Você se levanta da cadeira e escuta um “tec”. Agacha para pegar um objeto e o joelho faz um estalo. Ao subir escadas, surge uma sensação de rangido e areia. A primeira reação costuma ser a mesma: “Será que meu joelho está desgastando?”
Essa é uma das dúvidas mais frequentes no consultório de ortopedia. A boa notícia é que, na maioria das vezes, barulho no joelho, sozinho, não significa necessariamente que exista uma lesão ou desgaste.
O joelho é uma articulação formada por ossos, cartilagens, ligamentos, tendões e um líquido chamado líquido sinovial, responsável por lubrificar os movimentos.
Durante a flexão e a extensão, diferentes estruturas deslizam umas sobre as outras. É normal que a patela, conhecida popularmente como “rótula”, altere discretamente seu posicionamento quando o joelho se movimenta, pelo encaixe com o fêmur. Pequenas alterações de pressão dentro da articulação e o deslocamento do líquido sinovial também podem produzir estalos.
Esses sons costumam fazer parte do funcionamento normal do joelho. Quando não estão acompanhados de dor, inchaço ou limitação dos movimentos, normalmente não provocam lesão nem aumentam o risco de desgaste da articulação.
Em outras palavras, um joelho que estala não está, necessariamente, “gastando”.
Quando o barulho merece atenção
A situação muda quando a crepitação aparece acompanhado de outros sintomas.
Dor anterior persistente, aumento de volume do joelho, sensação de travamento, dificuldade para dobrar ou esticar completamente a perna, instabilidade ou a impressão de que o joelho “falha” pode indicar alterações que precisam ser avaliadas.
Entre as possíveis causas estão desde a falta de fortalecimento da musculatura que controla os movimentos do joelho, até lesões da cartilagem, problemas nos meniscos, alterações de alinhamento da patela, lesões ligamentares e, em algumas pessoas, os primeiros sinais de desgaste articular. Nesses casos, o estalo deixa de ser apenas um ruído da articulação e passa a ser um sintoma associado a outra alteração.
Por isso, mais importante do que o barulho é entender o contexto em que ele aparece.
O joelho não “desgasta” porque estala
Existe um mito bastante difundido de que estalar o joelho faz mal ou acelera o desgaste da articulação. Não há evidências científicas de que o estalo isolado provoque danos às cartilagens.
O que realmente merece atenção é quando a pessoa evita caminhar, subir escadas ou praticar atividade física por medo do barulho. A redução dos movimentos pode levar à perda de força muscular e diminuir a estabilidade do joelho, favorecendo as dificuldades funcionais e piorando a dor.
Manter a musculatura fortalecida, controlar o peso corporal e praticar exercícios orientados continuam sendo algumas das medidas mais importantes para preservar a saúde da articulação.
O diagnóstico depende da história e do exame físico
Nem todo paciente que apresenta estalos precisa realizar exames de imagem.
Na maioria das vezes, a avaliação começa com uma boa conversa e um exame físico detalhado. Quando existem sinais de lesão ou dúvidas sobre a causa dos sintomas, o ortopedista pode solicitar radiografias, ultrassonografia ou ressonância magnética, conforme cada situação.
O objetivo não é investigar o barulho em si, mas identificar se existe alguma alteração estrutural que justifique os sintomas.
O joelho é uma articulação que trabalha milhares de vezes por dia. Pequenos estalos fazem parte dessa mecânica e, isoladamente, costumam ser apenas uma característica do movimento.
Se, porém, eles vierem acompanhados de dor, inchaço, travamentos ou perda de função, vale a pena procurar avaliação especializada. Nesses casos, o tratamento precoce pode evitar a progressão de lesões e permitir um retorno mais rápido às atividades do dia a dia.
*Texto escrito por Dra. Camila Cohen Kaleka (CRM/SP 127.292 | RQE 57.765), Ortopedista Mestrado na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo Doutorado no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein e Membro da Brazil Health

