A BrasilAgro está ajustando o portfólio agrícola para reduzir a exposição aos riscos climáticos previstos para a safra 2026/27, especialmente diante dos efeitos esperados do El Niño sobre o Centro-Sul do país.
Segundo o CEO da companhia, André Guillaumon, a estratégia envolve reduzir áreas consideradas de maior risco produtivo, ampliar o cultivo de milho e concentrar a produção de algodão em áreas irrigadas.
“Não é uma coisa só. É um somatório de tudo”, afirmou Guillaumon durante apresentação dos resultados da companhia.
De acordo com o executivo, entre 6 mil e 7 mil hectares foram retirados do planejamento de cultivo em áreas consideradas mais vulneráveis. Parte dessas terras será destinada a culturas de cobertura, enquanto outra parcela migrará para o milho de verão.
A decisão considera principalmente a maior volatilidade produtiva de áreas novas, que ainda estão em processo de desenvolvimento e apresentam menor fertilidade do solo.
Segundo Guillaumon, uma área agrícola consolidada pode sofrer uma queda de produtividade de 15% a 20% em um evento de seca, enquanto uma área de primeiro ou segundo ano pode registrar perdas muito maiores.
“Você plantar uma soja para perder dinheiro, é melhor você não plantar e plantar uma cobertura”, disse.
Algodão
A companhia também reduziu a exposição ao algodão, cultura que exige maior investimento por hectare e apresenta maior sensibilidade às condições climáticas.
Segundo o CEO, no momento em que as decisões para a safra foram tomadas, os preços do algodão estavam pressionados. Por isso, a empresa decidiu concentrar o cultivo em áreas irrigadas, onde o risco de variação da produtividade é menor.
A estratégia, segundo Guillaumon, é evitar a exposição ao algodão de sequeiro em regiões com maior risco climático.
“Não vamos nos expor muito ao algodão, porque é uma cultura de custo de capital alto. E você teria a volatilidade climática do El Niño”, afirmou.
Cana preocupa setor
Na cana-de-açúcar, o cenário é diferente. Guillaumon afirmou que as usinas do Centro-Sul enfrentam atrasos generalizados na moagem e que a principal preocupação do mercado é o comportamento das chuvas nos próximos meses.
A combinação de chuvas ao longo da safra tem mantido a cana com maior peso, mas prejudicado a concentração de sacarose. Com isso, segundo o executivo, existe o risco de a temporada terminar com maior volume de cana, mas uma matéria-prima menos açucareira.
Outro fator que contribuiu para o aumento da disponibilidade de cana é a redução das áreas reformadas pelas usinas. Com os juros elevados e o custo de capital pressionado, produtores reduziram investimentos em renovação dos canaviais.
“Todo mundo estava trabalhando com uma safra de cana de 625 milhões, 620 milhões de toneladas. De repente, esse número virou 640 milhões”, disse Guillaumon.
Segundo ele, áreas que não foram reformadas no ciclo anterior continuam produzindo nesta safra, adicionando oferta ao sistema. A combinação de menor reforma, chuvas e atraso no início da colheita elevou a quantidade de cana disponível.
Alta dos custos
Para a safra 2026/27, a BrasilAgro também trabalha para limitar a alta dos custos de produção. A companhia antecipou a compra de fertilizantes e conseguiu se proteger parcialmente da valorização de alguns insumos.
Guillaumon citou o MAP, fosfato monoamônico, como exemplo. Segundo ele, parte do produto foi adquirida quando estava próximo de US$ 580 por tonelada, enquanto a cotação atual estaria em torno de US$ 840.
Com a estratégia de compras antecipadas e maior produção de sementes próprias, a companhia estima que seu custo de produção agrícola deve subir entre 2% e 3% na comparação anual.
Safra 2025/26
O executivo afirmou ainda que, apesar das dificuldades enfrentadas no balanço, a avaliação operacional da companhia para a safra 2025/26 é positiva.
A soja ficou cerca de 2% abaixo do orçamento em produtividade, enquanto milho e algodão apresentaram desempenho acima do planejado. A cana também vem apresentando boa aderência às expectativas, segundo Guillaumon.
“A companhia nessa safra 25/26 está muito melhor do que a safra 24/25”, afirmou.
Para o próximo ciclo, a estratégia é combinar diversificação de culturas, redução da exposição a áreas de maior risco, irrigação, capacidade operacional e uso de tecnologia, incluindo telemetria e ferramentas de inteligência artificial para apoiar as decisões agrícolas.
