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Agrotools mira inteligência territorial para tokenização de ativos no agro

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
Agrotools mira inteligência territorial para tokenização de ativos no agro

O avanço da tokenização de ativos reais pode abrir uma nova fronteira para o financiamento do agronegócio brasileiro ao permitir que características produtivas e ambientais de propriedades rurais sejam traduzidas em informações capazes de chegar ao mercado financeiro.

Para Sergio Rocha, CEO da Agrotools, o potencial está justamente em transformar o território rural em uma espécie de ativo financeiro mais facilmente compreensível por bancos, fundos e investidores. Segundo o gestor, uma parcela relevante do patrimônio existente nas áreas produtivas brasileiras ainda não é plenamente utilizada como instrumento de alavancagem de crédito.

“O acesso de utilização do ativo produtivo, que é a capacidade de um pedaço de terra, de uma fazenda, de uma grande área ou uma pequena área se tornar monetizado e, com isso, virar capital para suprir a necessidade de capital do setor, isso é algo ainda muito difícil e com processos muito complexos”, disse à CNN Brasil.

A lógica, segundo Rocha, é semelhante à evolução observada no mercado imobiliário urbano, que ganhou novos mecanismos de financiamento ao longo das últimas décadas. No campo, a tokenização poderia ajudar a traduzir não apenas a terra, mas também aquilo que ela é capaz de gerar, como soja, milho, trigo, madeira e produção pecuária, para uma linguagem mais próxima à do mercado de capitais.

Ativos ambientais

O potencial não se limita à produção agrícola. Áreas de vegetação nativa, restauração e outros ativos ambientais também podem ganhar relevância nesse processo.

A Agrotools aposta que propriedades rurais brasileiras concentram, além de áreas produtivas, recursos hídricos, vegetação nativa, potencial de geração de créditos de carbono, biodiversidade e áreas que podem ser destinadas à restauração.

Nesse cenário, a tokenização poderia permitir que ativos reais e ambientais mensuráveis e auditáveis fossem representados digitalmente e, dependendo da estrutura financeira adotada, conectados a instrumentos de investimento e financiamento.

Entre os exemplos estão créditos de carbono, projetos de restauração e ativos relacionados à geração de energia renovável. O ponto central, porém, é que a tecnologia, sozinha, não garante valor ao ativo.

“Não adianta só criar um token. O token é uma parte dessa história. Ele tem que ser um token com um bom lastro”, disse Rocha.

Inteligência territorial ganha importância

É justamente nesse ponto que entra a inteligência territorial. Para que uma área rural ou um ativo ambiental possa ser utilizado em uma operação financeira, é necessário comprovar o que existe naquele território, sua localização, características, histórico e riscos associados.

Bancos, seguradoras, tradings e empresas compradoras passaram a depender cada vez mais de informações sobre regularidade ambiental, histórico de uso do solo, riscos climáticos e características produtivas das propriedades.

O cruzamento desses dados permite construir uma avaliação mais abrangente do risco de uma operação. Informações de sensoriamento remoto, registros ambientais, dados climáticos, histórico de uso da terra e informações financeiras e de mercado podem ser combinadas para produzir uma visão mais precisa sobre determinada propriedade ou cadeia de fornecimento.

Para Rocha, não basta analisar isoladamente a situação ambiental de uma fazenda. Também é preciso compreender como fatores como solo, clima e regime de chuvas podem afetar a capacidade produtiva e, consequentemente, o risco financeiro daquela operação. “Quando a avaliação das características do território é feita de maneira assertiva e com qualidade de dados, é possível acessar um crédito mais adequado”, afirmou.

Crédito mais caro aumenta pressão por novas ferramentas

A discussão ocorre em um momento de maior pressão sobre o financiamento do agronegócio. O setor convive com cerca de R$ 180 bilhões em endividamento e juros entre 18% e 20% ao ano, além de gargalos históricos de infraestrutura e escoamento.

Ao mesmo tempo, as exigências ambientais e de rastreabilidade aumentam. A regulamentação europeia antidesmatamento, por exemplo, amplia a necessidade de comprovação da origem das commodities exportadas, enquanto regras do CMN (Conselho Monetário Nacional) aumentam a importância da regularidade ambiental no acesso ao crédito rural.

Nesse ambiente, a informação territorial deixa de ser apenas uma ferramenta de conformidade e passa a ter potencial para influenciar diretamente o custo e a disponibilidade do capital. A Agrotools aposta em tecnologias capazes de transmitir as informações necessárias para capitalizar sobre ativos rurais.

Sustentabilidade como atributo financeiro

Na avaliação de Rocha, a sustentabilidade também deixou de ser apenas uma exigência regulatória para se tornar um atributo capaz de diferenciar produtos brasileiros no mercado internacional.

O CEO destaca a soja brasileira como exemplo. Segundo ele, a commodity pode carregar, além do próprio valor comercial, informações relacionadas à sustentabilidade, carbono e boas práticas de produção.

Essa camada adicional de informação pode ajudar a diferenciar produtos e cadeias produtivas brasileiras e, ao mesmo tempo, oferecer aos agentes financeiros uma visão mais completa dos riscos envolvidos.

IA acelera análise dos territórios

A evolução da inteligência artificial também pode ampliar esse processo. A Agrotools atua há duas décadas no desenvolvimento de tecnologias voltadas à tradução de informações territoriais para diferentes participantes do agronegócio, como tradings, frigoríficos, bancos e fundos de investimento.

Segundo Rocha, a combinação de inteligência artificial, dados de geomática e modelagens permite analisar de maneira mais dinâmica as transformações ocorridas no território e relacioná-las ao resultado econômico da produção.

A empresa aposta no uso de IA para acelerar o cruzamento de grandes volumes de informações territoriais, climáticas, ambientais, mercadológicas e financeiras.

A principal mudança, portanto, não estaria apenas no uso da tecnologia para aumentar a produtividade da lavoura, mas na capacidade de transformar o território em uma fonte de informação financeira.

Drex e o movimento global de tokenização

No Brasil, o debate sobre tokenização ganhou espaço com a digitalização do sistema financeiro e iniciativas associadas ao Drex, moeda digital desenvolvida pelo Banco Central.

Para Rocha, porém, um dos principais movimentos a serem acompanhados está nos Estados Unidos. O executivo cita o chamado Genius Act, aprovado em 2025, como um marco regulatório que, em sua avaliação, pode influenciar o desenvolvimento global do mercado de tokenização.

A avaliação é que o Brasil poderia aproveitar esse movimento para desenvolver estruturas capazes de representar ativos do agronegócio e conectá-los a novas formas de financiamento.

O desafio, entretanto, permanece na construção de confiança. Um ativo digital só pode ter valor financeiro se houver segurança sobre o que ele representa. No caso de ativos ambientais, isso envolve comprovar existência, localização, integridade, titularidade e, quando aplicável, adicionalidade e ausência de dupla contagem.

Para o agro brasileiro, a oportunidade está justamente na combinação de território, dados, sustentabilidade e capital, elementos essenciais para o avanço da digitalização e capitalização no campo. “Esse momento representa uma nova oportunidade para o país, uma oportunidade para as empresas e produtores”, concluiu Rocha.

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