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Diagnóstico de autismo pode demorar até quatro anos no Brasil, diz estudo

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Diagnóstico de autismo pode demorar até quatro anos no Brasil, diz estudo

O diagnóstico do TEA (Transtorno do Espectro Autista) pode ocorrer anos após os primeiros sinais percebidos pelas famílias no Brasil. Uma revisão de estudos liderada por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe identificou atrasos de até 49 meses entre a primeira preocupação dos cuidadores e a confirmação do diagnóstico em serviços de nível terciário.

O estudo, publicado na revista científica “Children” em agosto de 2026, reuniu evidências de oito pesquisas brasileiras e internacionais que incluíram mais de 24 mil participantes. Os trabalhos analisados apontam que o caminho até o diagnóstico é marcado por diferentes barreiras, como a dificuldade de reconhecer os sinais, a falta de acompanhamento estruturado do desenvolvimento infantil, encaminhamentos tardios e a escassez de especialistas.

Os pesquisadores ressaltam que os 49 meses não representam um tempo de espera que se aplica a todas as crianças brasileiras. O período foi identificado em um estudo retrospectivo realizado em serviço terciário, no qual a idade média do diagnóstico foi de 79,2 meses, ou cerca de 6,6 anos. Nesse grupo, o intervalo médio entre a primeira preocupação dos cuidadores e a confirmação do TEA foi de aproximadamente quatro anos.

Idade do diagnóstico varia entre os estudos

Os dados encontrados pela revisão mostram diferenças importantes entre os grupos analisados. Em uma base nacional de crianças atendidas em Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi), a idade média do diagnóstico foi de 66 meses, ou 5,5 anos. Apenas 30,4% dos casos foram classificados como diagnósticos precoces, realizados antes dos 48 meses.

Em outro levantamento, que incluiu uma amostra brasileira de um estudo multinacional, a idade média do diagnóstico foi de 47,3 meses, aproximadamente 3,9 anos. Nesse grupo, o intervalo médio entre a primeira preocupação dos cuidadores e o diagnóstico foi de 27 meses.

estudos qualitativos e realizados em serviços terciários encontraram períodos mais prolongados. Um deles apontou atraso médio de 36 meses, enquanto o estudo retrospectivo que apresentou o maior intervalo identificou os 49 meses.

A revisão ressalta que idade média ao diagnóstico e atraso diagnóstico não são a mesma medida. Uma criança pode receber o diagnóstico em idade semelhante à observada em outros países, mas ainda passar um período prolongado entre o primeiro sinal percebido pela família e a confirmação clínica.

Família percebe sinais, mas encaminhamento pode demorar

Segundo os pesquisadores, um dos problemas identificados é que a preocupação relatada pelos cuidadores nem sempre desencadeia uma investigação estruturada. Ao longo do percurso, diferentes oportunidades de identificação podem ser perdidas.

Entre os obstáculos apontados estão a normalização de sinais iniciais, a desconsideração das preocupações dos responsáveis, o acompanhamento insuficiente do desenvolvimento, a não utilização de ferramentas de rastreio, encaminhamentos tardios e longas filas para consultas especializadas.

A revisão também identificou trajetórias que passam por várias etapas, como observações feitas pela escola, consultas pediátricas repetidas e, posteriormente, encaminhamento para serviços especializados. Em alguns casos, famílias precisam viajar até capitais para ter acesso a profissionais especializados.

Os autores destacam que o problema não deve ser interpretado apenas como uma falha individual de médicos ou outros profissionais. Para eles, os atrasos estão relacionados também à organização do sistema de saúde, à capacitação das equipes e à existência de fluxos de encaminhamento.

Atenção primária tem papel considerado estratégico

A revisão aponta a atenção primária à saúde como um dos principais pontos que podem contribuir para a identificação mais precoce do TEA. Apesar disso, o diagnóstico ainda é predominantemente conduzido por especialistas, especialmente neurologistas e psiquiatras.

