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GLP-1 acelera mudança no consumo e abre espaço para carnes de maior valor

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
GLP-1 acelera mudança no consumo e abre espaço para carnes de maior valor

A expansão dos medicamentos à base de GLP-1, como os utilizados para controle de peso, deve acelerar uma transformação no comportamento dos consumidores e abrir espaço para produtos de maior valor agregado no mercado de proteínas, segundo executivos que participaram do Agro Summit Bradesco BBI 2026.

Para Pedro Fernandes, da consultoria McKinsey, a mudança já é observada no comportamento dos consumidores brasileiros.

Pesquisa realizada pela consultoria, em parceria com a Scanntech, ouviu mais de 2 mil pessoas entre março e abril deste ano. E identificou o uso de aproximadamente 6% de medicamentos GLP-1 entre a população adulta brasileira.

Fernandes afirmou que o mercado oficial desses medicamentos já estaria na casa dos R$ 20 bilhões, segundo estimativa da InfoPrice citada durante o painel.

Considerando também o mercado não oficial, a estimativa apresentada é de que o consumo possa chegar próximo de R$ 30 bilhões. E a perspectiva é de forte expansão com a entrada de medicamentos mais baratos. Segundo Fernandes, quase metade das pessoas que ainda não utilizam GLP-1 demonstrou interesse em começar caso os preços caíssem para uma faixa entre 35% e 50% do valor dos medicamentos de referência.

Para ele, a combinação entre novos medicamentos, redução de preços e entrada de novos concorrentes pode fazer a penetração do GLP-1 no Brasil até triplicar.

A mudança provocada pelo GLP-1, no entanto, não se limita à redução da quantidade de alimentos consumidos. Segundo Fernandes, usuários dos medicamentos também demonstram maior preocupação com a composição nutricional dos produtos.

Na pesquisa da McKinsey, 50% dos consumidores de GLP-1 disseram ler informações nutricionais dos alimentos, contra 15% entre aqueles que não utilizam os medicamentos.

O consumidor também passa a reduzir o consumo de alimentos associados a ocasiões de impulso, principalmente aqueles consumidos fora das refeições.

Esse movimento é considerado relevante para a indústria de alimentos e proteínas porque muda não apenas o volume consumido, mas também os critérios utilizados para escolher o que colocar no prato.

Para Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS, a transformação provocada pelo GLP-1 faz parte de uma mudança estrutural mais ampla na alimentação.

Segundo ele, a proteína está sendo “redescoberta” pelos consumidores por causa da preocupação com saúde e qualidade de vida.

“A proteína não só na formação de músculos, mas também ela como condutor de saúde”, afirmou Tomazoni durante o painel.

O executivo destacou que a mudança ocorre entre diferentes gerações. Consumidores mais jovens estariam aumentando a ingestão de proteínas, enquanto pessoas mais velhas também passaram a buscar alimentos associados à saúde e à qualidade de vida.

Tomazoni afirmou ainda que o consumidor está deixando de olhar apenas para a quantidade de proteína e passando a considerar também sua composição, incluindo o perfil de aminoácidos.

Para a JBS, essa mudança cria espaço para uma estratégia que combina a produção tradicional de proteínas com produtos funcionais e de maior valor agregado.

“Você tem alimentação básica e enxergamos um outro degrau: a alimentação que é uma alimentação funcional e uma outra alimentação aí que é uma alimentação customizada”, afirmou.

A transformação do comportamento do consumidor pode ter impacto direto sobre a carne bovina. Embora o GLP-1 reduza o apetite e possa diminuir o volume total de alimentos consumidos, a maior preocupação com proteína tende a favorecer alimentos com maior densidade nutricional.

Nesse cenário, a carne bovina pode disputar espaço não necessariamente pelo aumento do volume consumido, mas pela qualidade e pelo valor nutricional associado ao produto.

Tomazoni afirmou que a estratégia da JBS parte de uma premissa básica: continuar produzindo proteínas de alta qualidade e baixo custo, sustentadas por escala e eficiência, enquanto a companhia desenvolve novas soluções para atender às mudanças no comportamento do consumidor.

“A gente jamais pode esquecer o básico: produzir proteínas de alta qualidade, em baixo custo”, disse.

Ao mesmo tempo, a companhia trabalha para ampliar o valor extraído de matérias-primas que hoje possuem aplicações de menor valor na cadeia.

Segundo Tomazoni, a JBS está investindo em tecnologias como hidrólise e biotecnologia para identificar peptídeos bioativos e desenvolver novas formas de proteínas.

A estratégia inclui a possibilidade de transformar matérias-primas utilizadas atualmente, inclusive na nutrição animal, em ingredientes destinados à alimentação funcional e suplementação.

O movimento indica uma tentativa da indústria de ampliar o conceito de proteína para além do corte tradicional vendido no varejo.

Tomazoni afirmou que a JBS pretende manter seu negócio principal, mas construir uma nova frente baseada em tecnologia, inovação e desenvolvimento de proteínas funcionais. Para isso, a empresa trabalha com plantas-piloto, testes e desenvolvimento de processos industriais capazes de produzir essas proteínas em escala e a preços acessíveis.

A expansão dos medicamentos GLP-1, segundo o executivo, está acelerando esse processo.

“Com a evolução das canetas, está acelerando esse processo. Com isso nós conseguimos aumentar valor na nossa cadeia de produção”, afirmou.

A aposta é que a evolução do consumidor aumente a demanda por produtos que combinem proteína, funcionalidade e conveniência. Nesse cenário, a carne bovina permanece como parte central da oferta de proteínas, enquanto a indústria busca novas formas de agregar valor ao produto e aproveitar subprodutos e matérias-primas da cadeia.

Fernandes destacou que os efeitos sobre o consumo podem permanecer mesmo depois que o consumidor deixa de utilizar o medicamento.

Segundo a pesquisa da McKinsey, pessoas que interrompem o GLP-1 podem voltar a consumir alimentos associados ao impulso, como salgadinhos. Mas alguns hábitos adquiridos durante o tratamento tendem a permanecer. Entre eles está a leitura dos rótulos e a preocupação com a composição nutricional.

Para o executivo, isso significa que a mudança provocada pelos medicamentos pode ir além do período de uso das canetas e contribuir para uma transformação mais permanente na forma como o consumidor escolhe seus alimentos.

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