Com o início do período de seca e a previsão de intensificação do El Niño, 399 municípios do Centro-Oeste estão sob monitoramento especial devido ao risco de incêndios florestais, segundo o governo federal.
Especialistas alertam que, além de combater as chamas, é preciso ampliar ações para evitar que os incêndios comecem e se espalhem. O risco aumenta principalmente no Cerrado e na Amazônia durante os meses de setembro e outubro.
“O país entra agora no período em que o risco de grandes incêndios se intensifica, sobretudo no Cerrado e na Amazônia, em razão da fase de seca”, afirma Ane Alencar, membro da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura e diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).
399 municípios estão em alerta
Do total, 23 municípios estão em alerta vermelho, 154 em laranja e 222 em amarelo. A área monitorada reúne regiões de Cerrado, Pantanal e Amazônia, onde o risco de incêndios aumenta durante a estiagem.
O plano federal para enfrentar os efeitos do fenômeno prevê R$ 337 milhões para prevenção e combate a incêndios. Outros R$ 527 milhões, por meio do Fundo Amazônia, devem ser destinados à estrutura dos Corpos de Bombeiros dos estados do Norte e Centro-Oeste.
Para Alencar, os investimentos são importantes, mas precisam ser acompanhados de políticas permanentes. Ela cita a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF), criada em 2024, como um avanço na articulação entre órgãos responsáveis pela prevenção e combate.
“A política começou a ser implementada recentemente, e seus resultados dependem de ganhar escala nos estados e municípios, com orçamento, equipes e planos territoriais”, afirma.
Segundo a especialista, o atual período de seca será um teste para verificar se as medidas conseguem reduzir os incêndios mesmo em condições climáticas mais adversas.
Produtor rural é peça-chave na prevenção
Como grande parte das ignições tem origem em atividades humanas, o setor produtivo também tem papel importante na prevenção.
Entre as medidas estão o planejamento do uso autorizado do fogo, o respeito aos períodos de proibição, a manutenção de aceiros e o acompanhamento das condições meteorológicas antes de atividades de risco.
A recuperação de áreas degradadas e a proteção da vegetação nativa também ajudam a reduzir a vulnerabilidade ao fogo.
“Na Amazônia, uma floresta degradada, fragmentada e que já queimou anteriormente fica muito mais vulnerável a novos incêndios”, explica Alencar.
Prevenção antes da emergência
Para a especialista, o país precisa identificar as áreas de maior risco antes do início da estação seca e direcionar equipes e recursos para esses locais.
Também é necessário manter ações de redução do desmatamento e da degradação florestal e garantir recursos permanentes para brigadas e planos de manejo integrado do fogo.
“Talvez a principal lição seja que o sucesso não deveria ser medido apenas pelo número de incêndios que conseguimos apagar, mas por aqueles que conseguimos evitar”, afirma.
A Coalizão Brasil aponta quatro prioridades: fortalecer o manejo integrado do fogo, integrar União, estados e atores locais, tratar a redução dos incêndios como uma estratégia de proteção econômica e transformar as medidas adotadas nos últimos anos em políticas permanentes, com orçamento e equipes.