Um dos estudos incluídos avaliou uma intervenção de treinamento para profissionais da atenção primária. Segundo a revisão, a capacitação aumentou o conhecimento sobre autismo e as taxas de encaminhamento, embora os pesquisadores ressaltem que ainda são necessários estudos maiores para avaliar estratégias que possam ser aplicadas em larga escala.

Para os autores, fortalecer o acompanhamento do desenvolvimento infantil, melhorar a identificação de possíveis sinais de TEA e estabelecer fluxos mais coordenados de encaminhamento podem reduzir oportunidades perdidas durante o processo diagnóstico.

Diferenças regionais também aparecem

A distribuição dos serviços especializados é outro fator apontado pelo estudo. A maior parte das pesquisas analisadas foi realizada no Sudeste, enquanto dados nacionais indicaram diagnósticos mais tardios em regiões com menos recursos, especialmente no Norte.

Os pesquisadores também identificaram concentração de serviços especializados em centros urbanos e relatos de famílias que precisam se deslocar para capitais em busca de avaliação. Em uma análise que incluiu participantes brasileiros, o uso do Sistema Único de Saúde (SUS) esteve associado a diagnóstico mais tardio, embora os autores ressaltem que esse resultado deve ser interpretado considerando as características do estudo.

A própria revisão, porém, destaca que a evidência sobre desigualdades regionais ainda é limitada. Parte dessas conclusões foi baseada principalmente em um estudo nacional, e os pesquisadores afirmam que faltam dados sobre áreas rurais, remotas e regiões com menos recursos.

Meninas e desigualdades raciais são pouco representadas

Outra lacuna identificada está relacionada ao perfil das crianças estudadas. As pesquisas analisadas tinham participação predominantemente masculina, com proporções de meninos que variaram aproximadamente entre 80% e 97%.

Segundo os pesquisadores, essa predominância limita a avaliação de possíveis diferenças na identificação do autismo entre meninos e meninas. A revisão cita evidências de que características como formas mais sutis de manifestação e comportamentos de camuflagem podem contribuir para que algumas meninas tenham o TEA identificado mais tarde, mas ressalta que os dados brasileiros sobre o tema ainda são insuficientes.

Também há pouca informação sobre raça e etnia. Apenas um dos estudos incluídos utilizou dados de raça/cor e cerca de 39% dos registros estavam sem essa informação, o que impediu uma análise consistente sobre possíveis diferenças no tempo até o diagnóstico.

Revisão aponta necessidade de mais pesquisas

Os pesquisadores afirmam que a produção científica brasileira sobre o caminho até o diagnóstico de autismo ainda é limitada e concentrada geograficamente. Dos 231 registros inicialmente identificados nas bases consultadas, oito estudos atenderam aos critérios para integrar a revisão.

Por se tratar de uma revisão de escopo, o trabalho teve como objetivo mapear as evidências disponíveis, e não calcular uma estimativa nacional única para o tempo de diagnóstico. Os autores também apontam diferenças metodológicas entre os estudos, o que impede uma síntese quantitativa dos resultados.

A recomendação é ampliar pesquisas com métodos padronizados, maior representação regional e acompanhamento das crianças desde a primeira preocupação dos cuidadores até a confirmação diagnóstica. O estudo também defende que futuras pesquisas apresentem de forma mais consistente informações sobre raça, etnia, condições socioeconômicas, localização geográfica e sexo.

A revisão conclui que os atrasos identificados não podem ser explicados por um único fator. Para os autores, eles resultam da combinação de barreiras familiares, profissionais e estruturais, além da organização dos serviços de saúde. O fortalecimento da atenção primária, da vigilância do desenvolvimento e da coordenação dos encaminhamentos aparece como um dos principais caminhos para favorecer a identificação mais precoce do TEA.

Genética pode influenciar idade do diagnóstico de autismo, diz estudo

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