A proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de pagar um dividendo no valor de US$ 5 mil para cada adulto americano, no caso de vitória do Partido Republicano nas Eleições de Meio de Mandato, enfrenta barreiras institucionais.
Em discurso na primeira noite da convenção republicana em Dallas, no Texas, ele prometeu pagar o valor caso os republicanos vençam a corrida eleitoral pelo Senado e pela Câmara dos Representantes, que acontece no dia 3 de novembro.
O presidente americano sugeriu nomear a quantia como “Dividendo Trump“. “A única ressalva é que o dividendo que estamos oferecendo deve ser gasto nos Estados Unidos da América”, acrescentou ele.
Trump não disse como financiaria o custo enorme de um pagamento aos cerca de 270 milhões de adultos do país, nem ofereceu detalhes específicos sobre a execução dos pagamentos.
O vice-presidente JD Vance tentou explicar a origem do dinheiro. “Estamos arrecadando uma quantidade extraordinária de receita porque o presidente dos Estados Unidos está, de fato, enfrentando não só empresas estrangeiras, mas também países estrangeiros”, disse Vance em entrevista à Fox News.
“O que o presidente está dizendo é… se vocês nos mantiverem no poder e nos permitirem continuar fazendo essas coisas, então vocês compartilharão parte dos benefícios dessa riqueza incrível que estamos criando.”
Em ao menos outras três ocasiões na segunda gestão Trump, o governo sugeriu ou prometeu distribuir valores a norte-americanos, mas apenas uma se concretizou.
Fevereiro de 2025
O chefe do então Departamento de Eficiência Governamental dos EUA (Doge, na sigla em inglês), Elon Musk, propôs os “Dividendos do Doge” nas redes sociais, afirmando que o texto seria levado para a aprovação de Trump.
O plano previa a devolução de um cheque de reembolso de US$ 5 mil, financiado pelas economias geradas pelo departamento.
Trump chegou a responder que gostou da ideia, mas a proposta não foi para a frente. Pouco depois, os dois romperam o relacionamento. O Doge foi aberto em janeiro daquele ano e acabou quatro meses depois, em maio.
Novembro de 2025
Com um discurso similar ao da Convenção desta quarta-feira (9), Trump já havia prometido pagar dividendos do tarifaço a cidadãos americanos.
Em uma postagem na rede social Truth Social, ele alegou que os críticos das tarifas impostas a outros países eram “tolos” e que, com uma arrecadação “trilionária”, o governo pagaria US$ 2.000 para cidadãos americanos de classe média e baixa.
Ele voltou ao assunto no início deste ano, ao afirmar em entrevista que não precisava do Congresso para entregar os cheques. Porém, não executou o plano.
Na época, seu secretário do Tesouro, Scott Bessent, observou: “Precisamos de legislação para isso”.
Dezembro de 2025
O governo americano anunciou que 1,5 milhão de militares receberiam um bônus de US$ 1.776 como “forma de agradecimento pelo serviço prestado” e os 250 anos das Forças Armadas. O bônus foi pago no mês seguinte na forma de uma parcela extra do auxílio-moradia e com o apelido de “warrior dividend” ou Dividendo Guerreiro.
Aproximadamente 1,28 milhão de militares da ativa e 174 mil da reserva estavam aptos para receber o dinheiro, segundo o Departamento de Defesa.
Na agenda política de Trump, aprovada durante o verão, o Congresso destinou US$ 2,9 bilhões ao Departamento de Defesa, que a Casa Branca renomeou como Departamento de Guerra, para complementar o Auxílio Básico.
Valor pode ser “compra de voto”
A Constituição americana determina que o Poder Executivo não é responsável por criar gastos ou lidar com dinheiro, e sim executar aquilo que o Legislativo determina. Por isso, a proposta teria de ser aprovada pelo Congresso.
Dificilmente a proposta de Trump será levada adiante, na avaliação de Carlos Poggio, professor de relações internacionais e especialista em política dos Estados Unidos. Assim como nas outras promessas, “nada disso pode ser cumprido, porque são questões muito mais complicadas.”
O país lida com um déficit anual de US$ 2 trilhões e dívida pública de US$ 40 trilhões. Se o “Dividendo Trump” passasse pelo Legislativo, o valor a ser desembolsado aos mais de 200 milhões de adultos norte-americanos passaria de US$ 1 trilhão.
“Essa é a definição prática de política fiscal inoportuna e mal aconselhada”, disse Joe Brusuelas, economista-chefe da RSM US, à CNN.
Para Carlos Poggio, além da discussão de compra de voto, a fala do presidente na convenção é uma estratégia de “imagem”. Faltando dois meses para as Eleições de Meio de Mandato, “o que essa promessa deixa claro é que ele vai estar disposto a tudo para evitar uma derrota muito grande”, afirma. “É uma vontade do presidente de se utilizar de todos os recursos possíveis ao seu dispor para tentar influenciar o resultado.”
Reprovação histórica
Uma pesquisa realizada pela Focaldata para o jornal Financial Times apontou que o presidente teve o menor índice de popularidade já registrado pela pesquisa, desde que ela começou a ser feita em maio deste ano.
Os dados mostram que apenas 33% dos eleitores americanos registrados aprovam o desempenho de Trump como presidente do país, representando uma queda de três pontos percentuais em relação ao mês anterior.
O apoio dentro do Partido Republicano também caiu mais de dois pontos percentuais, chegando à marca de 72%, o menor nível já registrado pelo levantamento.
Quase dois terços dos eleitores afirmaram que a economia dos Estados Unidos está no caminho errado. Em relação às finanças pessoais, 57% disseram estar em uma situação financeira pior sob o governo Trump.
Apenas 53% dos eleitores republicanos aprovam a forma como o presidente americano lida com a criação de empregos e com a economia, o que representa uma queda acentuada de quase oito pontos percentuais em relação ao mês anterior.
*Com informações da CNN
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