvir o publicitário Thiago Miranda, dono da agência MiThi. A defesa pediu acesso aos autos e o adiamento do depoimento, inicialmente marcado para março.
Em abril, a PF voltou a intimá-lo e também convocou o jornalista Léo Dias para prestar declarações. O grupo de comunicação do jornalista tinha Miranda como sócio. Os mandados não especificavam em que condição os dois seriam ouvidos, e as defesas pediram a remarcação das oitivas.
Quando prestou depoimento, em maio, Miranda confirmou à PF que havia sido responsável pela contratação de influenciadores e que apresentou o plano a Vorcaro. Dois meses depois, ele foi alvo de busca e apreensão em uma nova fase da Operação Compliance Zero.
Outro lado
Procurada anteriormente pela CNN Brasil, a defesa de Vorcaro preferiu não se manifestar sobre o inquérito.
Em nota divulgada em julho, a defesa de Thiago Miranda afirmou que ele sempre atuou dentro da legalidade e não cometeu crimes.
A UNLTD Brasil, empresa citada no acordo de confidencialidade, já declarou previamente não ter contrato com o Banco Master.
A CNN Brasil tenta contato com os citados. O espaço segue aberto para manifestação.

