Estudos mostram que a litíase renal pode afetar até 15% da população mundial. Mais do que isso: as “pedrinhas” são responsáveis por até 2% dos casos de pacientes em terapia renal substitutiva, ou seja, na hemodiálise. Isso mesmo: uma condição muitas vezes banalizada pode evoluir para a perda definitiva da função dos rins.
A intenção aqui não é soar alarmista, mas, sim, dar a devida importância a uma doença que, frequentemente, é negligenciada, até mesmo no meio médico.
Do sintoma ao descuido: o cenário no consultório
No meu dia a dia no consultório de Nefrologia, observo uma contradição marcante. De um lado, há um número enorme de pessoas com tendência a formar cálculos, seja por um achado casual em exames de imagem, seja por já terem enfrentado uma crise memorável. Do outro lado, são pouquíssimas as que realmente se preocupam em investigar a fundo a causa do problema.
Muitas só buscam ajuda especializada após uma trajetória dolorosa de crises recorrentes, cirurgias e infecções de repetição que, infelizmente, já deixaram sequelas definitivas na saúde renal.
A verdade é que a formação de pedras nos rins tem origem multifatorial. Ela envolve desde predisposição genética e alterações metabólicas (herdadas ou adquiridas) até distúrbios endocrinológicos, hábitos alimentares, comorbidades e, com frequência, o uso de certos medicamentos ou suplementos.
A boa notícia? Em mais de 80% dos casos, conseguimos encontrar a resposta exata para a origem do problema.
Como funciona uma investigação de verdade?
A consulta com o nefrologista precisa ser minuciosa. Investigamos a história familiar, a rotina alimentar, o uso de medicamentos e até a ingestão de fórmulas e fitoterápicos, algo cada vez mais comum com a busca atual por “promoção da saúde”, mas que nem sempre faz bem aos rins.
Após essa conversa detalhada, o exame físico é fundamental para avaliar a saúde geral e identificar pistas de doenças associadas. A gota (hiperuricemia), por exemplo, pode se manifestar com depósitos de ácido úrico na pele e nas articulações (os chamados tofos gotosos), apontando o caminho para a causa das pedras.
Mapeado o estilo de vida do paciente, partimos para a investigação metabólica completa:
- Exames de imagem detalhados: para avaliar a situação atual e a localização exata das formações.
- Urina de 24 horas: avalia o pH e dosagens específicas de substâncias que facilitam ou previnem a cristalização.
- Análise sanguínea minuciosa: para identificar alterações bioquímicas profundas.
- Análise cristalográfica do cálculo (quando disponível): por meio de tecnologias avançadas, como Espectroscopia de Infravermelho, Difratometria de Raios X e Microscopia Óptica Polarizada, conseguimos identificar a estrutura molecular exata da pedra (por exemplo, oxalato de cálcio monohidratado ou di-hidratado). Saber o “DNA” da pedra faz toda a diferença para um tratamento definitivo.
E quando a causa continua escondida?
Mesmo quando a análise da pedra não é possível e os exames tradicionais não revelam a origem do problema, a medicina atual nos oferece recursos valiosos. Em centros especializados, já dispomos de painéis genéticos para nefrolitíase (testes específicos capazes de identificar mutações e direcionar o tratamento).
É importante alinhar expectativas: o objetivo do tratamento preventivo não é “dissolver” as pedras que já existem, mas, sim, bloquear o seu crescimento e impedir que novas pedras se formem.
Um cuidado tão único quanto a sua biologia
O combate definitivo às pedras nos rins é, por natureza, um trabalho multidisciplinar. A presença de um nutricionista especializado em litíase renal é indispensável. Ele irá analisar o impacto de dietas restritivas, corrigir erros alimentares e calcular com precisão as cargas de sódio, cálcio e citrato da sua alimentação.
Além disso, como o problema costuma caminhar ao lado de condições como diabetes, obesidade, histórico de cirurgia bariátrica, alterações nas paratireoides ou osteoporose, o acompanhamento integrado com outros especialistas garante que todas as pontas sejam atadas.
Recomendações gerais
Embora o tratamento da litíase exija uma abordagem sob medida para cada organismo, existem hábitos universais, mesmo para aqueles que ainda não têm um diagnóstico fechado:
- Hidratação: produza mais de 2,5 litros de urina por dia. Isso exige uma ingestão hídrica superior a esse volume, distribuída ao longo de todo o dia.
- Cuidado com o sal: reduza drasticamente o consumo de sal, embutidos e produtos ultraprocessados (fast foods).
- Proteína na medida: modere o consumo de proteínas de origem animal.
- Cuidado com o cálcio (o grande mito): não corte o cálcio da sua dieta! Ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, manter um consumo normal de cálcio ajuda a prevenir a formação de pedras.
Lembre-se: ter pedra nos rins não é um evento banal ou inofensivo. Quando as crises se repetem, o diagnóstico da causa é perfeitamente possível e o tratamento, para ser verdadeiramente eficaz, precisa ser individualizado.
*Texto escrito por Vinicius de Oliveira (CRM 141.840 / RQE 70246), Médico Nefrologista

